A direita da Baía de Espinho. Click por Ricardo Faustino A direita da Baía de Espinho. Click por Ricardo Faustino

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quinta-feira, 06 agosto 2020 05:43

CRÓNICAS DE UM SURFISTA DE MEIA IDADE - A DIREITA DA BAÍA DE ESPINHO

Para mim, quando aquela onda funciona no seu total esplendor, só pode ter uma denominação, a Direita da Baía de Espinho!

 

 *Por Rafael Amorim @rafael.amorim.surf

 

 

 

 

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"A direita da Baía de Espinho quando funciona a sério,

 

deve estar reservada para surfistas com alto nível de experiência..."

 

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A direita da Baía em todo o seu explendor. Click por Ricardo Faustino

 

 

 

 

Conheço esta praia desde miúdo com diversos nomes: Praia de Espinho, Praia da Baia, Praia da Baia de Espinho, Praia do Casino, Praia Urbana de Espinho, Praia da Direita do Casino, Praia da Direita da Baia… decidam-se. Para mim, quando aquela onda funciona no seu total esplendor, só pode ter uma denominação, a Direita da Baia de Espinho!


Quem já teve a sorte de perceber como aquela onda mítica funciona entende que, depois de a surfar, não interessa o nome da praia ou do município. Interessa é voltar para cima dela. Para mim, é uma das melhores ondas do Norte de Portugal. Que, quando funciona a sério, deve estar reservada para surfistas com alto nível de experiência. Não é à toa que já tenha albergado alguns campeonatos da WSL.


O Surf leva-te aos limites e a acreditar naquilo que consegues fazer. Aliás, se fores para dentro de água e pensares que não consegues surfar, porque não estás bem, porque tens mais medo e ansiedade do que habitual, mais vale saíres e avaliar se tens condições físicas e mentais para estar dentro de água. Não temos de ter vergonha se, depois de entrar, sairmos porque não estamos em condições para surfar.


Não se esqueçam que não precisamos de ser fisicamente muito fortes para estar dentro de água. É necessária preparação física, mas, sobretudo, conhecimento técnico, estar no local certo, no momento certo e acreditar que somos capazes.

 

 

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"Não temos de ter vergonha se,

 

depois de entrar,

 

sairmos porque não estamos em condições para surfar..."

 

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Luís Cruz é um dos Riders que mais aproveita as direitas da onda da Baía de Espinho. Click por Ruben Almeida

 

 

Foi isso que aconteceu no final do verão/outono do ano de 2004. Foi um período da minha vida em que estava seguro, confiante, com preparação física, emocional e profissionalmente estável.


Numa determinada manhã, até porque me tinham falado que ia entrar um bom swell, decidi não ir trabalhar e rumar a Espinho. Naquela altura morava em frente à Praia de Salgueiros, em Canidelo, Vila Nova de Gaia, e à medida que ia passando a Praia da Sereia, Paredão, Rocky Point, BPA, entre outras, via a ondulação um bocadinho grande e que esticava com o vento leste a entrar.


Como normalmente a baía de Espinho aguenta a ondulação grande pensei que estaria ao meu nível ou, se tal não acontecesse, sempre podia surfar num outro pico mais pequeno. Por isso, em vez de levar a minha Longboard, optei por uma 7,4””.
Naquele tempo era possível chegar de carro sem grande dificuldade à orla da praia de Espinho. Não me recordo se era dia de feira, mas tive alguma dificuldade em lá chegar e quando finalmente chego à praia, vejo dezenas de carros de surfistas estacionados em cima do passeio, com malas abertas, pranchas espalhadas, fatos de neoprene a secar em cima do muro e uma agitação pouco comum.


Consigo estacionar naquele descampado ao lado do edifício da GNR/Brigada Fiscal junto à praia e, novamente, deparo me com o mesmo cenário. Mais algumas dezenas de carros, com surfistas equipados, pranchas espalhadas e tudo a olhar para o horizonte.
Quando chego a meio desta praia é que percebo a agitação, estava uma direita perfeita, com uma extensão enorme, a quebrar quase em cima do paredão. A Direita da Baía estava a dar em força. As ondas do Set, claramente, ultrapassavam os dois metros. Via um surfista a sair da praia com uma prancha partida ao meio e muitos no areal a apreciar o espectáculo.

 

 

 

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"Em vez de levar a minha Longboard, optei por uma 7,4..."

 

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No início fiquei um pouco receoso, mas decidi cingir ao meu plano inicial, chegar ao pico, tentar apanhar uma onda e se não conseguir, afasto-me para apanhar réplicas ou ondas mais pequenas.
Para apanhar aquela direita, tanto quanto sabia, tinha de remar sempre junto ao paredão, esperar entre as pedras pelo quebrar das ondas e, logo que possível, num período de acalmia remar o mais depressa possível para o outside. Assim o fiz. Quando lá cheguei, sentei-me em cima da prancha e vi uma dezena e tal de surfistas muito mais tarimbados do que eu e que, entre eles, iam-se revezando nas ondas daquela manhã.  
Só os conhecia de vista, cumprimentei-os e fiquei com a sensação de que olhavam para mim como que a dizer: “Mas o que é que este tipo está aqui a fazer”. Admito que parte de mim questionava o mesmo, mas havia algo que dizia que tinha de estar naquele local, naquele momento e que me tinha de controlar por muito receio que tivesse. Remei, ainda mais para o Outside, para ver como é que eles apanhavam as ondas.

 

 

 Luís Cruz prepara o encaixe para mais uma viagem por dentro da direita da Baía de Espinho. Click por Pedro Pikas Pimenta

 

 

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“Mas o que é que este tipo está aqui a fazer...?”

 

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A medida que via as ondas passarem, os set’s a entrarem, via aqueles surfistas a dar um salto no escuro, no vazio, como se não houvesse amanhã. Fiquei com a impressão que, para aquele tamanho, não podia estar com hesitações.  
Deixei passar algum tempo e fui me chegando para o junto do pico onde a onda começava a quebrar e eis que alguém me diz: “É tua.”. Dei um pequeno olhar por cima do meu ombro direito e vi a onda a formar-se. Recordo me que, por esses dias, ofereceram-se o Master of Reality dos Black Sabbath (Sabbath, 1971), onde está a música “Into the Void”. Só me lembro, enquanto remava e posicionava o meu corpo em cima da prancha de ouvir os riffs de guitarra, a bateria a acelerar e o Ozzy a cantar “(…) Leave the earth to all its sin and hate. Find another world where freedom waits (…)”. Tinha de saltar para o vazio.
Um drop descomunal, mas controlado. Senti as minhas pernas tremer, mas, em segundos, cheguei à base e, como que em slow motion, faço o bottom turn, subo em velocidade para logo descer e perceber que aquela onda queria quebrar em cima de mim. Centrei a prancha na onda, coloquei uma mão no rail, o joelho encostado e deixei me levar pela velocidade para dentro daquele vazio. Senti tudo a fechar à minha volta, a ficar escuro e a ser cuspido borda fora.
Ainda voltei ao pico, mas não consegui apanhar mais nenhuma daquelas ondas. Começou a ficar muito agressivo para mim. Fui apanhar algumas ondas mais pequenas, mas, passado pouco tempo, sai da água. Estava orgulhoso, com pena de ninguém ter filmado aquela onda, mas senti que tinha atingido um objetivo. Qual seria… Não sei. Mas naquele dia algo mudou.

 

 

 

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"Senti as minhas pernas tremer, mas, em segundos,

cheguei à base e, como que em slow motion,

faço o bottom turn,..."

 

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O certo é que, tanto quanto me apercebi, nunca mais na minha vida apanhei uma onda tão grande como aquela, nem o desejei. Mas ficou o registo de uma das melhores ondas da minha vida. Uma Direita da Baia de Espinho.

 

Nota: O Luís Cruz é um dos Riders, em Espinho, que personifica o que acabei de escrever e que merece destaque com a publicação das suas fotos acima...

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