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sexta, 31 janeiro 2020 14:58

SURFAR SOZINHO !

O que significa surfar sozinhos nos dias que correm?

 

 

A incrível luz de Janeiro de sol intenso realçam o mar azul cristalino de inverno, nele apenas uma pequena brisa tímida ajudava a aperfeiçoar um dia clássico de surf na costa portuguesa no carro decido ir para Santa Cruz onde os fundos estão razoáveis e talvez possa surfar sozinho.

O que significa surfar sozinhos nos dias que correm?

 

 

 

"Surfar sozinho é um pensamento ou uma experiência

é o saber desligar, refletir e regenerar" - Gerry Lopez

 

 

 

 

A vista de terra aparentemente segura. Click por João Brakourt.

 

 

 Gerry Lopez clarifica que o ato de surfar sozinho é talvez podermos estar sós é ter a capacidade de nos interrogarmos por algo menos bom que fizemos no passado, é um pensamento ou uma experiência é o saber desligar, refletir e regenerar.

O crowd quando agressivo não é mais do que a transição da conduta da sociedade para o mar assentes nos valores de conquista de competitividade de performance e de luta, nos dias mais intensos transformem as ondas em dinheiro e duma forma caricata podemos imaginar uma amostra de Wall Street no oceano,  Clay Marzo afirma que “o mar perfeito é aquele onde não há ninguém para o distrair” ele tem razão muitas vezes mais vale um mar sem ninguém do que altas ondas atoladas de surfistas.

 

 

 

"O crowd quando agressivo não é mais

do que a transição da conduta da sociedade para o mar"

 

 

 

Mas mesmo quando está crowd é possível estarmos sozinhos, dar tréguas aos outros e a nós próprios e irmos em busca do silêncio interior, é impossível reduzir o surf apenas a um espaço desportivo ou de lazer, a conexão com a natureza leva-nos a um outro patamar espiritual que é sem dúvida um valor maior.

A própria rebeldia de Miki Dora nos final dos anos 60 e que foi crescendo á medida que a multidão em Malibu e no sul da Califórnia aumentava não foi tanto uma crítica ao mainstream que ele próprio fez parte, quando Hollywood despertou para os filmes de surf, Dora fazia parte da máquina que ele alegava desprezar, o seu desprezo genuíno era a ameaça do crowd e o deixar de poder surfar sozinho.

 

 

 

"A tecnologia e o excesso de consumo das sociedades modernas

faz-nos querer atingir algo acrescentando continuamente alguma coisa."

 

 

 

Chego à praia e ao sacudir o fato molhado com a areia fresca a salpicar reparo que os fundos afinal não estavam grande coisa e as ondas do set fechavam com autoridade.

Penso então nesse momento que todos nós já sentimos por algum momento o prazer de estarmos sós dentro de água, há quem meritoriamente procure ondas grandes ou perfeitas mas a busca a nós próprios é transversal a qualquer tipo de condição de mar e é um luxo maior, a contemplação desses momentos ultrapassa os prazeres de curta duração. De que vale apanhar a onda rainha do set se estivermos em estado de permanente ansiedade por causa do crowd ?

Também a tecnologia e o excesso de consumo das sociedades modernas faz-nos querer atingir algo acrescentando continuamente alguma coisa, o estarmos sós na natureza é um escape milagroso e representa o oposto, é retirar e subtrair, aprender a viver com esse menos em detrimento do mais é um luxo que nos privilegia enquanto surfistas.

Chego lá fora depois de mandar um daqueles clássicos papéis hilariantes culpa do lipe onde fiquei preso antes de despencar  sinto nesse instante que a experiência de estarmos sós no mar constitui um fim em si mesmo, não se mede nem se pesa tal como muitas outras coisas mas perder esse sentido contemplativo é limitar o surf a um outro desporto qualquer, aprimorar o surf não significa apenas evoluir nas manobras mas no sentido mais espiritual representa evoluirmos o nosso próprio eu.

Entretanto no pico vejo um surfista a dar uma gargalhada libertadora depois de uma queda aparatosa, só os dois na água esse seu riso libertador passou a ser nosso, a cumplicidade gerada pelo riso apenas clarifica que no fundo surfarmos sozinhos não transforma a nossa habilidade de surfar numa satisfação o que transita sim é essa energia inexplicável e inútil num modo de vida vital e superior, que venham mais baldes destes.

 

 

 

texto: Bernardo “Giló” Seabra 

 

John Macgrath a descobrir o surf solitário na Costa Algarvia durante este mês de Janeiro. Click por João Bracourt

 

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