O Australiano Mikey Wright prepara a entrada para o seu heat na Triple Crown Havaiana O Australiano Mikey Wright prepara a entrada para o seu heat na Triple Crown Havaiana WSL / Damien Poullenot

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sábado, 17 novembro 2018 16:46

O PESADELO

"Às quarta feiras o miúdo Manel não tem aulas e costuma ir surfar para a Piscina de Beja no Alentejo...

Com a migração massiva do litoral para o interior, Beja tornou-se a capital de Portugal e é lá que se encontra a melhor piscina de ondas do país, o que permite ao Manel surfar todas as quartas feiras e fins de semana.

Em 2058 já ninguém vive na Costa está muito tóxica para os humanos sobreviverem, por lá ficaram os malucos, mendigos e algumas almas generosas que trabalham para ONGs

Eu já com 80 anos costumo dormir pouco e nesse dia acordei cedo e fui para a piscina mas esqueci-me que esta só abre ás 9h da manhã, fiquei então á conversa com o Manel acabado de chegar, ele estranhou a minha prancha de espuma e fibra, já existem poucas e é uma relíquia para esta nova geração.

Perguntei a este jovem de 16 anos se não tinha curiosidade de surfar no mar, Manel surpreendido ripostou o Oceano está nojento imundo e esta onda de Beja é perfeita!

Procurei dizer que a imperfeição faz a perfeição que a imperfeição é real e a perfeição não, ao mesmo tempo que falava sentia a angústia de quem sabe que não seria compreendido.

Finalmente toca a buzina de entrada, nós com a senha na mão, já podemos surfar! sentimos logo a água a 30 graus ou será 35? com o aquecimento elétrico da piscina vejo as borbulhas de água quente no meio das ondas de cloro, começo logo a transpirar.

Pergunto ao Manel se sabe o que é água fria, o que é isso?? e uma onda com leitura, o que é isso ?? e lutar contra a corrente, o que é isso??desisto de fazer perguntas mas fico a pensar que o jovem Manel nunca irá sentir a sensação e o prazer de tocar com os pés na areia fresca da noite anterior, nunca irá sentir a imprevisibilidade do mar e o cheiro da brisa marítima que sacode as costas de cada onda através do vento, enfim para ele ir ao oceano é uma sentença de morte.

Aliás o oceano virou uma banheira global, inundada de plásticos, onde canalizamos toda a merda humana, cheia de lixo hospitalar carregada de antibióticos e milhões de litros de petróleo bruto.

Depois do surf despeço-me do Manel e recordo que não são apenas os loucos os mendigos e os doentes que estão junto ao mar , por lá andam também os últimos aventureiros, aqueles surfistas que sabem que vão morrer intoxicados mas mantém bem vivo o lema de ir em busca da melhor onda ou como dizia John Severson “ ir em busca da onda perfeita “ mal sabe Manel o que é a onda perfeita, com marés oscilantes, vento, areia e rochas, sim todas elas imperfeitas e reais é por isso que se dizem perfeitas.

Ao entrar no carro tomo a decisão inevitável e sigo pela autoestrada em direção a Sagres, a agonia aumenta quase de forma tão intensa como o cheiro tóxico proveniente da costa, penso que a vida como no surf só pode ser compreendida se olharmos para trás ( as tais linhas nas paredes das ondas do mar ) mas só pode ser vivida se olharmos para a frente ( as tais manobras transgressoras nas piscinas ) e começo a imaginar o surf desconcertante de Mikey Right, ninguém como ele conjuga tão bem o passado com o presente, as linhas clássicas com o surf moderno.

Só faltam 10 km, quase a ver o mar, sou embriagado por um cheiro tóxico insuportável, nesse instante subitamente os meus pulmões começam a fechar, deixo de respirar, vejo a estrada desfocada e repentinamente sinto os meus ombros a abanar e um barulho ensurdecedor.

Assustado abro os olhos, embrulhado nos lençóis da cama encharcados de suor acordo do pesadelo aliviado com os gritos do meu filho:

-“Pai acorda! Estão altas ondas no Guincho “

 

*Por Bernardo Seabra

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