Miki Dora em Malibu Miki Dora em Malibu Ilustração - cargocollective.com
terça-feira, 19 julho 2016 10:37

A CULTURA REBELDE NO SURF ACABOU?

É difícil descrever hoje em dia o que é a rebeldia no surf, prevalece uma espécie de “ senso comum”, do politicamente correto, de domesticação através dos media...



O conceito de rebelde no surf provavelmente já não existe, basta vermos as conferências de imprensa dos surfistas na WSL na esmagadora maioria politicamente corretas tornando-se muitas vezes aborrecidas…salvo algumas excepções, CJ Hobgood ( já retirado ) pela  carga emocional  como fala, Mason Ho pela sua graça ao melhor estilo stand up comedy ou mesmo Kely Slater sempre inteligente nas suas análises.

O maior símbolo do surf rebelde de todos os tempos é talvez Miki Dora “ the cat”,surfista de Malibu -Califórnia nos anos 50/60, preso duas vezes, uma pelo FBI por fraude e falsificação de cheques para poder viajar pelo mundo a surfar, o lema ” a liberdade de surfar sem trabalhar”, nem que para isso fosse preciso roubar…

Nos anos 70 surgem as drogas duras que “ rotularam “ o surf de marginais, de forma enganadora diga-se, mas muitos bons surfistas nos anos 70/80 foram apanhados nesta teia do vício, em Portugal temos alguns bons exemplos, António Pereira Caldas fundador da Lipsticks morreu de overdose,Paulo Inocentes o melhor surfista da sua geração,( será sempre um dos maiores nomes do surf nacional ) sofreu com os malefícios da droga , Peixe surfista de Carcavelos teve um fim trágico , mais tarde nos anos 80, o talentoso surfista da Costa, Ricardinho que precocemente deixou de surfar …estes como outros nessa altura personificam o que era o surfista rebelde ou anti sistema.

Nos anos 90 os surfistas passam do estereótipo de ”marginais e drogados” a “cool” e os rebeldes dos anos 90 consistem em ser mais contra a cultura do próprio surf , Christian Fletcher e Matt Archbold são os anti heróis tatuados do momento, surfistas cheios de talento e criatividade criticavam a atitude dos Pro Surfers, mais focados no dinheiro, fama e competições.

*Christian Fletcher

Dáda Figueiredo, carioca da zona norte do Rio, no início dos anos 80 dizia que os melhores dias para surfar eram quando o Brasil jogava no mundial e o crowd bazava…anti-social,muito carismático e cheio de talento, é o expoente máximo do surfista underground brasileiro na época.

Na terra do Duke existiu sempre o “rebelde agressivo” Johnny Boy Gomes,Sunny Garcia e Makua Rothman por esta ordem temporal, são alguns bons exemplos, mas todos eles provém da intimidação pelo localismo, a meu ver a rebeldia não é isso (surge na sua essência dum estado solitário e individual) mas há outros, não tanto pela agressividade mas pela sua personalidade irreverente, como Bruce Irons que chegou a perder todos os patrocínios apesar de ser um destemido e extraordinário “tube rider” nunca foi um grande competidor e o seu irmão Andy, três vezes campeão do mundo, tinha um lado instável que o levou a cometer muitos excessos acabando por morrer precocemente aos 32 anos.

Na mudança do século o mais parecido com rebelde, para além dos imãos Irons, são os casos de Bobby Martinez e Dane Reynolds, Bobby saiu do circuito mundial sem papas na língua criticando a ASP ( antiga WSL )de forma violenta e dura, Dane Reynolds há mais de 10 anos que não sabe o que há de fazer com tanto talento e fama, é uma espécie de surfista deslocado mas genuíno, recordo vê-lo á conversa,  durante muito tempo, com o shop ainda preso no pé, tal como os putos… há uma lado diferente em Dane, quase ingénuo, desligado de tudo e de todos…

Posto isto é difícil descrever hoje em dia o que é a rebeldia no surf, prevalece uma espécie de “ senso comum”, do politicamente correto, de domesticação através dos media,onde todos se comportam em conformidade um pouco em sintonia com o que se passa na cultura pop no momento.

Os surfitas alternativos de hoje em dia, são diferentes por ser ECO : Surf ECO Resort, Pranchas de madeira ECO, Roupas de surf ECO, Surf camps ECO , Discursos ambientais ECO,….estes sufistas  procuram sair do mainstream comercial que o surf tornou-se mas o mainstream já virou ECO também

* A chamada de atenção para o problema da poluição é uma das associações mais frequentes das Marcas de surf nos dias de hoje

O que resta da rebeldia no surf? Este inverno em Sagres encontrei um grupo de bodysurfing (surf só com o corpo sem prancha),onde estava o Gonçalo Faria da Praia Grande entre outros,  com ar desprentesiosos em busca de ondas sem ninguém, subiam as rochas pelo mar e voltavam a saltar para água só porque lhes apetecia….as pessoas olhavam,os próprios surfistas estranhavam e pensavam o que é que estes malucos andam  a fazer?

 Keith Malloy um dos conhecidos irmãos, surfista e praticante de bodysurfing, explica isso mesmo, há qualquer coisa no bodysurfing na Califórnia que atrai pessoas diferentes, algumas cómicas até, que não estão preocupadas com visibilidade ou com que os outros pensam.

No bodysurfing a exigência física é enorme, o corpo pode ser utilizado de tantas maneiras diferentes que é dificil haver um estilo semelhante, a arte de pelo menos 50% do nosso corpo estar acima da água e começar a planar direcionado através da nossa mão sendo uma das maiores interações entre a natureza e o homem.

The Pipeline Classic, campeonato mítico de bodysurfing, o evento mais undeground no surf, chegou a ser uma prova profissional nos anos 80 mas sem apoios de sponsors voltou a ser um evento amador.

Body surfing não é notícia, não tem visibilidade,não vende… este pequeno grupo de praticantes são os novos anti heróis do momento, ironicamente praticar o surf na forma como ele começou, tornou-se talvez na atitude mais rebelde no surf.

 

Por Bernardo(Giló) Seabra

 

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