quinta-feira, 29 abril 2021 07:54

Nó de água - A Caminho do Oeste

João Valente fala sobre a perna australiana do CT...

 

Metade da vitaminada perna australiana do World Tour ’21 já passou, com clara preponderância para o surf lusófono, Frederico Morais incluído. O que vimos até agora e o que teremos pela frente?

 

 

Narrabeen foi o palco da segunda etapa da perna australiana do CT. Foto:WSL/Miers

 

 

O novelista norte-americano, William Faulkner, escreveu no seu romance de 1951, "Requiem Por uma Freira" uma das suas mais citadas frases: "o passado nunca está morto. Ele sequer é passado.". Entre outras, foi essa a sensação dominante ao longo das duas primeiras etapas australianas do ano, disputadas em praias muito familiares ao surf profissional, mas estranhas ao World Tour. Público desmascarado na praia, surfistas perseguidos por multidões de miúdos e fãs, ex-profissionais e lendas do desporto a servir a sua presença e sabedoria... tudo como dantes. Talvez melhor. O sabor acentuado pelas saudades a tornar suportáveis mesmo as condições medíocres do mar em alguns dias. Após três meses de incertezas, o familiar tom monocórdico e a "Muralha de Ruído Positivo" de Joe Turpel a soar como João Villaret a recitar Pessoa. Até as sempre enigmáticas derivações no julgamento já faziam falta!

 

 

Competir por atenção

 

O atleta brasileiro Yago Dora.  Foto:WSL/Dunbar

 

Antes da retoma do circuito, em Pipeline, e mesmo depois disso, no intercovid entre dezembro '20 e abril '21, uma das questões que haviam sido levantadas para lá da "Muralha" tinha a ver com a relevância do surf de competição após um ano em que a as buzinas da Liga MEO e da desenxabida Countdown Series foram das únicas ouvidas nas praias do planeta azul. Um ano em que, mais ou menos confinados, os surfistas disputaram somente heats de atenção nas redes sociais com o público a perceber, ou a ser recordado, que o surf é, acima de tudo, um desporto de participação e não de assistência, residindo aqui a perpétua dificuldade de venda desta atividade à grande massa consumidora de desportos mainstream.

 

Mas o aforismo faulkneriano de que o passado se recusa a morrer prevaleceria e, cedo, percebemos o quanto sentíamos falta das competições profissionais de elite, que todos amamos adorar e adoramos odiar. Por mais clips de surf "auto-expressivo" que nos invadam os ecrãs de telemóvel e dispositivos afins, a curiosidade e a excitação são despertadas pelas disputas frente a frente, em condições iguais e por tempo determinado. A sempre inconclusiva resposta à omnipresente pergunta sobre "quem é o melhor" consome-nos a alma e dirige as nossas sensações. Cola-nos a ecrãs a horas impróprias e por períodos de tempo absurdos. Consome-nos argumentos, teorias e explicações. E, caraças, que falta sentíamos disso tudo!

 

 

Velhas praias com sabor a novidade

 O lineup em Narrabeen. Foto: WSL/Dunbar

 

Merewether, Narrabeen e a inóspita Rottnest Island foram adições de última hora para salvar uma perna australiana — e todo o World Tour, a bem da verdade — que se via ameaçada por aquele-motivo-que-já-ninguém-tem-pachorra-de-mencionar. E bem nos podemos congratular de termos uma Austrália. Há muito que os surfistas da Grande Terra Antártica do Espírito Santo perderam a primazia competitiva que os definiu durante décadas, mas o país que inventou o surf-competição como profissão é ainda o sítio onde o surf mais se parece com um desporto de primeira relevância. Tal como o Nick Carroll descreveu num recente artigo no Surfline, "perceber (o surf) a fundo — os porquês e as razões, as complexidades de um heat, o motivo da coisa toda existir —é território dos fãs australianos". Afirmar que o circuito inteiro se poderia realizar no Down Under é menos especulação que constatação. Simplesmente não existe em todo o mundo um país onde mais prontamente se encontram condições extraordinárias para isso acontecer. O que testemunhamos em 2021 não foi mero acaso.

 

Ambas as praias da costa leste aussie possuem uma enorme importância e um longo historial no surf profissional. Terem surgido em 2021 como salvadoras da pró-pátria tem algo de epifânico. Narrabeen, em especial, por ter sido palco de uma série de momentos-chave da evolução do surf, com impactos profundos que foram muito além das competições. O Coke Surfabout, ali realizado entre 1974 e 1992, foi talvez o evento mais divisor de águas da história do surf profissional. Ali estabeleceram-se padrões de premiação, de formatos de prova, de performance e, principalmente, de design. Quem se interessa por estas coisas, deveria ler o excelente artigo escrito por Stu Nettle sobre o Surfabout de 1992 no site (lá está!) australiano Swellnet, provando, mais uma vez, que o passado nem morre, nem sequer é passado.

 

 

O julgamento sob julgamento

 

Ítalo Ferreira na Ronda de 16 do Rip Curl Narrabeen Classic. Foto:WSL/Dunbar

 

Neste abril de 2021, não foi só no Caso Marquês que os decisores se viram postos em causa. Se Ivo Rosa foi alvo de uma sentença pública mais severa, também o chefe de juízes da WSL, Pritamo Ahrendt, e a sua equipa foram criticados por algumas decisões controversas. A maior delas a envolver o "aéreo incompleto mais completo de sempre", protagonizado por Ítalo Ferreira em Narrabeen. Muito se disse e escreveu sobre o assunto, a maior parte das vezes com conclusões mais ao lado que a manobra em causa. Os comentários mais interessantes, no que tem sido uma constante desde a feliz hora em que alguém na WSL teve a brilhante ideia de pôr Mick Fanning e Ross Williams a discutir as nuances da competição no excelente Getting Heated, foi enunciada por Williams, ao destacar um aspeto que por diversas vezes abordámos na SurfPortugal (afinal, sempre há passados que morrem...): porquê a avaliação tem de ser tão preta ou branca? O que justifica que um brutal aéreo (tubos longos com queda muito próxima da saída também nos vêm à memória), mesmo considerado incompleto, valha tanto quanto um embicanço num básico off-the-lip? Não haverá diferenças (de risco? de técnica? de determinação?) a serem levadas em conta de modo a reconhecer que manobras quase completas, não sendo obviamente merecedoras de hi-scores, possam ser mid-scores?

 

As bitolas de avaliação têm sido, desde sempre, o grande problema desta bíblia de convenções a que, passe o pleonasmo, se convencionou chamar, pomposamente, de critérios de julgamento. O ponto 13.05, curiosamente (ou não) um dos mais curtos e menos esclarecedores capítulos do livro de regras da WSL — herança que vem desde os tempos da IPS, é elucidativo. É por aqui que passa, num exemplo por demais evidente em Narrabeen, a obsessão com o chamado surf "progressivo" por oposição ao que, por aferição, deveremos assumir como surf "tradicional". E não venham abanar com a bandeira de Morgan Cibilic para justificar que tal obsessão não existe. Todas as ocasiões onde o talentosíssimo jovem australiano se viu confrontado com manobras da família progressista, nomeadamente nas duas derrotas para Gabriel Medina, ele perdeu. Não que o resultado tenha sido injusto, bem pelo contrário, mas só para dizer que o facto de Cibilic ter alcançado dois excelentes resultados consecutivos nada prova.

 

Outros exemplos haverá, mas os momentos que tornam mais evidente o funcionamento da bitola estão na avaliação das rasgadas de Ítalo Ferreira, reminiscentes do melhor vintage Occhilupo, colheita de 1984, na derrota para o também tradicionalista Conner Coffin e na primeira onda do novato (e muita atenção a ele!) Reef Heazlewood nos oitavos-de-final contra o insipiente Griffin Colapinto. Tanto a violência explícita das curvas de Ítalo como o roundhouse de volta completa de Reef foram vítimas claras da bitola, a tornar manobras passíveis de serem avaliadas segundos os previstos critérios de determinação, grau de dificuldade, variedade, velocidade, power e fluidez, em subavaliações em face do critério de inovação e progressão. Três critérios subjugados a um, para mais quando a alínea complementar da secção 13.05 — "é importante notar que a ênfase de certos elementos depende das condições do dia, bem como das mudanças das condições durante o dia" — parecia justificar plenamente a valorização daqueles. Por algum motivo vê-se tão pouca gente a executar verdadeiros roundhouses e rasgadas com a agressividade das de Ítalo.

 

Kick-Ass Morais

     Frederico Morais durante o Rip Curl Narraben Classic. Foto: WSL/Dunbar

 

A pouca atenção por parte dos escassos comentadores internacionais que se dão ao trabalho de cobrir jornalisticamente os circuitos da WSL leva a pensar se a relevância do surf de Frederico Morais é um fenómeno unicamente local que nós, provincianamente, empolamos. Pode ser, mas antes de saltarmos para conclusões, convinha perguntar a Jordy Smith, Ace Buchan, Matt Banting, John John Florence, Michel Bourez, Filipe Toledo ou Ethan Ewing se concordam. Olha, já agora, convém perguntar até a Gabriel Medina, uma vez que o algoz do Kikas em ambas as provas encontrou no português um dos poucos adversários que lhe exigiu o máximo de aplicação. Porque, neste momento, Frederico é como um tubarão esfomeado: ao mais breve aroma de sangue, ao mais leve sinal de fraqueza, ele ataca. E não é um ataque qualquer, é uma investida para matar.

 

 Frederico Morais Foto: WSL/Dunbar

Ainda será cedo para considerar certa uma presença na Grande Final de Trestles, mas os indícios deixados nas provas da Costa Leste dão muita força ao sonho. Eram provas que, teoricamente, favoreciam menos o português do que as duas que se seguem. Sabemos bem que isto das teorias tem muito que se lhe diga mas, por isso mesmo, deixamos aqui mais uma: tivesse derrotado Medina, não vemos por onde Frederico poderia ter falhado a vitória em Narrabeen. Empolamento provinciano? Perguntem ao Toledo.

 

 

À Conquista do Oeste

 

Medina é o atual líder do ranking após vencer a última etapa do CT em Narrabeen Foto:WSL/Dunbar

 

Metade dos surfistas presentes nos quartos de final de ambas as provas da Costa Leste eram de origem lusófona. Oito em dezasseis. Sete brasileiros e um português. Com as vitórias de Ítalo em Newcastle e Medina em Narrabeen, a preponderância latina sobre o mundo anglo-saxão foi evidente. Irá manter-se na Costa Oeste?

Apesar das bancadas de pedras, Merewether e Narrabeen são, essencialmente, beachbreaks, bem diferentes das bancadas de pedra expostas às cruas e duras ondulações dos Roaring Forties que vamos encontrar no rio de Margaret e na ilha de Rottnest. E, pelo que se vê nas previsões, não vai haver falta de swell. A mudança de litoral arrastará inevitáveis consequências nas performances. A leveza flutuante dos aéreos dará lugar às curvas pronunciadas. Com The Box potencialmente em jogo, os tubos vão passar de exceção a norma. Os players irão mudar? A ver vamos.

 

 

Ladies first...

 

A australiana Tyler Wright Foto:WSL/Dunbar

 

Pelo lado feminino, três surfistas têm muito a provar, a começar por Tyler Wright. Tendo concentrado em si toda a conversa em torno do surf feminino no período pandémico por conta do seu ativismo político, a australiana vencedora em Pipe surgiu em praias domésticas num estranho e, até ao momento, inexplicável estado de desconexão com as ondas, com o surf, com a estratégia e com as pranchas. A certa altura, parecia que o seu desabrochar woke andava a fazer de combustível para a tornar numa vencedora ainda mais feroz do que já é. No entanto, a partir daquela invenção estratégica em Merewether e do literal afundanço em Narrabeen, deixam dúvidas se esse desabrochar terá tirado ou posto mais peso sobre as suas costas. Carissa Moore, dominante em Newcastle — onde fica a igualdade de género diante do olhar condescendente sobre o celebrado air-reverse de meia rotação? — surgiu muitos pontos abaixo desse nível a surfar de backside. Com a habitual predominância das direitas no Main Break e dos tubos em The Box, a expectativa é de um reajuste de contas. Vencedora em Narrabeen e aparente escolhida do momento entre os membros do painel de júri, a jovem americana, Caroline Marks, tem nas linhas longas e amplas paredes das ondas do Oeste oportunidade de confirmar o estatuto de séria candidata a herdeira de Lisa Andersen na conquista do cetro feminino por uma surfista da Mainland America. Se chegar a competir em The Box, terá de provar a qualidade inegável do seu surf de backside em slabs. Um bom desempenho aqui, garantirá níveis estratosféricos de confiança.

 

 

Then the lads...

 

John John Florence Foto:WSL/Dunbar

 

Pelo lado masculino, é de esperar que Jack Robinson, Jordy Smith, Owen Wright e Adriano de Souza, meros coadjuvantes nas etapas anteriores, cresçam em protagonismo. Igualmente expectável será a continuação de bons desempenhos por parte de alguns dos que já chegam ao Oeste num bom momento: Medina e Ferreira já demonstraram, em ocasiões anteriores, que têm todas as ferramentas para prolongarem o seu domínio. O entusiasmante Cibilic , o inusitado finalista em Narrabeen, Conner Coffin e, claro, K-Morais, também têm aqui a oportunidade de confirmarem a boa forma exibida a Leste. Quem sabe, talvez até Julian Wilson saia do buraco competitivo onde está metido? Mas se há surfista que, nesta altura, chama a si todos os olhares, é aquele cujo nome ainda mal tinha sido abordado nesta crónica. Sim, ele mesmo. O Double Jay F. Tendo chegado à Austrália com aura de César a caminho da reconquista imperial, John John Florence desembarca no Oeste como justiceiro em busca de redenção. As derrotas consecutivas para Morgan Cibilic devem ter surtido algum efeito, esperamos que positivo. Manobra por manobra, não se discute a superioridade de JJF sobre a jovem promessa aussie. Muito menos se discute a supremacia avassaladora do havaiano sobre o resto da tropa se as direitas do Main Break de Mags estiverem com o tamanho e power previstos. Mas reside exatamente aí a beleza da competição, não é? Veremos se o passado continua presente.

 

 

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