O ensino do Surf em Portugal tem vindo a crescer exponencialmente O ensino do Surf em Portugal tem vindo a crescer exponencialmente Tó Mané
sexta-feira, 27 novembro 2020 21:18

Uma Chamada de atenção sobre a Certificação e Qualificação das Escolas de Surf em Portugal

Porque razão a FPS não efectuou cursos de grau II de Stand Up Paddle, Bodyboard, ou Skimming?

 

É necessário alertar a FPS de que as “constantes críticas à Federação e aos conteúdos do curso” nem sempre são destrutivas, e têm como objetivo algo que é comum a todos os praticantes e operadores da indústria: o crescimento saudável e sustentável do surf em Portugal.


 Imagem: a professora Dora a socorrer uma criança aluna de uma outra escola.



"Nos últimos anos, o surf tem crescido de forma exponencial no nosso país, quer ao nível de atletas profissionais, quer ao nível de praticantes comuns (ou free surfers). Consequentemente, dispararam os números de novas escolas de surf nas praias de norte a sul. Mas será que a qualidade e o profissionalismo das mesmas têm vindo a acompanhar a expansão da indústria?

Em abril deste ano, a Federação Portuguesa de Surf (FPS) foi entrevistada pela revista/site Surftotal para falar sobre “a crise no ensino do surf em Portugal”. Infelizmente, algumas questões fundamentais ficaram por esclarecer.

Relativamente à qualidade dos treinadores de surf em Portugal, a FPS defende “a necessidade de estas terem um treinador com (no mínimo) a CTD grau II para ser responsável técnico da mesma e para supervisionar as sessões (sempre presente)” (fonte: Projeto de Legalização e Registo Único das Escolas de Surfing e Empresas de Animação Turística, fevereiro 2017).

 

 

 

"Em Portugal temos uma média de 4 escolas de Surf

 

por cada “responsável técnico...”

 

 



Esquece-se, contudo, de referir que a própria Federação permite que o mesmo treinador possa ser “responsável técnico” por mais do que uma escola de surf. Ora se em 2019 existiam 320 escolas registadas e atualmente estão credenciados com cédula de treinador grau II, cerca de 80 treinadores, temos uma média de 4 escolas por cada “responsável técnico”. Será exequível que uma pessoa seja responsável por supervisionar e coordenar uma equipa presencialmente em quatro escolas (ou mais) em simultâneo? Será possível, sob estes moldes, garantir a segurança e a qualidade tão desejada pela própria FPS?

Para não falar de algo que é inequivocamente conhecido no meio: o facto de um treinador ser responsável técnico por escolas em vários pontos do país…

 

 

 

"Há poucas semanas, socorri uma criança que se lesionou ao sair da água,

 

e não sabia onde estava o instrutor..."

 

 



A não presença de um responsável técnico nas atividades de uma escola tem constantemente consequências práticas, tendo eu próprio já assistido a situações de alunos de outras escolas por incompetência dos instrutores. Há poucas semanas, socorri uma criança que se lesionou ao sair da água, e não sabia onde estava o instrutor nem os colegas. Ajudei-o a recuperar e a procurar o instrutor e, surpreendentemente, encontra-mo-lo já junto à carrinha da escola, a despir o fato, dando o treino por terminado, ou seja, esquecendo-se de uma criança lesionada dentro de água. Escusado será dizer que o responsável da escola não estava presente.

Como esta, existem dezenas de histórias que, infelizmente, assisti em vários anos de ensino de surf.

 

 

 

 

 

"É inquestionável que a qualidade dos cursos de treinador

 

tem de ser garantida pelas entidades competentes..."

 

 

 

 

Relativamente à formação de treinadores, a FPS refere sim que um “modelo com várias entidades formadoras, e uma fraca fiscalização/arbitragem por parte do IPDJ, retira eficácia a esta evolução pela formação”.  É inquestionável que a qualidade dos cursos de treinador tem de ser garantida pelas entidades competentes. Além disso, é imperativo que a primeira edição de um novo curso seja ministrada pela FPS, uma vez que se trata da entidade mais competente para avaliar e assegurar a qualidade do curso.

Deve-se é questionar a FPS sobre o porquê de não existirem referenciais, nem terem aberto cursos de grau II de Stand Up Paddle, Bodyboard, ou Skimming, modalidades que estão sob a sua alçada, e sabendo que existem escolas que ensinam exclusivamente estas modalidades.

 

 

 

"Existe falta de capacidade e conhecimento dos treinadores

 

para atuarem em caso de emergência..."

 

 



Em termos de segurança no ensino, infelizmente verifica-se falta de capacidade e conhecimento dos treinadores para atuarem em caso de emergência. Nos cursos de treinadores, a carga de horária dedicada a este tema é muito reduzida. Porque não haver formação especifica de Resgate Aquático e Primeiros Socorros e SBV, que tenha de ser obrigatoriamente renovada de x em x anos (como é o caso da formação da Cruz Vermelha de três em e três anos)?

Para concluir, é necessário alertar a FPS de que as “constantes críticas à Federação e aos conteúdos do curso” nem sempre são destrutivas, e têm como objetivo algo que é comum a todos os praticantes e operadores da indústria: o crescimento saudável e sustentável do surf em Portugal.


Fontes:
Projeto de Legalização e Registo Único das Escolas de Surfing e Empresas de Animação Turística, fevereiro 2017

Entrevista da Federação Portuguesa de Surf à Surftotal

*Por João Dias / Licenciado em Educação Física e Desporto / Treinador de Surf certificado desde 2003 

Proprietário de escola de Surf e Bodyboard desde 2005
Formador dos cursos de treinador de Surfing Grau I 

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