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quinta, 08 novembro 2018 11:46

Um modelo de inspiração chamado Teresa Abraços

Uma conversa sobre mudança de vida, sobre seguir o que o coração pede e fazer o que verdadeiramente se gosta… 

 

Teresa Abraços é um exemplo, uma inspiração para todos os surfistas, especialmente aqueles que encaram o surf como algo mais do que apenas surfar. Foi campeã nacional, integrou a seleção nacional de surf durante muitos anos, tendo alcançado alguns resultados relevantes, nomeadamente o título de campeã europeia por seleções.

A Surftotal aproveitou a sua presença no mundial de Peniche para uma amena e apaixonante conversa. 

 

Depois de abandonares a competição, começaste a viajar para diversos destinos e isso acabou por mudar a tua perspetiva sobre a vida. Verdade?

Sim, sem dúvida. Quando competia viajei por vários países, mas acabava por não ter tempo para conhecer verdadeiramente esses lugares. Sempre tive de conciliar o surf com um trabalho dito “normal”, por isso, gastava todos os dias de férias em campeonatos. Tornou-se muito cansativo, tanto a nível físico como psicológico, e acabei por tomar a decisão de deixar de competir e usar as férias para surf trips com amigos ou família. 

Foi então que me apercebi verdadeiramente que a minha vida teria mais sentido se aliasse esta vontade de surfar a algo mais virado para os outros, para as comunidades por onde fosse passando. Comecei então a escolher destinos em África e, aí sim, apaixonei-me pelas ondas, pelas pessoas e paisagens deste continente lindíssimo. Essas viagens passaram a ter também como objetivo a interação com a população local, nomeadamente, levando material escolar e material de surf, incentivando-os a ocuparem o tempo livre de forma saudável e até a arranjarem um modo de vida ligado ao que mais gostam de fazer. 

Em São Tomé e Príncipe, que é onde tenho ido com mais frequência, já há pelo menos um ou outro desses jovens a desenvolver o seu próprio negócio, mesmo que de forma muito elementar, na área do aluguer de pranchas e aulas de surf, sobretudo a turistas. Considero muito importante que eles aprendam a esforçar-se para conseguirem algo e não ficarem sempre à espera das ajudas de fora que, no fundo, só aumentam ainda mais a dependência e não geram um crescimento sustentado.

 

“A minha vocação é claramente ajudar através do surf"

 

 

Nunca pensaste levar a competição ainda mais a sério?

Terminei a faculdade a uma sexta-feira e na segunda-feira seguinte já estava a entrar para a TAP. Nem deu quase para respirar! (risos) Quando dás conta, passaram 28 anos!

Para além das aulas na faculdade, tinha a Alliance Française, o Instituto Britânico e o Instituto Alemão. Chegava às férias ou aos fins de semana e, muitas vezes, acabava por ter de ficar “fechada” em Lisboa a fazer trabalhos de grupo ou a estudar, passando frequentemente duas ou três semanas sem surfar.

Quando comecei a trabalhar tive de conciliar a vida profissional com a competição o que, sobretudo naquela época, não era nada fácil. Para além disso, acabava por não ter quase tempo para fazer férias com a família e com os amigos que não fossem do meio do surf. As exigências profissionais e competitivas tornavam-se cada vez maiores e tive mesmo de optar. Claro que optei pela TAP! Naquele tempo era impensável, sobretudo para uma rapariga, conseguir viver do surf. 

 

“Em África apaixonei-me pelas ondas, pelas pessoas e as paisagens lindíssimas”

 

- A beleza de São Tomé e uma versão africana de prancha Polen. 

 

Sabemos que há pouco tempo decidiste deixar essa vida de trabalho dita “normal”. Podes contar-nos o que te levou a tomar a decisão?

Nunca fui de ligar a grandes luxos e, ao longo desses 28 anos de trabalho, fui criando um mínimo de estabilidade financeira que ajudou obviamente nesta decisão. Por outro lado foi muito desgastante, tanto física como sobretudo emocionalmente, acompanhar a doença dos meus pais até falecerem, ambos com cancros. Às tantas, começas a pensar que ainda te falta fazer isto ou aquilo com que sempre sonhaste, e que, ou fazes enquanto ainda tens forças ou depois pode já não dar.

As viagens a São Tomé e Príncipe, o meu envolvimento cada vez maior na SURFaddict (Associação Portuguesa de Surf Adaptado), bem como uma certa saturação da rotina do meu dia-a-dia tão focado no trabalho, contribuíram também para sentir que estava realmente a ficar infeliz com o rumo da minha vida. 

Como gosto de fazer as coisas de forma ponderada, consegui primeiro uma licença sem vencimento de um ano. Digamos que nesse período tive quase uma espécie de processo de discernimento vocacional: voltei a São Tomé, envolvi-me ainda mais com o surf adaptado e passei a ter mais tempo para fazer surf. 

Consegui, posteriormente renovar essa licença por mais seis meses, mas no final desse período tive mesmo de decidir: ou voltava para a TAP, ou deixava definitivamente. Recordo-me de chegar ao pé do meu diretor e dizer-lhe: “Há pessoas que vão para padre, para freira ou para missões médicas. A minha vocação é claramente ajudar através do surf”. E pronto, rescindi com a empresa e iniciei uma nova vida, com o sentido que realmente procurava.    

  

 

Podes-nos explicar o que é a SURFaddict e qual o teu tipo de envolvimento? 

A SURFaddict, na qual sou voluntária e vice-presidente, é uma associação sem fins lucrativos, destinada a proporcionar a prática do surf a qualquer pessoa com deficiência motora, visual ou cognitiva. De abril a outubro, realizamos um evento por mês de norte a sul do país, Madeira e Açores incluídos.

O que fazemos é colocar na água pessoas com diferentes limitações e ajudá-las a deslizar em cima de uma prancha ou apenas a tomar um simples banho de mar. Existimos desde 2012 e já beneficiaram desta experiência, cerca de 1800 pessoas!

Além dos benefícios inerentes à prática de atividade física, o nosso objetivo acaba também por ser, tirar essas pessoas de casa, promovendo um convívio muito agradável entre elas, as suas famílias e nós, os voluntários. Para além disto, a nossa deslocação a várias praias do país, acaba por desmistificar bastante a questão da deficiência e isso representa uma excelente forma de inclusão social. Direta ou indiretamente, acabamos por chamar a atenção das autarquias, concessionários e público em geral, para a importância das acessibilidades, nomeadamente nas praias  - por exemplo, lugares reservados para pessoas com deficiência, casas de banho adaptadas, passadeiras na areia para cadeiras de rodas e cadeiras anfíbias para pessoas com mobilidade reduzida irem ao banho.

Por muitas horas que fique aqui a tentar explicar o que fazemos, nada retrata de forma fiel a atmosfera incrível que se vive nestes eventos. É espantoso o ambiente de alegria, boa disposição e entreajuda que existe. Costumamos dizer que no final do dia não sabemos quem sai de lá mais feliz: se são os surfistas “especiais”, se os voluntários!

 

“A deslocação [da SURFaddict] a várias praias do país, acaba por desmistificar

bastante a questão da deficiência e isso representa

uma excelente forma de inclusão social”

 

- SURFaddict é a verdadeira fábrica de sorrisos!

 

Sabemos que começaram há pouco tempo um projeto novo. Podes explicar em que consiste?

Recebemos inúmeros pedidos, dos próprios ou das suas famílias, para realizarmos estas ações de surf adaptado com mais frequência. Felizmente, este ano, estreitámos ainda mais a relação com um dos nossos principais parceiros, a Buondi. Isto possibilitou-nos organizar as “Buondi Surf Sessions” que, basicamente, são aulas de surf gratuitas por todo o país, para o público em geral, mas abertas também a qualquer pessoa com deficiência, num verdadeiro espírito de inclusão.

A juntar a estes eventos, e até como forma de enriquecimento do nosso trabalho, estabelecemos uma parceria com a ESSA - Escola Superior de Saúde de Alcoitão e iniciámos em abril passado um projeto piloto, já mais orientado para o surf como terapia. Neste momento, sempre que as condições atmosféricas e de mar o permitem, colocamos semanalmente na água quatro surfistas com limitações de vária ordem. O nosso sonho, num futuro próximo, é alargar a mais participantes, mas para já só temos capacidade para esta dimensão mais reduzida.

O estudo piloto está a incidir sobre uma menina de 10 anos, a Maria, que nasceu com uma lesão cerebral. O objetivo é percebermos em que medida a prática do surf tem impacto nas suas tarefas do dia-a-dia. Aos poucos já vamos notando melhorias ao nível da mobilidade, coordenação e equilíbrio, por exemplo, bem como outros benefícios no campo emocional, que tornam o seu quotidiano muito mais fácil.

Tem sido um trabalho apaixonante, até porque a Maria é uma miúda que adora estar no mar e é extremamente alegre e simpática. 

 

- Trabalho de equipa! Família SURFaddict!

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