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segunda, 16 dezembro 2019 11:39

A FASCINANTE ENTREVISTA DE KELLY SLATER

No podcast do Canal Olímpico...

Uma fascinante entrevista ao 11x campeão mundial de surf, Kelly Slater, quando o Rei falou no podcast do Canal Olímpico.

Na entrevista, Kelly fala sobre a sua perspectiva sobre a competição, o seu legado, a sua motivação, a sua história de vida e os Jogos Olímpicos de Tóquio em 2020, mas podes ler tudo abaixo.

 

Kelly, Ainda sente que a sua mente é competitiva ou as coisas são um pouco diferentes e a sua perspectiva agora é diferente?

A minha perspectiva mudou, definitivamente. Existe uma conexão espiritual quando competes. Olhando para trás na minha vida e carreira tenho muita recordações e pensamentos sobre o quão diferente é a minha mentalidade.

O ano passado foi triste, e não apenas por causa das pessoas que morreram, mas também porque sinto que é o fim de um ciclo de vida. Eu acho que é emocionante e triste em partes iguais, tudo isso tem sido uma parte tão importante da minha vida e eu sinceramente não sei quando me vou retirar. Acho que o vou anunciar no dia em que acontecer. Mas sinto que está iminente, mas quando vejo certas pessoas novamente, ou quando sinto falta de certas pessoas, é uma grande emoção.

No fundo tem sido uma coisa boa. Eu acho que provavelmente estou a amadurecer.

 

Qual gostaria que fosse o legado de Kelly Slater? Seria a cereja no topo do bolo competir nos Jogos Olímpicos ou seria vencê-los?

Não, não precisa ser isso. Eu já fiz o suficiente. Se eu não estivesse satisfeito com o que fiz teria um sério problema mental. Para ser sincero, não quero que meu legado dependa da minha carreira. Gostaria de o tomar como certo e só quero que minha vida seja boa. Penso que isso é o mais importante.

 

 

"Os americanos, e talvez mais os australianos,

tornaram-se muito complacentes e talvez vaidosos"

 

 

 

 

 

Muitas pessoas perguntam qual é a sua motivação, o que o motiva. Eu quero saber qual é o seu porquê. Qual é o objetivo de Kelly Slater?

Para ser sincero, não acho que o objetivo de alguém seja realmente muito diferente do objetivo de outra pessoa. Acho que estamos todos aqui para nos darmos bem, sermos boas pessoas, cuidar dos nossos e ser a melhor versão de nós mesmos, isso é algo bastante universal.

Cada pessoa tem algo especial e, no meu caso específico, tem sido o surf, e acho que eu mesmo me psicoanalizo e que outras pessoas também o fazem. Olho para trás e penso: "Por que me tornei nisto? Como me tornei isto e fiz todas estas coisas?

Todos nascemos numa determinada dinâmica familiar e todos reagimos ao nosso ambiente por qualquer motivo. O meu é bem simples. Os meus pais tiveram um relacionamento muito difícil. Não tínhamos muito dinheiro. Os nossos meios eram bastante humildes. A minha mãe adiantava o salário toda semana apenas para nos ajudar. Perdemos a casa em que morávamos quando éramos crianças. Um dia a minha mãe disse: "Temos mais dois meses para pagar a nossa hipoteca". Ela não podia pagar e não encontrou ninguém que lhe emprestasse o dinheiro, então tivemos que vender a casa.

Eu tive um irmão mais velho que me pressionou bastante. Éramos realmente competitivos, mas, à medida que envelhecemos, ficou claro que ele não tinha talento suficiente para ter sucesso a nível mundial. E apesar dessa natureza competitiva, sempre fui muito gentil com as pessoas. Morar numa cidade pequena, mesmo no mundo do surf amador dos Estados Unidos, ser East Coaster era desprezível. Não eramos tão bons como os da costa oeste, e estes por sua vez não eram tão bons como os havaianos e os australianos.

E acho que é por isso que vemos tantos surfistas brasileiros bons agora. Eles não estavam na elite e, de repente, três dos cinco melhores surfistas do mundo são brasileiros. Eles ganharam alguns títulos mundiais. Ninguém previu isso. Os americanos, e talvez mais os australianos, tornaram-se muito complacentes e talvez vaidosos com a posição que tivemos.

Eu era uma criança que cresceu, tornei-me adolescente, depois profissional e observei todos os profissionais que eram meus heróis. Vendo isso na primeira pessoa, talvez eu não os respeitasse muito porque representavam um enigma para mim.  E então eu conheci-os e eles saíram para uma festa e fizeram coisas que eu não gostei. Eu também tive um relacionamento, o meu primeiro amor, que se desfez ... Tudo isso está a ser uma completa psicanálise de mim mesmo. A maneira de preencher esse vazio no meu coração era simplesmente vencer. E nada me poderia parar. É uma sensação que agora quase não me parece familiar, porque simplesmente não me sinto da mesma forma.

Quero surfar pela pura alegria de amar surfar. Não tenho a mesma necessidade interna de vencer para me sentir bem. Mas sinto-me mal quando perco. Eu ainda sinto isso.

Uma pessoa que alcança algo que nunca foi feito, causa uma motivação que simplesmente não pode ser descrita.

 

 

"mas no ano seguinte descobri que estava totalmente falido e endividado"...

 

 

 

Parece que parte da sua longevidade foi saber trabalhar essa motivação, certo?

Eu costumava fazer uma equação divertida quando era criança. Quando eu competia contra alguém, costumava pensar: "Com quem competiram e com quem venceram? ... E se eles vencem essa pessoa e eu também, posso vencê-la".

Isso ajudou-me a ganhar confiança e, então, quando me tornei profissional, lembro-me de pensar: “Vamos, eu ganhei aquele heat contra este ou aquele, e ele ganhou ao campeão do mundo. Então, eu posso vencer o campeão do mundo. E se eu conseguir vencer o campeão do mundo, eu posso tornar-me o campeão do mundo”.

E então eu fui para o (Championship)Tour e, imediatamente, derrotei muitos ex campeões mundiais. No meu primeiro ano completo a competir, ganhei o título mundial e senti que podia. Não senti que o nível estivesse acima de mim. Não senti que o nível fosse inatingível, parecia-me que o nível não era muito bom. Na verdade, pensei: "Estes surfistas são péssimos, o surf deve estar muito acima disso". E essa era a mentalidade que eu tinha que ter para ter sucesso da forma que eu queria.

De alguma forma, ganhei tudo quando criança, e quando me tornei profissional, esperava fazer o mesmo, então ganhei o título mundial em 1992, mas quase saí do Tour em 93.

No ano seguinte, eu disse: "Ok, isso não voltará a acontecer". E ganhei o circuito do QS (circuito mundial de qualificação) naquele ano em 94. Surfei tudo. Eu apenas disse: "Vou ganhar tudo o que posso ganhar". Não sei se alguém fez isso desde então. Eu acho que ninguém ganhou o QS e o CT. Eu fui penas a todos os lugares, surfei tudo. Eu realmente adorava competir e vencer. Sentes-te bem e ganhas dinheiro ao fazê-lo.

Isso é outra coisa que entra na equação, porque quando eu tinha 21 anos, estava noivo, estava a ir muito bem, estava a ganhar dinheiro, mas no ano seguinte descobri que estava totalmente falido e endividado. E então o meu relacionamento desfez-se, e eu quase saí do Tour naquele ano.

Eu simplesmente disse: "Ok, é hora de colocar isto em ordem e ver até onde posso ir". E então venci cinco anos seguidos. Mas eu senti que havia algo, literalmente como de outro mundo, alinhado para que tudo acontecesse da maneira certa.

 

 

 

"Realmente não sei como é para os outros,

mas às vezes sinto-me super sozinho."

 

 

 

Há muitas pessoas que o amam e respeitam e gostariam de ser como o Kelly Slater. Acorda de manhã a pensar que é ótimo ser o Kelly Slater?

Às vezes acordo e não gosto da minha posição. Às vezes acordo e sinto-me totalmente sozinho neste mundo, o que pode parecer estranho para muitas pessoas, mas acho que é algo que acontece com pessoas que tiveram muito sucesso ao longo da sua vida. Ouvi dizer que isso aconteceu com outras pessoas. Realmente não sei como é para os outros, mas às vezes sinto-me super sozinho.

Isto era algo que o meu irmão mais velho pensava. Durante muito tempo, ele pensou que tudo estava ótimo para o Kelly e não percebeu que eu tinha e tenho os meus próprios desafios e coisas que são realmente difíceis de expressar, resolver ou entender. E se alguém da tua família não entende isso, então como alguém que só te viu numa revista pode ter uma ideia de como é a tua vida?

 

Eu acho que pode ser difícil descobrir quem são pessoas genuínas. Algumas pessoas ao seu redor querem algo de si?

É fácil identificar as pessoas genuínas. Eu acho que fica fácil de ver depois de um tempo. E o tempo no final prova-o.

Eu tenho um amigo que costumava viajar comigo no Tour. Nós conhece-mo-nos em 2003. Ele viajou comigo por cerca de três anos. Ele parou de viajar comigo por cerca de 12 ou 13 anos. Posso não falar com ele por seis ou oito meses, mas nada muda quando o vejo. Ele mora em Los Angeles, tem um emprego e um filho, passou por um casamento e divórcio desde que viajamos juntos.

Há pessoas que conheces ao longo do caminho e que sabes que serão amigos para a vida toda, e não precisas de o questionar.

 

 

 

São como vampiros de energia.

Mas no final das contas, são pessoas que precisam de ajuda.

 

 

 

 

Eu não acho muito difícil entender a razão por que as pessoas querem estar perto de si ...

São como vampiros de energia. Mas no final das contas, são pessoas que precisam de ajuda.

 

Há muitas pessoas que o vêem como uma inspiração. Sente que as pessoas realmente gostam e ficam felizes ao vê-lo essencialmente sendo si próprio?

Sei que me vêem dessa forma porque me o dizem muitas vezes.

Tenho muitos amigos que estão em casa, têm o seu trabalho e gostam de surfar. Mas eles não conseguem surfar o suficiente e nunca conseguem viajar. Existe uma maneira de viver indiretamente através de um amigo que está a fazer algo. Nesse nível, eu entendo. Não vejo isso como pressão ou algo assim. Eu só quero viver a minha vida, mas eu sempre tive consciência.

A minha mãe deixou-me  muito claro quando eu era criança; seja uma boa influência para as pessoas que o admiram ou querem ouvir o que tens para dizer. Sempre fui muito sensível ao tentar transmitir uma mensagem positiva.

Todas as pessoas estragam algo nas suas vidas, todas as pessoas se enganam e cometem erros, então às vezes sabes que o que dizes não é necessariamente o que fazes, mas tenta dizê-lo enviando uma mensagem publicamente e depois lida com as tuas próprias questões na esfera privada. Essas são situações difíceis para as pessoas. Eu vejo isso de dentro de pessoas que têm problemas de dependência ou são muito famosas, e temos que sentir isso por essas pessoas.

Tiger Woods: o exemplo de tudo isto. O mundo inteiro emitiu um julgamento sobre ele, muitas vezes, com razão. Mas, ao mesmo tempo, ninguém esteve lá. Há muito poucas pessoas que estiveram nessa situação, na situação de Tiger. E se não te direccionam de uma maneira realmente clara e se não tiveres uma imagem mais ampla do que está a acontecer ao seu redor, é fácil desviares-te para essas pequenas coisas que parecem atraentes e que depois explodem na tua cara, e é embaraçoso. Eu não estou a defendê-lo. Estou a dizer: que percentagem de pessoas poderia realmente ver o caminho em que ele foi levado?

 

Você faz surf de competição há 30 anos, certo?

Tornei-me profissional aos 18 anos e tenho 47 anos; quando fizer 48 anos, completarei 30  anos como surfista profissional no próximo verão. Não me posso retirar antes dos 30 anos. (risos) Curiosamente, os Jogos Olímpicos marcarão 30 anos no mês em que me tornei profissional.

 

Isso é um sinal?

Talvez. Poderá ser. Saberemos quando o virmos mais tarde. Eu gostaria de ter um lugar, mas se John John conseguir, ele merece, e eu ficarei feliz por ele. Mas farei o possível para tomar essa posição por mim mesmo.

 

Ficou desapontado por o evento não ocorrer numa piscina de ondas?

Eu acho que a maioria das pessoas pensa que a minha opinião é parcial porque eu criei uma. Mas acredito firmemente que deveríamos ter tido uma piscina de ondas como opção, e não necessariamente com a tecnologia que criámos. Poderia ser qualquer tecnologia viável para ser competitiva e realmente mostrar tudo o que podemos fazer numa onda.

O Japão sempre foi uma sociedade tecnologicamente avançada. Poderia ter uma onda artificial de alta qualidade para mostrar e se orgulhar.

Eu pensei que era muito óbvio que isso iria acontecer. Se o mar não estiver em conformidade, bum! Estamos imediatamente na piscina de ondas. Podemos iniciar e executá-lo a qualquer momento que precisarmos, podemos seguir exatamente o cronograma e isso não será possível no mar. Não sei onde é que essa decisão foi tomada. Não sei se foi apenas o Comité Olímpico Internacional (COI) ou se havia outras pessoas nessa conversa. Realmente não sei, mas foi uma pena, porque achei que seria ótimo trazer um novo desporto e usar a tecnologia para mostrá-lo.

 

Acha que o surf nos Jogos Olímpicos ainda será emocionante, algo muito bom?

Não sei.

 

O futuro do surf nos Jogos Olímpicos é brilhante? Imagine se formos para o Tahiti nas Olimpíadas de Paris 2024.

Isso seria genial. Mas o que os surfistas vão fazer? Ir com a sua seleção em Paris, voar, competir e retornar à cerimonia de encerramento? Você está tão longe dos Jogos Olímpicos ... seria engraçado.

Pessoalmente, acho que deveria haver uma piscina de ondas para Paris 2024 e também deveria ser Hossegor ... talvez um evento móvel. Hossegor, Capbreton e Anglet lutarão entre si pelos direitos do campeonato, que sempre envolverá a política local. Eu acho que deveria haver, em qualquer lugar previsível, uma tecnologia de piscina de ondas à frente.

Para Los Angeles 2028, o natural seria Lower Trestles. Se, por algum motivo, for um verão horrível, vais a Lemoore e usas a piscina ou outro lugar, se houver algum.

 

 

 

 

 

"Eu não aprendi a comer bem até os 20 anos de idade.

Eu cresci com açúcar, batatas fritas e gelado"

 

 

 

Existe algo que gostaria de ter feito antes na sua carreira? Algo de que se tenha arrependido? Para especificar mais, Baywatch?

A primeira vez que me lesionei na anca tinha 19 anos,  numa queda ao surfar uma onda. Essa foi uma lesão que me atrapalhou e magoou muito as minhas costas. Senti muita dor por muito tempo e neguei-o. Simplesmente aguentei e deixei a adrenalina tomar conta.

Quando eu tinha 17 ou 18 anos, comecei a fazer yoga e, em meados dos meus 20 anos, fi-lo por alguns anos. A partir daquele momento em que parei, gostaria de ter feito um pouco todos os dias. Eu tenho feito alguns exercícios de Pilates e faço muito trabalho corporal que provavelmente me ajuda. Quando eu era jovem não trabalhava o meu corpo. Por vezes faço cinco horas de massagem. Eu trabalho com uma mulher que "rompe" todo o tecido cicatricial do meu corpo. Eu acho que ela já trabalhou em mim por seis ou sete horas num único dia. E se tomas um banho quente mais tarde e alongares, tudo se solta.

Eu na verdade não comecei a minha dieta até os 20, 23, 24 anos ... e, olhando para trás, gostaria que minha mãe fosse hippie.Eu não aprendi a comer bem até os 20 anos de idade. Eu cresci com açúcar, batatas fritas e gelado, e criei muitos hábitos que eu gostaria de não ter. Hoje como uma boa dieta; muito mais frutas e vegetais, uma alimentação muito mais limpa. Felizmente, tenho dinheiro para comer bem. Essa é uma das coisas em que gasto o meu dinheiro: comida. Mas eu não como muito; Eu nunca como demais.

Acho que provavelmente não há ninguém que olhe para trás e não quisesse mudar nada sobre o seu passado. Mas todos nós temos que passar por isso para aprender uma lição e é importante estar ciente de todos os aspectos da nossa vida. Houve um momento em que pensei: por que é que eu fiz o "Baywatch"? Eu estava a ficar louco, mas, na realidade, provavelmente me levou a uma competitividade para ser melhor, porque me atiraram com muita "porcaria".

Foi difícil para mim assumir e dizer: "Eu fiz e tenho que lidar com isso". Pelo contrário, eu tornei-me vítima de piadas. Eu não gostei, então foi difícil para mim. Eu tinha um pouco de vergonha disso tudo, mas isso levou-me ao meu lado mais competitivo. Na minha cabeça, pensei: «esta pessoa está a pensar no Baywatch, ele quer gozar comigo. Vou esmagá-la no heat ». Eu usei isso como combustível por anos, mesmo que não fosse verdade, porque eu estava muito na defensiva. Neste ponto, olho para trás e é muito engraçado. Se eu visse alguém no Tour a fazer isso agora, seria uma loucura.

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