Ian Cairns: “O Tour da WSL é fundamentalmente o Tour da ASP de 1983 com um novo nome”
50 anos de Surf Profissional no Mundo
Um dos homens que ajudou a transformar o surf numa modalidade verdadeiramente profissional fala à Surftotal sobre o nascimento do circuito mundial, as difíceis batalhas dos primeiros anos e aquilo que mudaria hoje na World Surf League.
Há nomes que marcaram a história do surf pelas ondas que surfaram. Outros ajudaram também a mudar a própria estrutura da modalidade. Ian “Kanga” Cairns pertence aos dois grupos.
Australiano, poderoso e destemido em ondas grandes, Cairns terminou 1976 como número 2 mundial e construiu uma reputação particularmente forte no Havai. Mas o seu legado ultrapassaria largamente a competição: em 1983 tornou-se a figura central na criação da Association of Surfing Professionals (ASP), organização que sucedeu à International Professional Surfers (IPS) e que décadas mais tarde daria lugar à actual World Surf League (WSL).
Numa altura em que se assinalam 50 anos desde o arranque do primeiro circuito mundial profissional, em 1976, a Surftotal quis ouvir quem esteve no centro dessa transformação.
Cinco perguntas. Cinco respostas. E algumas revelações extraordinárias sobre os bastidores da construção do surf profissional.
Quando a tua geração começou a construir o surf profissional, há 50 anos, qual era a verdadeira ambição: criar um desporto, uma indústria ou simplesmente permitir que os melhores surfistas do mundo pudessem viver do surf?
Ian Cairns: Em 1975 e 1976 pressionámos bastante para que fosse criado um sistema de ranking que englobasse todas as provas.
Em 1976 já tínhamos um sistema de ranking para as competições australianas através da Australian Professional Surfers Association (APSA). Fred Hemmings e Randy Rarick pegaram basicamente nessa ideia e criaram a IPS, mas fiquei imediatamente chocado quando Fred anunciou que ele e os seus amigos eram os proprietários da organização... e não os surfistas.
A IPS criou uma estrutura que era necessária, mas acabou por perder força até à altura em que organizei o Op Pro, em 1982. Randy e Fred já estavam fora e era o australiano Jeff Luton que estava à frente da organização. Acho que nunca conseguiram perceber como tornar aquilo financeiramente viável.
Qual foi a batalha mais difícil para tornar o surf profissional credível?
Ian Cairns: Criar a Association of Surfing Professionals (ASP), depois do Op Pro de 1982, só foi possível porque consegui da Op um compromisso de apoio durante três anos, de cerca de 250 mil dólares por ano.
Convenci Peter Burness, da África do Sul, e Graham Cassidy, da Austrália, a integrarem as suas provas na ASP. Hemmings também concordou, mas retirou-se em Setembro de 1983 e nós banimos as provas havaianas, o que causou alguns problemas.
Fazer com que todos os surfistas pagassem os 100 dólares de inscrição na ASP foi, no mínimo, árduo, mas era uma fonte de receita necessária.
O papel de Cairns na criação da ASP em 1983 está amplamente documentado, tal como o apoio da Ocean Pacific (Op) nos primeiros passos da nova organização.
Quando olhas hoje para a WSL e para o surf profissional, quanto reconheces ainda da visão original?
Ian Cairns: O Tour da WSL é fundamentalmente o Tour da ASP de 1983 com um novo nome.
A Priority Rule, os juízes internacionais e o sistema informático de pontuação foram inovações que implementei em 1983 e 1984. Também fomos pioneiros nas transmissões em directo através da Internet em 1999 e 2000.
Estamos há 50 anos neste projecto, na era da Inteligência Artificial, e ainda continuamos a queixar-nos dos julgamentos.
A introdução de regras uniformes e, em particular, do sistema de prioridade foi uma das mudanças estruturais associadas aos primeiros anos da ASP, permitindo alterar profundamente a forma como os heats eram disputados.
Se tivesses hoje poder para mudar uma única coisa no surf profissional, qual seria?
Ian Cairns: Criaria uma estrutura em que o desporto fosse propriedade dos seus membros a nível global, e não de oligarcas, e em que existisse total transparência em todas as decisões.
Uma resposta curta, mas provavelmente a mais contundente desta conversa.
Quatro décadas depois de ter ajudado a construir uma organização que procurava dar aos surfistas maior influência sobre o seu próprio desporto, Cairns continua a defender um modelo em que quem faz parte do surf profissional tenha participação efectiva no seu futuro.
Depois de uma vida ligada ao oceano, o que significa hoje o surf para ti?
Ian Cairns: Eu e a minha mulher surfamos praticamente todos os dias porque é aquilo que adoramos fazer e é também o nosso plano para manter a forma física.
Gostamos muito de acompanhar o surf profissional, embora as decisões que são tomadas sejam muitas vezes bastante frustrantes.
Cinco décadas depois do nascimento do circuito mundial, Ian Cairns continua, portanto, a olhar para o surf com a mesma combinação de paixão e inconformismo.
Muito mudou desde aqueles primeiros rankings, das inscrições de 100 dólares e da luta para convencer organizadores e surfistas a aderirem a uma estrutura verdadeiramente mundial.
Mas talvez a frase mais interessante desta conversa seja precisamente aquela que sugere quanto não mudou:
“O Tour da WSL é fundamentalmente o Tour da ASP de 1983 com um novo nome.”
E, vinda de um dos homens que ajudou a desenhá-lo, é uma afirmação que merece ser ouvida.
*Entrevista Surftotal, com a colaboração de Pedro Soares
- Créditos fotos: Ian Cairns




