Julio Adler em Fernando de Noronha / 2012 - Foto Nilton Baptista Julio Adler em Fernando de Noronha / 2012 - Foto Nilton Baptista

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quarta, 17 junho 2020 19:33

"O que se perdeu com a transformação do surf maioritariamente num desporto foram as referências..."Julio Adler

Entrevista sobre a História e Cultura do Surf com o Brasileiro Julio Adler ....

 

 

Com a massificação da arte de deslizar nas ondas em cima de uma prancha tem-se vindo a verificar uma tendência para aligeirar o seu conceito, tornando o surf em apenas um desporto, coisa que o surf não é só.

A imprensa especializada e os principais agentes do surf têm aqui um papel fundamental na preservação e divulgação da história e cultura do surf, passando-a com eficácia de geração em geração, por forma a manter as bases sólidas de uma pirâmide que representa em todo o mundo mais de 30 milhões de praticantes e uma Indústria em crescimento.

 

A Surftotal tem estado à conversa com as mais diversas personalidades da história do surf nacional e internacional que nos têm vindo a deixar o seu testemunho e opinião sobre a situação actual da história e cultura do surf.

Tem a palavra o Brasileiro Julio Adler , ex Campeão Carioca (Estado do Rio de Janeiro) de Surf profissional, Jornalista, comentador, colunista, produtor de filmes e pensador contemporâneo.

 

 

 

 

 

"A parte cultural do Surf

 

 nunca esteve tão firme,

 

tão viva e a produzir tanto..."

 

 

 

 

 


Nescau Surf Energy -WQS- NOV. 1993- Praia da Joaquina -Florianópolis - Pedro Muller em 1º,  Barton Linch em 2º,  Jojo de Olivença em 3º e Julio Adler em 4º .

 

 

 

Surftotal: O surf começou como uma actividade livre, um estilo de vida único que levou à construção de um mercado próprio e também único, continuou a cimentar-se mundialmente com o surf competitivo que foi cada vez mais evoluindo, profissionalizando-se…. E agora chegamos aos dias de hoje e o surf é mais visto como um desporto. Algo de estranho aconteceu neste percurso? Queres comentar?

Julio Adler: Eu acho que é difícil definir o surf, ou seja, colocar uma afirmação definitiva de que se tenha tornado um desporto, ao contrário do que o que supostamente deveria ser um estilo de vida, mas eu acho que o surf está cada vez mais plural. Eu não acho que o surf se esteja a homogeneizar, ele tanto é um desporto para quem quer que ele seja um desporto e tenha esses anseios de viver dele como se fosse uma atividade desportiva qualquer, como o futebol ou qualquer outro, mas tem a parte cultural que acho que nunca esteve tão firme, tão viva e a produzir tanto. Há muita gente a fazer filmes, a escrever livros, a pensar o surf de diferentes formas, como uma atividade espiritual, como estilo de vida, enfim, acho que isso não se perdeu.

Se alguma coisa de estranho aconteceu no percurso? Eu acho que esse anseio de legitimar o surf, que foi tão procurado nos anos 70 e 80 e depois nos anos 90, ao dizer que estamos a fazer uma coisa que não é uma completa inutilidade. Então ultimamente existe esse desejo. Esse desejo vem com este discurso de bem estar, de liberdade, precisamos legitimar a partir desses argumentos.

 

 

 

 

 

A próximidade de Julio Adler com a cena do Surf Português é grande. Aqui na companhia de João Valente, Isabel Corte Real da Meo e de Tiago Pires.

 

 

Surftotal: E com a transformação do surf maioritariamente num desporto ganhou-se o quê? na tua opinião, perdeu-se também algo?

Julio Adler: Se eu falar do Brasil, o ganho foram pequenas ou grandes vitórias pessoais ou da nação quando nos referimos aos títulos mundiais, mas a contrapartida é que as revistas morreram e os sites de surf foram diminuindo cada vez mais e ficou tudo cada vez mais concentrado num site medíocre, o Waves que publica basicamente press releases, fotografias e vídeos dos outros, não produz absolutamente nada, não paga a ninguém, paga a poucas pessoas para fazer essa curadoria que é ridícula. Acho que nesse aspeto as perdas são muito grandes. Em Portugal vocês também estão a passar por isso, porque houve a explosão das escolas de surf, toda a gente se tornou professor, conselheiro, curador. O que se perdeu nesse caminho foram as referências. Eu tenho uma grande proximidade do João Valente e é inadmissível que em 2020 o João Valente não tenha uma renda, assim como o Nuno Jonet, o Miguel Pedreira e mais uma data de pessoas. Uma renda média a partir da própria comunidade de surfistas como acontecia há 15 anos atrás. A Surf Portugal ou em outras actividades, o que eu acho um contra-censo.

 

 

 

 

"Acho que o preço das marcas de surf

distanciou demasiado o público..."

 

 

 

 

Julio Adler num fortissimo e limpo "off the lip" quando era surfista profissional - Foto Agobar Jr./ Nesta década Julio Adler chegou a vencer uma etapa do Circuito Brasileiro em 1992 (válida tambám para o WQS), o Seaway Pro em Pernambuco

 

 

 

Surftotal: Porque razão os surfistas ou praticantes de surf (podemos fazer uma divisão aqui se quiseres) na sua maioria não se vestem dos pés à cabeça e durante todo o ano com as marcas de culto do surf?

Julio Adler: Eu acho que isso é complicado. Consegues vêr que a minha noção de complicado é ampla, mas eu tenho amigos que não abrem mão de vestir marcas de surf desde há 30 ou 40 anos, eles só vestem isso, e também há pessoas que têm vergonha disso. Eu visto o que dá para vestir. Quando vou escolher roupa para comprar compro em  lugares que se adaptam ao meu bolso, só isso. Eu só posso falar por mim. Acho que o preço das marcas de surf distanciou demasiado o público.

 

 

 

 

"Temos uma cultura que é quase indígena,

que é a cultura da oralidade, de um contar para o outro..."

 

 

 

 

 

Julio Adler com Miguel Pedreira, Paulo Cunha e Maria Ana Ventura a comentar na Fuel o Mundial de Surf em Peniche.

 

 


Surftotal: O testemunho da Cultura do surf tem vindo a passar de geração em geração na tua opinião? É importante esta preservação? Se sim porquê?

Julio Adler: Sim, eu acho que temos uma cultura que é quase indígena, que é a cultura da oralidade, de um contar para o outro. Isso é inerente ao ser humano, mais do que ao surfista. O surfista tem um pouco de pescador e os contos dos pescadores, dos povos que vivem perto do mar, têm muitas lendas e aumentam muito as coisas que são vividas perto do mar e com muitos fenómenos da natureza. Se a preservação é importante? Sim, e é importante que isso não seja só falado mas escrito. Escrever e refletir a cultura do surf é muito importante, aliás é fundamental. Aqui no Brasil há uma experiência interessante, que se chama Museu da Pessoa, onde se colhem depoimentos interessantes das pessoas, a vida em geral. O surf, sem querer, produz um pouco disso nos documentários, mas provoca muito pouca reflexão escrita e falada em torno destas questões que apontas. O desporto e a cultura ficam isolados em pequenos manifestos como foi o Litmus do Andrew Kidman nos anos 90, como aconteceu num blog ou outro, como no Ondas que havia em Portugal. Essas experiências são muito importantes para a cultura do surf, aliás, essas são as experiências que depois de viver o surf em si, de apanhar ondas, antecipar, celebrar, eu considero as mais importantes.  

 

 

 

 

"...com a venda das marcas de Surf para pessoas

 

que não têm um passado no desporto,

 

e que por vezes também não têm interesse, fica tudo mais artificial..."

 

Julio nas águas Cristalinas de Fernando de Noronha -  Foto Nilton Baptista

 

 



Surftotal: Até que ponto as marcas de surf são responsáveis pela passagem do testemunho da cultura do surf?

Julio Adler: Eu acho que as marcas de surf, pelo menos como as conhecíamos, a Quiksilver, a Billabong, a Rip Curl, todas elas tinham histórias para contar. Antes de acontecer a marca já existia uma história e durante a descoberta das marcas as histórias também são fascinantes. Eu acho que com a venda das marcas para pessoas que não têm um passado no desporto, e que por vezes também não têm interesse, fica tudo mais artificial. Hoje em dia, eu não sei o quanto é que as marcas têm alguma responsabilidade do testemunho da cultura do surf. Eu acho que nos dias de hoje as marcas parecem tão distantes do surfista comum, parece que tudo é um grande anuncio, enquanto que se olhares um pouco para trás podias assistir a um filme do Jack McCoy ou os filmes anteriores, o filme "The Performers" da Quiksilver, ou mesmo o Surfers The Movie, da Gotcha, podias assistir a estes filmes sem te sentires obrigado a comprar qualquer coisa, porque tudo era tão discreto. Havia o dinheiro das marcas de surf ,mas não era só para vender calções, chinelos, camisas.

 


Surftotal: E os media também são? Porquê?

Julio Adler: Eu acho que a imprensa é completamente responsável por essa rede de informações que existe guardada por muita gente brilhante que precisa de colocar para fora, da mesma forma como são muito irresponsáveis em evitar falar de algumas coisas ou esconder outras. Por exemplo, aqui no Brasil a história do surf amador, que culminou com o título mundial do Fábio Gouveia em 88 em Porto Rico e depois disso vai desaguar no título do Medina e etc., é uma história muito mal contada e que interessa a muito pouca gente porque não tem os protagonistas escolhidos de sempre. Então, é complicado.

 

 

 

"no final de contas a cultura do surf é estabelecida em memórias..."

 

 

 

 

Julio Adler a explorar as ondas Mexicanas -  foto por Luiz Blanco

 



Surftotal: E já agora as redes sociais? Podemos inclui-las na equação? Sim ou não e porquê?

Julio Adler: As redes sociais fazem parte da comunicação nos dias de hoje. Todas as vezes que me perguntam sobre imprensa e redes sociais eu uso a mais óbvia afirmação de todas. Quando eu queria publicar alguma coisa nos anos 80 eu tinha que me submeter ao julgamento de alguém. Eu escrevia o meu texto, levava-o a alguém, esse alguém lia o texto, julgava se podia ser publicado e só depois de passar pelo crivo dessas pessoas é que eu seria publicado. Hoje em dia qualquer pessoa pode publicar o que quiser a todo o momento. Pode publicar textos, vídeos e fotos muito más, como também pode publicar textos, vídeos e fotos brilhantes. Acho que existe muita responsabilidade nisso, porque como hoje em dia toda a gente expõe e publica as suas opiniões e às vezes confunde-se um pouco. Quando uma pessoa muito famosa ou com muitos seguidores dá uma opinião controversa pode causar um grande estrago. Acho que existe uma responsabilidade enorme do testemunho e de preservação de memórias, porque no final de contas a cultura do surf é estabelecida em memórias.

 

 

 

"O Andrew Kidman também é

um camarada com um olhar muito especial para o surf..."

 

 

Praia do Pepino, 1991 - Foto Rick Werneck

 

 

 
Surftotal: Dois surfistas que na tua opinião, hoje em dia, deixem transparecer os valores do culto do surf e que sejam os verdadeiros inspiradores que transportam o santo Graal do surf

Julio Adler: Sem dúvida o Andrew Kidman não estraga. Eu acho que o que ele faz é incrível, porque ele faz tudo sozinho. Ele não disponibiliza nada para download, tudo é comprado diretamente a ele e tem um preço justo. Para mim é muito caro porque eu vivo num país onde um euro equivale a sete reais, então imagina que o salário mínimo aqui é mais ou menos mil reais. Daqui a pouco, cento e cinquenta euros vai ser um salário mínimo aqui no Brasil, então cento e cinquenta dólares num livro, uma edição especial que há pouco tempo atrás não era nenhum absurdo comprar, agora é impossível. O Andrew Kidman também é um camarada com um olhar muito especial para o surf. Tudo o faz tem uma profundidade enorme, ele mergulha em todos os assuntos, seja design de pranchas, a forma de apanhar uma onda, ou as questões mais fundamentais como o porquê de surfarmos uma onda ou se é uma atividade desportiva ou espiritual. Aqui no Brasil o Pedro César que tem uma conta no instagram que se chama Pedro César Arquivos que eu acho muito boa, cheio de memórias filmadas, desde a vitória do Nick Wood em Bells Beach em 87, sem contar que ele é um poeta e que tem uma visão muito especial do surf. Em Portugal é sem dúvida o João Valente. É uma pessoa que transpira surf e que melhor provoca reflexões e melhor sintetiza o surf, e que melhor confunde também, o que eu acho importante, juntamente com o Zé Seabra, que admiro bastante.

 

 

 

"Os livros do Matt Warshaw,

tanto a Enciclopédia como a História do Surf,

eu acho que são fundamentais..."

 

 

 

 

 


Surftotal: Se houvesse um livro que pudéssemos considerar como a Bíblia do surf, qual escolherias? Porquê?

Julio Adler: Os livros do Matt Warshaw, tanto a Enciclopédia como a História do Surf, eu acho que são fundamentais, são sem dúvida livros que se deve ter para consulta. O Matt Warshaw não é só um historiador, ele tem muito bom humor e espírito crítico, o que é muito difícil de encontrar. O Drew Kampion também é outro camarada que acho que era o Matt Warshaw do seu tempo, uma pessoa com bom humor, espírito crítico, um pouco recluso hoje em dia, mas os seus livros são muito bons – The Way of the Surfer, o Stoked, todos esses livros são excelentes.

 

 

 

 

"Hoje em dia o surf não pertence apenas a um grupo,

 

não existe um só tipo de pessoa que podes apontar como surfista..."

 

 

 

Surftotal: Algo mais a dizer?

Julio Adler: A cultura do surf é cultura. Eu sempre me questionei se havia uma literatura de surf, se existia uma moda de surf e de facto existe. O surf tem esse espaço no meio das pequenas culturas que participam. Nem sempre retrata bem o que é o surf ou o que são os surfistas, mas hoje em dia é uma coisa tão diferente, eu sou tão diferente do pessoal que usa pranchas retro e fish e que deixa o cabelo crescer. Eu sou uma pessoa tão diferente e ao mesmo tempo continuo um apaixonado tanto pela competição, que para mim sempre foi e continua a ser muito importante, mas eu sinto-me tão distante do Gabriel Medina, da sua vida e dos seus valores, quanto se me sinto distante do pessoal que faz pose na prancha. São dois opostos dentro desse mundo, que podes  dizer que é a cultura do surf, e acho que a maioria dos surfistas que há hoje no planeta estão no meio, entre o Medina e o Alex Nost. Eles não são o David Rastovich nem são o Adriano de Souza ou o John John Florence. Aliás, o John John Florence parece-se muito mais com uma pessoa normal  do que essas pessoas todas. Eu acho que isso é o fascinante no surf. Hoje em dia o surf não pertence apenas a um grupo, não existe um só tipo de pessoa que podes apontar como surfista. Há surfistas em todo o lado. Há surfistas vencedores de Prémios Nobel, há surfistas como o Gonçalo Cadilhe, que olhando jamais dirias que é um surfista, há surfistas como o Kikas e o Vasco, que são completamente diferentes do Tiago Pires, enfim. A cultura é isso. É importante a cultura ser plural e isso o surf tem desde sempre. Seria mau se perdêssemos isso agora, se existisse surfista de ondas artificiais, surfista de cidade, surfista disto, surfista daquilo, que na verdade é o que o pessoal tenta fazer a toda a hora quando cria esses novos termos. Isso não faz a menor diferença, a única coisa que importa é agarrar a prancha e ir para dentro de água. Sempre foi a única coisa que sempre importou e continua a ser a única coisa que importa. 

 

 

Julio Adler  no México - Foto por Luiz Blanco

 

 

 

 

"A única coisa que importa é agarrar a prancha e ir para dentro de água.

Sempre foi a única coisa que sempre importou..."

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