Muitos turistas do Norte da Europa vêm ter uma experiência de Surf em Portugal Muitos turistas do Norte da Europa vêm ter uma experiência de Surf em Portugal Surf Lisbon

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segunda, 06 abril 2020 15:18

"FALTA DE FISCALIZAÇÃO AO ENSINO DO SURF COMPROMETE A SUA QUALIDADE"

Entrevista com o proprietário da Surf Lisbon...

 

A Surftotal tem aproveitado esta fase em que há mais tempo para reflectirmos, sobre nós mesmos e importantes assuntos que nos rodeiam, para colocar em debate temas do interesse comum na realidade do Surf Nacional e Internacional.

Esta entrevista com Nuno Sequeira, proprietário da Escola Surf Lisbon e membro da Associação das Escolas de Surf em Portugal, vem na sequência do debate sobre o presente e futuro do ensino do Surf em Portugal. Para percebermos o impacto financeiro gerado pelo ensino do surf, só em taxas e quotas uma escola de surf para obter licenças para operar ( FPS, Capitanias, Turismo de Portugal) pode ter de pagar anualmente mais de 1500 euros. Sabendo que existem cerca de 900 operadores ligados ao ensino do Surf em Portugal podemos perceber que conjunto e anualmente estes operadores pagam um valor superior a um milhão de euros.
 

 

 

"O ponto chave é a responsabilidade de cada um

e o respeito pelo próximo."

 

 

 

As aulas de Surf na Surf Lisbon são destinadas a todas as idades e nacionalidades.

 

 

Surftotal: Como, quando e porque razão começaste o ensino do surf? Qual o teu grande objetivo no inicio?

Nuno Sequeira: Em primeiro lugar, muito obrigado à Surftotal por também dar voz às Escolas de Surf e ao peso que estas têm no panorama actual da modalidade no nosso País.

O Surf está presente na minha vida desde que tenho memórias de passar os Verões na Caparica com a minha família. Em 1992 comecei a surfar na verdadeira acepção da palavra e em 2002 quando estou no início da Licenciatura em Ciências do Desporto surgiu a oportunidade de tirar o curso de treinadores na Federação Portuguesa de Surf (FPS) e começar a dar aulas em part - time. Os objectivos passavam por um lado, por poder transmitir aos outros a minha paixão pelo Surf (sendo que também dava aulas de Ténis na altura e a motivação não era a mesma) e, por outro, obviamente a parte financeira de ganhar algum dinheiro enquanto estudava para poder sustentar as idas ao Surf e uma ou outra viagem.

 

 

 

 

"se chego com a minha Escola a uma praia também não vou colocar os meus alunos

onde estão a maioria dos free surfers"

 

 

 

 

Surftotal: A certa altura montaste a tua própria escola e durante a sua existência foi mudando de filosofia? Se sim, porquê?

Nuno Sequeira: Comecei a minha própria Escola em 2008 depois de vários anos a aprender muito com pessoas como o David Raimundo e o Nuno Telmo (no SurfTec / Surftechnique / hoje em dia, APS) e com o Hugo Zagalo (tanto no projecto pioneiro do Sport Lisboa e Benfica em 2006 / 2007 como no Caparica Surfing Clube) mas também com a experiência académica na Faculdade de Motricidade Humana, nomeadamente com o Miguel Moreira na especialização em Treino Desportivo de Surf. Apesar de não estar ligado ao treino e à competição há muitos anos, estas são as minhas referências e as pessoas que me ajudaram a perceber o modo profissional de conduzir o ensino do Surf. Também o próprio António Pedro (a fazer um excelente trabalho de outro âmbito com a Surf Social Wave hoje em dia) acabou por ser peça importante um pouco mais à frente e imediatamente antes ao início da minha “aventura” quando me convida para ser o responsável da Escola de Surf da sua empresa.

Nos primeiros tempos da Surf Lisbon (na altura, entre 2008 e 2012, chamada Puro Surf) estávamos virados totalmente para o treino e a competição. Aos poucos, e como que por mero acaso, a iniciação surgiu com amigos e conhecidos a quererem dar os primeiros passos. Ainda sem site, redes sociais e afins, sem a facilidade de comunicação digital de hoje que existe hoje em dia, o “boca em boca” foi a melhor divulgação das nossas actividades até haver um crescimento exponencial e, ao invés, com alguns dos atletas da competição a entrarem para a Universidade e a terem menos disponibilidade para continuar a exigência da competição terminámos com essa vertente.

Em 2013, e com o crescimento de Lisboa na procura estrangeira como destino de férias, fundámos o nosso primeiro alojamento de Surf para turistas (ao qual juntámos um segundo em 2019) e até hoje (ou até há cerca de 15 dias atrás!) continuamos com uma forte procura de clientes estrangeiros que chegam até nós para viverem uma experiência de Surf, iniciar-se na modalidade ou aperfeiçoar a sua técnica nas ondas à volta da Grande Lisboa. Ao mesmo tempo, e julgo que isto é importante referir, conseguimos fidelizar uma boa parte dos nossos alunos / clientes portugueses ao longo dos anos. É muito interessante e gratificante “misturar” as culturas e pôr em contacto numa mesma aula uma grande variedade de nacionalidades com a dos nossos alunos portugueses.

E é assim que, após quase 12 anos de existência, nos mantemos como uma Escola de Surf eclética juntando alunos / clientes dos vários cantos do Mundo, desde crianças e adultos, famílias, empresas, escolas secundárias, universidades,…

 

Surftotal: Quais os maiores desafios nesse período de mudança de uma escola de treino de surf competição para uma escola de surf recreativo?

Nuno Sequeira: A mudança deu-se de forma natural e gradual. O grande desafio foi, ao longo dos anos, conseguir gerir e contratar os recursos humanos adequados e formar uma equipa séria, profissional e diversificada tendo em conta os vários segmentos de alunos que iam chegando até nós. Também a escolha do material, nomeadamente, pranchas e fatos e mantê-lo sempre actualizado e em bom estado dado o desgaste.

A Surf Lisbon opera também nas Praias da Costa da Caparica

 

 

 

 

Nas praias de Cascais (nomeadamente, Carcavelos e Guincho)

a fiscalização pura e simplesmente não acontece

 

 

 

 

Surftotal: Vamos fazer agora um ponto de situação antes de avançarmos mais, sobre o boom do ensino do surf em portugal. Quando sentiste esse boom e como vês este fenómeno enquanto praticante por um lado e enquanto dono de uma escola de surf por outro?

Nuno Sequeira: Tendo acompanhado este este crescimento bem de perto julgo que até há cerca de 3 / 4 anos atrás foi sempre muito gradual (pelo menos aqui na zona de Lisboa). Nos últimos 4 anos assistiu-se efectivamente a um disseminar de Escolas e sem dúvida que a praia de Carcavelos onde comecei a surfar há 28 anos vê hoje em dia um volume quer de escolas quer de free surfers muito elevado quando comparado com há uns anos atrás.

Antes de ser professor ou dono de uma Escola sou, em primeiro lugar, um surfista. Compete a cada um avaliar como gere a sua presença na praia. Se chego a uma praia onde não estou confortável não vou certamente para o pico principal tentar apanhar as maiores / melhores do dia assim como se chego com a minha Escola a uma praia também não vou colocar os meus alunos onde estão a maioria dos free surfers ou ocupar um espaço já ocupado por outra Escola. No Verão apesar de termos corredores definidos temos que levar em conta os banhistas (pois também eu sou banhista e chefe de família) que tem o mesmo direito ao lazer na praia como os free surfers e os utilizadores das Escolas.

O ponto chave é a responsabilidade de cada um e o respeito pelo próximo.

 

 

 

"acabámos de constituir um núcleo de Escolas

para quem opera na zona da Caparica"

 

 

 

Surftotal: Sentes que ha uma boa organização na gestão e fiscalização das escolas de surf em portugal?

Nuno Sequeira: Infelizmente, durante grande parte do ano, não. Temos actualmente um bom exemplo nas praias da Caparica, mas apenas durante o Verão. A Polícia Marítima diariamente patrulha o areal e regra geral observa se os corredores estão a ser ocupados pelas respectivas Escolas fiscalizando as não identificadas ou aquelas que esteja fora dos corredores para onde pagaram as suas Licenças. Durante o resto do ano esse patrulhamento não acontece tão frequentemente e, olhando para as praias de Cascais (nomeadamente, Carcavelos e Guincho) ele não acontece, pura e simplesmente. A minha conclusão é que há de facto muito a fazer neste âmbito de modo a combater a concorrência desleal e os operadores ilegais.

 

Surftotal: Porque razão a tua escola aderiu à AEP?

Nuno Sequeira: Acima de tudo pela vontade de ver a nossa profissão e o nosso tecido empresarial e / ou associativo unido em prol de objectivos comuns: o ensino de Surf de qualidade, a regulamentação e fiscalização elaboradas e aplicadas de forma clara, adequada e uniformemente, a sustentabilidade das praias e a maior representatividade e “peso” que uma Associação com muitos membros poderá ter em vez de Escolas / Empresas isoladas.

 

 

 

 Clinícas de Verão Surf Lisbon.

 

 

 

"O maior número possível de Escolas / Empresas unidas em prol

de objectivos comuns e de um futuro sustentável."

 

 

 

 

 

Surftotal: Tens verificado uma evolução positiva na associação? O quê e porquê?

Nuno Sequeira: Apesar de ainda estar numa fase inicial sinto que já somos um número significativo de associados e que o espírito de grupo está cada vez mais presente até mesmo ao nível regional. Por exemplo, acabámos de constituir um núcleo de Escolas para quem opera na zona da Caparica, por exemplo, identificando questões e problemáticas comuns mas acima de tudo com muita vontade de as resolver a bem de optimizar o funcionamento das Escolas da região.

 

Surftotal: Quais as vantagens que uma escola de surf tem em ser associada da AESP? Sabemos que há uma quota de associado, mas também sabemos que há quotas para pagamentos à FPS, ao Turismo de Portugal e Capitanias. Há ainda um certo investimento anual só para estas licenças todas, valem a pena? O que é que as escolas podem contar com estes pagamentos a estas entidades?

Nuno Sequeira: A grande vantagem é sem dúvida a que mencionei numa questão anterior: o maior número possível de Escolas / Empresas unidas em prol de objectivos comuns e de um futuro sustentável. Os diversos pagamentos / taxas que pagamos será algo que a Associação também está a trabalhar no sentido de não estarmos dependentes de todas estas entidades e tentar centralizar mais as coisas.

Ao Turismo de Portugal é devida apenas uma taxa única quando é efectuado o Registo na plataforma e obrigatório para todas as empresas  / entidades que prestem serviços de animação marítimo - turísticos.

À FPS é devida uma taxa anual de 200€ para que possamos ter o certificado da mesma instituição + 50€ por cada Treinador.

Às Capitanias da área onde trabalhamos mais taxas de licenciamento que variam entre 200€ e 400€ / 500€ por cada período de aproximadamente 6 meses. No nosso caso pagamos a duas Capitanias pois operamos tanto na zona de abrangência da Capitania de Cascais (Carcavelos, S. Pedro e Guincho) como da de Lisboa (Caparica e Praia da Torre).

A estas despesas há também que juntar os seguros de acidentes pessoais e de responsabilidade civil (também anuais), seguros e manutenção para as carrinhas (no caso de quem procura as melhores ondas para os seus clientes e não se limita a ficar apenas numa praia), um contabilista certificado (para as empresas ou indivíduos com contabilidade organizada), um software de facturação, todas as comuns obrigações dos vencimentos e seguros para os colaboradores, obrigações tributárias e contribuições para a Segurança Social, um software para gestão de reservas, eventuais comissões a plataformas que nos “trazem” clientes, rendas aos concessionários onde exercemos a actividade (este é um problema actual para muitas escolas da Caparica, felizmente não no nosso caso particular), equipamento (pranchas e fatos), entre eventualmente outras que agora não me ocorrem. Ou seja, funcionamos de um modo profissional e sendo assim não pode nem deve existir espaço ou tolerância para concorrência desleal ou infractores.

 

 

"É sem dúvida o momento mais desafiante da história da Surf Lisbon"

 

 

 

Surftotal: Agora vamos à questão que se põe devido ao difícil momento que atravessamos. Qual ou quais as soluções para uma escola de surf neste momento do Covid 19? Sabendo que é uma actividade sazonal e que acontece principalmente entre Abril / Maio e Outubro, quais as acções que estão a desenvolver? Há uma mediação com as diversas entidades existentes? F.P.S., Capitanias e Turismo de Portugal?

Nuno Sequeira: É sem dúvida o momento mais desafiante da história da Surf Lisbon. Pela primeira vez em 12 anos estamos com a actividade totalmente encerrada devido a este factor de saúde pública. Não sabemos o que o futuro nos reserva nem quando podemos voltar à praia para trabalhar ou surfar. Até esse dia chegar o mais importante é respeitar as orientações governamentais em relação ao isolamento social e evitar as tragédias de Itália e Espanha.

Sinceramente e sem qualquer intuito de minimizar a questão económica pois todos sabemos que vai ser grave (especialmente para quem depende em grande parte do Turismo) a minha principal preocupação é com a saúde da minha família, dos meus amigos e seus familiares e de todos os portugueses. Somos uma empresa consolidada no mercado e estamos preparados com algum conforto para enfrentar os próximos meses. Submetemos a requerimento para o apoio extraordinário à manutenção dos contratos de trabalho junto da Segurança Social bem como aproveitámos uma pequena linha de crédito sem juros do Turismo de Portugal (muito simples e sem burocracias, já aprovado e concedido) para juntar ao nosso fundo de maneio e suportar assim as despesas dos próximos tempos sem "income".

A título comercial não estamos a desenvolver nada de especial uma vez que os consumidores estão neste momento completamente retraídos. É apenas tempo para manter o contacto com os clientes habituais (estrangeiros e portugueses) através de uma presença mais notada nas redes sociais e uns emails de follow up para saber como estão a lidar com esta pandemia e que estamos aqui “deste lado” para os ouvir e passarmos um bom bocado.

 

Desejo que todos ultrapassemos juntos este período e que em breve estejamos a surfar nas nossas praias preferidas. Obrigado à Surftotal por dar “tempo de antena” às Escolas de Surf! Continuem o bom trabalho.

 


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