A sua entrada nesta etapa do Championship Tour é um daqueles momentos que não se podem ignorar e confesso que, com a frontalidade que os 50 anos já me permitem, pouco me interessa o cinismo de quem critica o facto de ele ter entrado como wild card numa prova patrocinada pela sua própria marca e que está até possa ser a terceira vez que aconteça.
Perante uma figura com este peso no desporto, a burocracia passa para segundo plano, pois aos 54 anos, prestes a ser pai pela terceira vez e numa altura em que a maioria já arrumou as pranchas mais afiadas, a verdade é que o título de "GOAT" (o melhor de todos os tempos) lhe assenta de forma natural, sustentado por quase quatro décadas a competir ao mais alto nível.
O impacto de Slater na minha geração foi muito além da água, ditando bastante da nossa própria estética. Numa reflexão pessoal, dou por mim a pensar que foi talvez o único atleta que influenciou diretamente os meus hábitos de consumo.
Ainda sorrio quando me lembro do material que comprei da Quiksilver, com destaque para o célebre fato Cell azul, que tinha a parte de cima branca. Vestir aquilo era uma tentativa de captar um bocadinho daquela magia, a mesma postura magnética e descontraída de quem, em terra, tocava guitarra com o Jack Johnson nos anos 90 e ainda nos aparecia na Marés Vivas (Baywatch) ao lado da Pamela Anderson.
Admiro imenso o seu espírito competitivo, uma força que tive a sorte de ver em inúmeras competições e, inclusivamente, com algumas ligações a Portugal.
Recordam se de Peniche, em 2010, quando ganhou o Rip Curl Pro ao Jordy Smith ? ou, por falar nas ondas do Oeste, é impossível esquecer aquele dia sem competição em 2014, quando parou a praia do Baleal a aterrar um impensável aéreo 540º durante um mero free surf ?
Claro que vibrei com os feitos dele ao longo da vida, mas o coração puxa sempre pelos nossos. Senti um orgulho tremendo quando o Tiago "Saca" Pires lhe ganhou em Uluwatu, em 2008, e depois em Hossegor, no ano seguinte.
No entanto, nada bate o arrepio de ter estado em Supertubos naquele outubro de 2013 e ver, com os meus próprios olhos, um jovem Frederico "Kikas" Morais, a competir como wildcard, eliminar o Kelly Slater. Ainda assim, mesmo na derrota, a forma inteligente e calculista como Slater lia o mar deixava qualquer um impressionado.
A sua piscina de ondas artificiais, o Surf Ranch, ajudou sem dúvida a mudar o rumo do desporto, abrindo portas impensáveis à progressão técnica. Mas é na imprevisibilidade do oceano que ele continua a querer provar o seu valor e a competir.
Saber que esta pode ser a última vez que o vemos com a licra vestida em Teahupo'o — uma onda que lhe deu tantos momentos perfeitos e que nos deu tanto gozo assistir — traz uma certa nostalgia. É, de alguma forma, o fechar de um ciclo para quem acompanha o surf com paixão.
Neste compasso de despedida, é inevitável sentir saudades das grandes rivalidades que marcaram o circuito mundial.
Pensamos nos embates pesados com o australiano Mark Occhilupo, mas a maior de todas foi, sem dúvida, com o malogrado Andy Irons, pois trouxeram uma tensão e beleza únicas à competição. Para quem quiser recordar essa época, o registo visual é obrigatório: Kelly Slater vs Andy Irons.
Que o mar lhe dê a despedida digna que a sua carreira merece.
Nota de rodapé: Para quem deseja tentar perceber melhor este génio fora de água, recomendo a leitura das suas duas autobiografias editadas em português — "Pipe Dreams" (2004) e "Pelo Amor" (2010).





