Crónicas de um Surfista de Meia Idade (16.ª): Que bem que sabe surfar de calções! quarta-feira, 22 julho 2026 09:46

Crónicas de um Surfista de Meia Idade (16.ª): Que bem que sabe surfar de calções!

numa altura em que o oceano nos oferece um daqueles raros presentes que todos os surfistas portugueses sabem apreciar: temperaturas da água excecionalmente elevadas...

 

Introdução editorial:

Há momentos que merecem ser assinalados. Este é um deles.

O nosso cronista Rafael Amorim, amigo de longa data da Surftotal, acaba de concluir o seu doutoramento, uma conquista que merece o reconhecimento de todos aqueles que acompanham o seu percurso dentro e fora de água.

Assinalamos esse momento com o regresso das "Crónicas de um Surfista de Meia Idade", precisamente numa altura em que o oceano nos oferece um daqueles raros presentes que todos os surfistas portugueses sabem apreciar: temperaturas da água excecionalmente elevadas para a época, com valores próximos dos 24 ºC em vários pontos da costa oeste portuguesa, permitindo sessões apenas de calções ou fato curto.

Para quem surfa há décadas, há sensações que nunca deixam de emocionar. Entrar no mar sem o peso do neoprene é uma delas.

Boa leitura.

 

Crónicas de Um Surfista de Meia Idade (16.ª): Que bem que sabe surfar de calções !

 
 
Há dias em que o mar parece não colaborar e a vontade de ficar em terra firme parece falar mais alto. Ainda por cima, com as câmaras a mostrarem um mar bastante pequeno, o desfecho parecia óbvio. 
 
No entanto, bastou uma rápida troca de mensagens no grupo das Manhas Submersas para acender a vontade. Até porque. para quem já não tem o privilégio de ir à água todos os dias e que, por vezes, passa semanas em seco, esta entreajuda é o empurrão de que precisamos para nos atirarmos ao mar. 
 
Como já não surfo com tanta regularidade, estes pequenos momentos de incentivo ganharam uma importância desmedida. 
 
Arranquei para fazer os trinta e tal quilómetros até à praia num autêntico descargo de consciência, com as expectativas lá em baixo. O mar estava, de facto, muito pequeno. Mas guardava um luxo raro para quem surfa na região Norte: a possibilidade de entrar na água, com uma temperatura de 20.º graus, apenas de calções e licra. 
 
A sessão durou pouco mais de uma hora, num daqueles beach breaks mesmo em frente ao campo de futebol da Praia da Aguçadora onde partilhei o pico com meia dúzia de bodyboarders mais novos. Houve até espaço para alguma pedagogia, ensinando regras de prioridade aos mais novos, valendo a preciosa ajuda dos bodyboarders mais velhos que os acompanhava. 
 
Com a maré completamente vazia e com potência baixa, aquela praia ganha, naquele sítio,  uma energia extra e com o ambiente de cordialidade dentro de agua, foi uma sessão excelente.
 
A verdade é que, há uns anos, nem sequer concebia entrar num mar assim. Mas, à medida que envelhecemos, começamos a apreciar as coisas de outra maneira. Aliás, da mesma forma que há uns anos não apreciava Jack Johnson – que foi a banda sonora perfeita para esta sessão – agora faz todo o sentido a sua música que, neste mar pequeno, ganhou um outro sentido.
 
Inevitavelmente, lembrei-me daquela cena do Big Wednesday,  quando os amigos se reencontram dentro de água e um dele diz que só surfa quando é preciso. As vezes é preciso mesmo surfar !
 
Mas a verdadeira magia não esteve no tamanho das ondas, esteve na profunda sensação de leveza. Estar no oceano sem a armadura pesada do neoprene, sentindo a água diretamente na pele, traz um nível de comunhão com o mar que normalmente não conseguimos ter. É uma liberdade imensa.
 
No final das contas, uma hora nestas condições revelou-se a melhor ferramenta possível para limpar a cabeça. Digo-vos com toda a certeza: bate aos pontos qualquer comprimido ou banho de gelo. 

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