Devem os juízes de surf ser ex-atletas de elite? quinta-feira, 09 julho 2026 11:46

Devem os juízes de surf ser ex-atletas de elite?

Griffin Colapinto reacendeu uma discussão antiga no surf competitivo, e Kelly Slater juntou-se ao debate lembrando que julgar é uma função exigente e ingrata

 

O surf competitivo precisa de mais ex-atletas nos painéis de julgamento?

 

Quem deve julgar o surf profissional?

A pergunta não é nova, mas voltou a ganhar força depois de Griffin Colapinto levantar o tema no podcast da Stab, defendendo a ideia de que os juízes de surf deveriam ter sido surfistas de alto nível, capazes de compreender por experiência própria a dificuldade real das manobras que estão a avaliar.

O argumento é simples: quem já fez uma curva crítica numa secção pesada, amarou um aéreo muito técnico, saiu de um tubo profundo ou competiu ao mais alto nível terá, em teoria, uma leitura mais apurada daquilo que acontece dentro de água.

Num surf cada vez mais progressivo, com rotações aéreas complexas, manobras em secções de risco, tubos pesados e estilos muito diferentes entre atletas, essa sensibilidade pode fazer diferença.

 

A dificuldade que nem sempre se vê

Visto da praia ou da transmissão, nem tudo parece tão difícil como realmente é.

Há manobras que, por serem feitas com fluidez, parecem simples. Mas para quem surfa a sério, há detalhes que mudam completamente o grau de dificuldade: o ponto da onda onde a manobra é executada, a velocidade de entrada, o controlo na aterragem, a secção escolhida, a projeção, o risco de queda e a capacidade de ligar tudo sem perder ritmo.

É aí que entra o argumento de Griffin Colapinto.

Para o surfista norte-americano, um ex-atleta de elite pode ter uma perceção mais direta daquilo que está a ser feito. Não apenas do resultado visual, mas da dificuldade técnica e física necessária para executar determinada manobra em contexto competitivo.

A ideia encontra eco em muitos surfistas. Um juiz que tenha sentido na pele a dificuldade de certas manobras poderá, em teoria, valorizar melhor o risco, a inovação e a execução.

 

Kelly Slater traz a discussão para a realidade

O debate ganhou ainda mais peso quando Kelly Slater entrou na conversa.

O 11 vezes campeão mundial questionou qual será o padrão seguido noutros desportos julgados, como boxe, MMA, ginástica, saltos para a água ou patinagem no gelo. Slater levantou também outra hipótese relevante: os treinadores podem ser tão importantes como os ex-atletas na leitura técnica de uma performance.

Mas o ponto mais pragmático do comentário de Slater foi outro.

Depois de uma longa carreira como profissional, muitos surfistas dificilmente terão vontade de passar dias inteiros numa torre de julgamento. Julgar heats é um trabalho exigente, repetitivo, de enorme concentração e, muitas vezes, ingrato.

Quando os juízes acertam, raramente são elogiados. Quando uma nota é discutível, tornam-se rapidamente alvo de atletas, treinadores, comentadores e adeptos.

A observação de Slater ajuda a equilibrar a discussão: uma coisa é defender que ex-atletas de elite poderiam melhorar a leitura técnica dos painéis; outra é perceber quantos estariam realmente disponíveis para assumir essa função.

 

O problema não é apenas saber surfar

Ser um grande surfista não significa automaticamente ser um grande juiz.

A arbitragem exige rapidez de análise, memória, consistência, conhecimento profundo dos critérios, resistência mental e capacidade de manter imparcialidade ao longo de um dia inteiro de competição.

Um ex-profissional pode conhecer o surf por dentro, mas pode também trazer relações pessoais, preferências de estilo, rivalidades antigas ou proximidade com atletas e treinadores.

Num desporto já naturalmente subjetivo, esse é um ponto importante.

Julgar surf não é apenas reconhecer uma boa manobra. É comparar ondas em tempo real, aplicar critérios, gerir escalas de pontuação, manter coerência entre heats e resistir à pressão de decisões que podem influenciar carreiras, rankings e títulos.

 

A realidade portuguesa

Em Portugal, esta discussão tem ainda uma dimensão prática muito evidente.

Há poucos ex-surfistas profissionais interessados em seguir carreira como juízes. O trabalho implica dias longos, muitas horas dentro de uma estrutura de prova, concentração permanente e uma remuneração que nem sempre é suficientemente atrativa para quem tem outras opções dentro do surf.

Muitos antigos atletas acabam por seguir caminhos ligados ao coaching, às escolas, à formação, à comunicação, à gestão de projetos, às marcas ou simplesmente a uma vida mais livre dentro e fora de água.

A ideia de ter mais ex-profissionais nos painéis pode ser interessante, mas esbarra rapidamente numa pergunta simples: quem quer realmente fazer esse trabalho?

 

Treinadores podem ser parte da resposta?

A sugestão levantada por Kelly Slater sobre os treinadores merece atenção.

Em muitos desportos, os melhores treinadores nem sempre foram os melhores atletas. Mas têm uma capacidade profunda de análise técnica, leitura de performance e compreensão da evolução dos critérios.

No surf, treinadores habituados a trabalhar com atletas de alto nível podem ter uma leitura muito apurada sobre dificuldade, risco, progressão e execução.

Talvez a solução não passe por transformar todos os ex-profissionais em juízes, mas por aproximar mais atletas, treinadores e painéis de julgamento.

Formação contínua, revisão de critérios, maior transparência, análise técnica conjunta e participação de ex-atletas em processos consultivos poderiam ajudar a reduzir a distância entre quem surfa, quem treina e quem julga.

 

Uma discussão necessária

A arbitragem no surf nunca será totalmente consensual.

Ao contrário de uma corrida, em que vence quem chega primeiro, ou de um salto medido objetivamente, o surf depende de interpretação. Velocidade, força, fluidez, variedade, inovação, compromisso e grau de dificuldade têm de ser avaliados em conjunto.

É por isso que o debate levantado por Griffin Colapinto é pertinente.

Não porque todos os juízes tenham obrigatoriamente de ter sido atletas de elite, mas porque o surf competitivo precisa de garantir que quem avalia acompanha a evolução real da modalidade.

As manobras mudaram. Os aéreos evoluíram. Os tubos são surfados com outro nível de risco. As piscinas de ondas trouxeram novas referências. O público vê mais, compara mais e questiona mais.

 

Entre experiência e competência

O modelo ideal talvez esteja no equilíbrio.

Juízes profissionais bem formados, ex-competidores, treinadores e surfistas com experiência técnica podem todos contribuir para uma arbitragem mais sólida, desde que existam critérios claros, independência e transparência.

O surf precisa de juízes que compreendam profundamente aquilo que estão a avaliar. Mas também precisa de pessoas capazes de julgar com rigor, concentração e distância emocional.

Entre a experiência de elite e a competência técnica de julgamento, talvez esteja o caminho.

O debate voltou a abrir. E, num surf cada vez mais complexo, progressivo e observado ao detalhe, dificilmente ficará por aqui.

 

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