A falta de sedimentos provenientes dos rios agrava a erosão costeira e aumenta a pressão sobre praias que dependem cada vez mais de intervenções humanas para manter o areal. A falta de sedimentos provenientes dos rios agrava a erosão costeira e aumenta a pressão sobre praias que dependem cada vez mais de intervenções humanas para manter o areal. sábado, 23 maio 2026 13:40

Porque é que Portugal está a ficar sem areia nas praias? A resposta pode começar nos rios

Mais de 600 barreiras fluviais foram removidas na Europa em 2025, mas Portugal continua quase parado, e isso também pode estar a afetar a areia que chega às praias.

Mais de 600 barreiras eliminadas em 2025

A remoção de barreiras fluviais obsoletas atingiu um novo recorde na Europa em 2025. Segundo o relatório “Dam Removal Europe 2025”, foram removidas 603 barreiras, mais 11% do que em 2024, permitindo religar 3.740 quilómetros de rios em todo o continente.

Portugal, no entanto, surge no fundo da tabela, com apenas uma barreira removida, ao lado de países como Croácia, Islândia, Itália e Eslováquia.

A liderança europeia coube à Suécia, com 173 barreiras removidas, seguida da Finlândia, com 143, e de Espanha, com 109. A Islândia removeu oficialmente a sua primeira barreira, enquanto a Macedónia do Norte se estreou neste movimento com duas remoções.

Rios livres significam ecossistemas mais saudáveis

A coligação Dam Removal Europe, que junta organizações como a WWF, The Rivers Trust, The Nature Conservancy, European Rivers Network, Rewilding Europe e Wetlands International Europe, defende que a remoção destas estruturas é essencial para restaurar a saúde dos rios.

Muitas das barreiras removidas eram pequenas estruturas obsoletas, como açudes, pontões ou antigas barragens sem função atual. Apesar de já não servirem qualquer propósito, continuam a bloquear o fluxo natural da água, dos sedimentos e dos nutrientes, impedindo também a circulação de peixes e outras espécies.

Segundo a organização, a remoção de barreiras reforça a resiliência climática, melhora a segurança hídrica e alimentar, impulsiona a biodiversidade e acelera a recuperação dos ecossistemas de água doce.

Porque é que isto também importa para as praias

A ligação entre rios livres e praias com mais areia é muitas vezes esquecida, mas é fundamental.

Os rios transportam naturalmente sedimentos — areia, cascalho, argilas e matéria orgânica — desde o interior dos territórios até ao litoral. Ao longo de milhares de anos, este transporte sedimentar ajudou a alimentar praias, deltas, estuários e sistemas dunares.

Quando se constroem barragens, açudes ou outras barreiras, grande parte desses sedimentos fica retida a montante. A água continua a correr para o mar, mas chega com muito menos areia. O resultado é simples: as praias deixam de receber parte do material que as ajuda a manter-se e a regenerar-se naturalmente.

Num contexto de erosão costeira, subida do nível do mar e temporais cada vez mais intensos, esta perda de sedimentos torna-se ainda mais crítica. Menos areia a chegar ao litoral significa praias mais frágeis, sistemas dunares mais vulneráveis e maior exposição de zonas costeiras a galgamentos e destruição.

Rios livres transportam sedimentos até ao mar, ajudando a formar praias mais estáveis, dunas mais resistentes e bancos de areia importantes para o surf.

 

Um problema também costeiro

A remoção de barreiras fluviais não é, por isso, apenas uma questão de biodiversidade nos rios. É também uma questão costeira.

Ao permitir que os rios recuperem parte da sua dinâmica natural, aumenta-se a possibilidade de os sedimentos voltarem a circular até ao mar. Isso não resolve sozinho o problema da erosão, mas pode contribuir para devolver algum equilíbrio a sistemas costeiros que foram profundamente alterados pela intervenção humana.

Em países como Portugal, onde muitas praias enfrentam recuos significativos da linha de costa, a gestão dos sedimentos deveria ser vista de forma integrada: da nascente dos rios até ao mar.

Europa quer restaurar 25 mil quilómetros de rios

O relatório lembra que os rios europeus continuam fortemente fragmentados. Estima-se que existam mais de 1,2 milhões de barreiras no continente, entre barragens, represas, aquedutos, pontões e outras estruturas que interrompem os processos naturais.

Esta fragmentação tem contribuído para a degradação dos ecossistemas de água doce e para o declínio da biodiversidade. De acordo com dados citados no relatório, 42% dos peixes de água doce da Europa estão classificados como ameaçados de extinção, enquanto quase dois terços apresentam elevada preocupação de conservação.

O Regulamento da União Europeia sobre a Restauração da Natureza, em vigor desde 2024, estabelece a meta de restaurar pelo menos 25.000 quilómetros de rios em estado de fluxo livre até 2030.

Portugal ainda longe do ritmo europeu

Apesar do crescimento do movimento de remoção de barreiras na Europa, Portugal continua a apresentar números muito reduzidos. Tal como no relatório anterior, o país removeu apenas uma barreira em 2025.

Num território com forte pressão sobre rios, albufeiras, zonas costeiras e praias em erosão, o debate sobre a continuidade de estruturas obsoletas ganha nova importância. A recuperação dos rios pode ser decisiva não só para a biodiversidade, mas também para a forma como o litoral português enfrentará os próximos anos.

 

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