PIPELINE NÃO É A ONDA É A VIAGEM! Terry Houston

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quinta, 12 dezembro 2013 09:19

PIPELINE NÃO É A ONDA É A VIAGEM!

Crónica de João Meneses

Passaram mais de 20 anos mas lembro-me… lembro-me com a nostalgia de quem viveu uma época mágica do surf!

 

Subo as escadas e entro de fininho na casa da minha avó, o telefone está ali no hall de entrada, disco alguns números, do outro lado oiço uma voz que me relata as condições do mar. Disksurf é o nome. Cada segundo vai sair caro, não a mim, mas à casa de cima, aos meus avós. O meu pai iria reparar na conta extra, os meus avós não. Aquela voz, às vezes gravada no dia anterior, não me dá certeza de nada, diz-me que as condições não estão perfeitas e que a culpa é do vento. Longe de imaginar que um dia iria ver as minhas ondas numa “futuresca” internet, desço as escadas, embalo a prancha numa capa velha, enrolo o fato de borracha gasta numa mochila de pano e apanho o primeiro autocarro para Belém, onde vou aguardar o barco Marvila que me levará à Trafaria.

 

Em forma de brincadeira dizíamos: “ O Marvila tem 3 mudanças: devagar, devagarinho e parado.” Agora está mesmo parado e foi transformado em arte pela conhecida Joana Vasconcelos. Mas para nós foi real, foi a nossa arte de chegar à praia. Esse grande guerreiro do Tejo. Ainda em Belém conto um, dois, três, seis surfistas. Sei o que me espera na Trafaria, sabendo que o motorista do autocarro só permite a entrada de duas pranchas, faço contas de cabeça, se não for o primeiro ou o segundo na corrida do cais até à paragem, terei que esperar 45 minutos pela próxima “boleia”. Será que vai atracar de popa ou de proa? Tenho que arriscar... Proa! O salto para o cais é feito ainda com o barco em andamento, a meio metro da atracagem completa. A minha coragem permite-me ganhar vantagem sobre o surfista nº2, foi um risco desnecessário, inconsciente, se caísse as consequências seriam muito graves, mas ficar em nº 6 na corrida está fora do meu pensamento e, corro, até porque não quero chegar tarde à praia, nem aventurar-me  numa caminhada a pé e sentir medo de passar por alguns bairros pobres da Costa,  fazendo-me de forte e com voz grossa ,“não tenho tabaco nem trocos para dar…”, pensando na forte probabilidade de uma troca murros para defender o meu material de surf.

 

No areal de S. João, vejo espumas atrás de espumas, mas não há vento! Maldito DiskSurf e aquela voz que me queria enganar. Cumprimento os meus amigos que por ali estão, “Acham que conseguimos chegar ao outside?” O café do Sr. Zé, o bar Tubarão ou o pequeno anexo da recepção do parque de campismo do Inatel, são algumas das opções para deixar a mochila. Ir para a zona dos locais do bar do Kontiki é terreno inimigo, lá esperava-nos um grupo de locais agressivos e em maior número do que nós (hoje somos amigos e rimo-nos da rivalidade de outrora). Preferíamos unirmo-nos ao 3º grupo de surfistas, os que paravam no pontão da praia do Norte, assim conseguíamos dominar metade da praia de S. João. Assim definíamos as nossas fronteiras.
10 minutos depois faço a primeira onda, um floater e um cutback feio que me pareceu melhor que o famoso snap do Tom Carrol em Pipeline. Sorrimos uns para os outros, “isso é que foi um leque de água, parecias o Pancho Sullivan em Sunset.

 

À medida que o corpo pede alimento as ondas tornam-se mais rápidas e o outside mais longe, Sonho com a sandes de queijo e manteiga, com os biscoitos de coco e com o leite de chocolate. Provavelmente metade do que vem na ementa já está no estomago dos meus amigos. Foram saindo mais cedo da água com a desculpa do frio…. Surfistas sempre foram ladrões de comida! Enrolado na toalha, procuro as migalhas que sobraram do meu farnel. Malditos… da próxima serei eu a sair mais cedo. Aqui o preço de surfar mais uma onda pode custar-te o almoço. Eu sabia! Mas comer ondas era sempre a melhor refeição.

 

O vento sopra mais forte e vem de lado, chamávamos-lhe cross shore, tchi já não há tubos para mandar! Como se tivéssemos a técnica para tal… Isso não nos impedia que vestíssemos os fatos pela segunda vez, ressequidos do sal e do sol, com milhares de grãos de areia que nos deixavam arranhões pela pele. Saíamos dentro de água já quase de noite, esperava-me a mesma viagem de regresso, sem a necessidade da corrida para o Cais. No Marvila sonhava acordado com as ondas surfadas ou perdia-me num sono profundo até ao apito do cacilheiro, avisando do abraço a Belém. Seguia-se outro autocarro até chegar ao banho quente e ao jantar caseiro, já sem medo que alguém me roubasse o prato cheio.

 

No vídeo VHS o filme “North shore” iria ser visto vezes sem conta. Imaginar-me-ia a surfar a onda de Pipeline e a apaixonar-me pela Kiani, a bonita local hawaiana! No dia seguinte o telefone estava lá, a voz enganadora do Disksurf também. E a fatura dos meus avós a crescer…

 

 

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