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segunda, 27 janeiro 2014 18:38

UMA PRAIA DA BARRA QUE ESTÁ IRRECONHECÍVEL

Vaga de destruição atinge a zona de Aveiro. A SurfTotal falou com quem assiste a tudo.

Por Patrícia Tadeia

Com a tempestade Hércules que foi notícia durante muitos dias, veio o rasto da destruição. Mas um desses rastos, o da Praia da Barra, em Aveiro, já era “adivinhado” há muito, por quem lá vive, ou simplesmente por quem lá passa. Há cerca de 6 anos que a Associação de Surf de Aveiro alerta para o problema, defendem. Os locais falam no tema, acumulam-se as conversas e circulam e-mails e textos "virais" que falam em irresponsabilidade. “Aumentaram o molhe norte por causa do Porto de Aveiro. Retiraram areia das praias por causa do Porto de Aveiro. Tudo a favor do desenvolvimento e futuro, que desenvolvimento e que futuro? Está aí o resultado...e agora?”, lê-se num desses textos.


No mês passado a Praia da Barra foi alvo de estragos “no sistema dunar ao longo de uma faixa da zona costeira com vários quilómetros”, diz à SurfTotal Joaquim Soares da Associação de Surf de Aveiro. Nesta praia, “desapareceram milhares de metros cúbicos de areia em poucas horas em zonas de duna primária. Mais a sul, nas praias da Vagueira e, principalmente, na praia do Labrego, a situação é muito alarmante”, acrescenta.

 

“O mar avançou de tal forma que a praia desapareceu, de sete apoios de praia só existem dois intactos, mas que em breve poderão ser nenhum a não ser que a exemplo de Off Shore o mudem para outro lugar mas... Por quanto tempo?”, acrescenta à SurfTotal o local de Aveiro, e também diretor técnico da Federação Europeia de Surf, Rui Félix.

 

“O pico fixo mais emblemático e tradicional da Barra - playground - para já desapareceu e tenho sérias dúvidas se voltará a rebentar. Também o pico do "outside" na Barra desapareceu”, diz ainda Rui Félix.

 

“Apesar de não ser técnico, não tenho dúvidas em afirmar que o aumento do molhe norte para proteger a entrada do Porto de Aveiro, terá sido a causa principal. Com efeito, desde o primeiro aumento do molhe norte as áreas de S. Jacinto e Praia da Barra foram-se esvaziando de areia, agora com o segundo aumento essa situação passou a ser ainda mais rápida que o previsto e os efeitos negativos são claramente visíveis”, diz Rui Félix.


FENÓMENO ANTIGO E DE SOLUÇÃO COMPLEXA

Para Joaquim Soares, o fenómeno da acentuada erosão nesta zona costeira não é recente. “O que assistimos nas últimas décadas foi ao aceleramento do processo. Em particular, nos últimos 10 anos, e ainda mais nos últimos 5, assistimos a um aumento exponencial da erosão, a um ritmo nunca visto até agora”, afirma.

 

Mas, acrescenta, a explicação para este fenómeno é complexa. “Querer simplificar com um ou dois fatores é errado. As causas são várias: a ação das barragens no bloqueio do fluxo natural dos sedimentos, dos rios para o mar; a construção de inúmeros esporões ao longo da costa, que desconfiguram o ciclo de deposição de areias produzido pelas correntes dominantes ao longo da costa; a edificação de estruturas e habitações em zonas proibitivas; a extracção desenfreada de inertes na foz dos rios; as alterações climáticas e o seu impacto na dinâmica das correntes e ondulações, bem como na ampliação de fenómenos climáticos extremos, etc”, enumera à SurfTotal.

 

“No caso especifico da nossa zona, a extração de areias, a construção e aumento de esporões e a falta e o deficitário planeamento urbanístico, tiveram, a nosso ver, um papel relevante para chegarmos à situação atual”, aponta, acrescentando ainda que existe uma “completa falta de planeamento estratégico de desenvolvimento sustentado de quase toda a zona costeira”.

 

Para Joaquim Soares, a falta de preocupação e responsabilidade não é só em Aveiro. “Isto acontece de norte a sul do país. Aqui nesta zona, isso fica ainda mais notório. Apesar de haver em Portugal zonas igualmente em situação delicada, estamos em crer, e esperamos não estar a cometer alguma imprecisão, que o caso aqui da zona de Aveiro envolve uma complexidade e um nível de consequências sem paralelo a qualquer outra zona de Portugal”, aponta.

 

“A ria de Aveiro é o maior sistema lagunar do país e estende-se por dezenas de quilómetros. A frágil língua de areia que vai da Praia da Barra à Praia de Mira serve de proteção contra a entrada do mar na ria. A própria barra funciona como um sistema controlado de manutenção e estabilização da vitalidade de toda esta zona lagunar. Dito de uma forma simples, toda uma larga extensão de território, com as suas populações e respectivas atividades, depende da preservação dos sistemas dunares situados nesta pequena faixa de areia e alguma vegetação compreendida entre a Barra e Mira”, explica.



DEBATER A QUESTÃO É FUNDAMENTAL

Para o representante da Associação de Surf de Aveiro, era importante, antes de mais, “juntar à mesma mesa os responsáveis políticos, administrativos, investigadores e demais elementos da comunidade para uma análise serena e séria das causas, dos efeitos e das eventuais soluções para minimizar o problema da erosão”.

 

“Uma coisa parece ser consensual: todas as medidas apressadas tomadas até agora não resultaram, pelo contrário, só vieram piorar a situação. A construção de esporões e o abastecimento pontual da praia com areia não resolve nada”, diz ainda.



Já o local Rui Félix recorda que o tema já é antigo. “A verdade é que parece que apesar de as pessoas e especialmente surfistas e bodyboarders comentarem a situação, ao que sei ninguém concretizou alertas e como tal todos temos também uma parte da responsabilidade. Realmente este problema não tem sido discutido, tem passado ao lado de todos talvez por desinteresse, desconhecimento ou falta de informação, situação que deverá ser alterada em breve”, diz o local.


ORGÃOS POLÍTICOS DE FORA

Segundo a Associação de Surf de Aveiro, “nenhum órgão político ou outro procurou, verdadeiramente, solucionar este enorme problema. Foram tomadas algumas medidas avulsas, mas nada de substancial ou sequer dirigido às causas do problema”.



“Não é possível solucionar o problema da erosão costeira sem se pensar que tipo de desenvolvimento turístico e social queremos para uma determinada região. Não é possível gerir as zonas costeiras sem que se leve seriamente em conta os cenários futuros de alterações climáticas. Não é possível preservar os ecossistemas sem que se mude de um ponto de vista meramente utilitarista para um ponto de vista mais profundo, que reconheça os sistemas naturais como algo precioso para o equilíbrio de uma região e o bem estar e felicidade real das populações que aí habitam”, diz Joaquim Soares à SurfTotal.

 

Talvez por isso, o responsável conclua, dizendo: “Não é possível resolver qualquer situação que seja, sem que sejamos nós mesmos, aqueles que mais recebem das bênçãos do grande Oceano, a tomar a iniciativa de fazer algo. Não somente por nós mas, acima de tudo, pelas futuras gerações. Como ensinavam os velhos índios, devemos agir como se das nossas ações dependesse o futuro das próximas sete gerações.”

 

 

 

 

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