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terça-feira, 02 fevereiro 2021 02:39

Nó de água 2 - Circuito (De)sintegrado - por João Valente

"As avaliações a posteriori condenam claramente a WSL pelo erro estratégico..."

 

Nó de água 2

*Por João Valente

 

Circuito (Des)integrado

Com o cancelamento compulsivo do arranque do World Tour na chamada bolha americana, a WSL empurrou a retomada para Bells em abril. Estratégia delineada ou ilusória esperança?

 

A icónica onda de Pipeline tem vindo a ser palco do também icónico evento Pipe Masters

 

 

Olhar para o céu, cair no inferno:

Foi quase. Foi mesmo quase. Quase uma prova de Honolua clássica, quase um Pipemasters épico, quase um golpe de mestre burocrático, quase um regresso em pleno ao surf competição. Mas o arranque do novíssimo formato do World Tour da WSL foi como aquele tubo do Kikas na terceira ronda frente a Jack Freestone: tivesse completado, teria sido um notão capaz de mudar a tendência da bateria. Mas ele não saiu, pois não? Foi quase. E nestas coisas, quase é o mesmo que nada.

Nesta altura, já todas as análises se fizeram. As avaliações a posteriori condenam claramente a WSL pelo erro estratégico de marcar o início da temporada para território americano, o mais devastado pela pandemia. Depois do ataque de tubarão em Maui, dos casos de Covid-19 em Pipe e resultante imbróglio diplomático com as autoridades havaianas — convenhamos, licenciar as provas como produções cinematográficas de modo a ultrapassar restrições a eventos desportivos era uma daquelas ótimas ideias com tudo para dar errado — a incompreensível paragem de um mês a seguir ao Masters revelar-se-ia o golpe final nas ambições do CEO, Eric Logan, e seus acólitos. O cancelamento de Sunset e o adiamento com sabor a anulação de Santa Cruz fez a bolha havaiano-americana do circuito rebentar como um balão à solta num pinhal.

Mesmo sendo condescendente para com os responsáveis pelas decisões, é difícil não reconhecer que alguma coisa falha no reino de E-Lo e companhia. Ao longo dos últimos dez meses, temos visto outros desportos, de elevado nível de contacto, praticados em espaços fechados e com consecutivos, porque inevitáveis, casos de contágio entre atletas ou membros do staff, serem bem-sucedidos — ou seja, sem paralisias — a adaptar-se à nova realidade global, enquanto o surf, apostando nas louváveis bolhas de competição, só tem conseguido manter-se numa enorme bolha de inatividade e incerteza.

 

Eric Logan - CEO da World Surf League numa das suas raras comunicações aos media.

 

 

Ora bolhas!

Agora as fichas estão todas apostadas na chamada bolha australiana, a ter início em Bells Beach, cujo período de espera começa (não estou a gozar!) no dia 1 de abril. Seguem-se Margaret River (16-26) e Snapper Rocks (3-13 de maio). Surgiu, entretanto, esta semana o rumor de uma quarta prova, o que materializaria a ideia de um circuito inteiro realizado no Down Under. Já se falou nos arredores de Sydney embora na semana passada tenha começado a circular um movimento de locais de Lennox Head contra a realização de qualquer prova da WSL naquele pointbreak da Nova Gales do Sul. Por enquanto, nada está confirmado.

Em teoria, um circuito realizado em solo australiano não é de todo mal pensado. Vamos considerar o restante das provas anunciadas para o calendário de 2021. A seguir à Austrália, teríamos o Brasil e a África do Sul. O Brasil ocupa o segundo lugar no ranking da fatalidade por Covid-19, atrás somente dos EUA, contabilizando mais de 200 mil mortos. Já os sul-africanos, não apresentando números tão dramáticos, também não nos dão razões nenhumas para otimismos: mais de 40 mil mortos e, a caminho do inverno, sem perspetivas de melhorias. Logo depois, vem o Tahiti que, com uma situação controlada em termos pandémicos, poderá revelar-se relutante em receber um vasto grupo de viajantes de diversas origens e diferentes graus de exposição ao vírus. Resta-nos, por fim, o regresso a solo americano, nomeadamente para o Surf Ranch Pro e para a anunciada finalíssima em Trestles, ambos a acontecer na assolada Califórnia e num país sob o novo comando do muito mais restritivo e combativo presidente Biden. No seguimento da desastrosa experiência na primeira bolha havaiano-americana, será de bom senso fazer planos para uma segunda bolha nas terras do Tio Sam?

 

Bells Beach na Austrália fará parte do Circuito WSL 2021

 

 

O buraco é mais Down Under?

Ora, isso nos traz de volta à hipótese australiana. Adicionando uma quarta prova ao calendário, teríamos um total de cinco eventos, incluindo os já realizados Maui Pro e Pipe Masters, o que equivale ao atípico ano de 2001, quando o ataque terrorista ao World Trade Center levou ao cancelamento de boa parte do Tour, coroando CJ Hobgood com somente cinco etapas realizadas. Um circuito nestes moldes teria, assim, legitimidade histórica e desportiva suficiente para atribuir os títulos masculino e feminino da temporada.

Apresentando-se os surfistas e staff a tempo do obrigatório período de quarentena de 14 dias — ver o que se está a passar neste preciso momento com os tenistas do ATP Tour —criar-se-iam condições ótimas para a WSL permanecer e circular em segurança pelo país. Mas mesmo um cenário destes surge revestido de uma boa dose de pensamento positivo ou otimismo apostador, como se preferir. A Austrália tem aproveitado a sua condição de ilha para, impondo rígidas medidas de controlo migratório e de circulação interna, reduzir o contágio quase a zero, impondo enormes desafios para a organização de eventos. As restrições às viagens internacionais continuam ativas, conduzindo de novo o governo australiano a endurecer a entrada no país face às novas estirpes do coronavírus. Como afirmou recentemente Nick Carroll num artigo no Surfline, se algum surfista não tiver já reservado o seu bilhete de avião para chegar à Austrália pelo menos duas semanas antes de Bells — supondo um salto imediato da quarentena para o heat — não se está a ver como poderá chegar a tempo da primeira prova.

Mesmo presumindo, porém, o ultrapassar desse primeiro e nada negligenciável obstáculo, resta a estratégia do apertado controlo das fronteiras interestaduais por parte dos diferentes Estados australianos, com particular destaque para o governador de West Australia, local de realização da etapa de Margaret River, apreciador assumido de medidas mais rijas. Quaisquer evoluções negativas no índice de contágios pode ocasionar a inviabilidade de uma das provas da bolha aussie, que engloba os Estados de Vitória, Western Australia, Queensland e, por hipótese, Nova Gales do Sul. E num circuito de cinco etapas, basta um cancelamento para comprometer todo o projeto.

 

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Quiksilver Pro France voltará em 2021? - WSL

 

Talvez a Europa

Em suma, mesmo a solução remediada de um tour australiano surge em solo muito tremido, insinuando aos responsáveis da WSL a urgência de estudar desde já outro plano. O óbvio enredo de transportar os surfistas do World Tour para uma ilha ou região isolada — Fiji salta à vista, mas outras haveria — está posto de lado sem parecer nunca ter sido equacionado no quartel-general de Santa Mónica. Deste modo, outro cenário, tão hipotético quando tudo o resto, poderia ter lugar. Dado o súbito desaparecimento da etapa portuguesa em virtude da usurpação de datas pela cancelada prova de Santa Cruz, e fazendo fé nos resultados da fórmula vacinação + imunidade de grupo + época estival, uma remarcação do Meo Pro para a sua data original, no Outono, criando condições para um regresso de França ao calendário e trabalhando de forma a adicionar uma prova extra numa Europa sequiosa de retomar o caminho da promoção turística, poderia levar a uma renascida Perna Europeia, numa espécie de ajuste de contas com a história, pois em 2001 foram as etapas europeias a cair junto aos escombros das Torres Gémeas. Vale o que vale, numa altura em que nada vale grande coisa, correspondendo a dizer que, nesta altura, já vale tudo.

 

 

 

Vai ou racha

Não quero soar excessivamente dramático declarando a condição precária do surf profissional de competição. As competições, é verdade, nunca foram o centro desta atividade. Ao contrário dos grandes desportos de relevância internacional, o surf mantém uma audiência bastante mais ativa que passiva. Entre o público seguidor dos campeonatos, só uma ínfima parte não será, ou terá sido, surfista. Os conteúdos de natureza não competitiva têm, por isso, um impacto raras vezes observado no ténis, no golfe, no futebol ou em quaisquer desportos onde a performance seja quantificável em números exatos — golos, cestos, metros, linhas —tornando a relevância dos campeonatos num terreno tão instável quanto o próprio oceano, como vimos ocorrer em 2020. No entanto, o ser humano adora o tipo de compartimentações, categorizações e medições proporcionadas pelo desporto. Haverá sempre quem esteja interessado em avaliar os melhores, em torcer pelos seus favoritos, em distinguir vencedores e apontar derrotados. É da nossa natureza e garante da subsistência dos modelos competitivos. Mas, sob o perigo de vermos desabar em dois anos uma obra erigida ao longo de cinco décadas — e sequer mencionarmos o fragilizado e incerto circuito de qualificação — a WSL não pode dar-se ao luxo de ter outra temporada sem coroar campeões de forma legítima. Haja esperança de que os dirigentes e demais ocupantes dos postos de decisão em Santa Monica saibam o que estão a fazer.

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