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quinta, 26 abril 2018 10:25

"A Alma Irlandesa" - Fanning o mais humano dos surfistas

Não é possível analisar o percurso competitivo de Mick Fanning sem falar do seu sofrimento, seja ele familiar, competitivo ou acidental.

Todos nós sonhamos com uma vida sem tristezas e fazemos tudo o que está ao nosso alcance para conseguir essa dádiva, mas o sofrimento faz parte da condição humana e Mick Fanning sabe disso melhor do que ninguém.

Durante esta sua fantástica travessia viu logo aos 16 anos o seu irmão Sean morrer num acidente de carro, nada fácil de superar, Fanning ainda de corpo magro e cabelo branco puro perde a sua principal referência familiar. 

Mais tarde a lesão grave no terceiro ano do tour onde rompe os ligamentos cruzados do joelho, quase o retirou definitivamente do surf de competição. A morte precoce do seu irmão mais velho durante o Pipe Masters, onde se consagrou três vezes campeão mundial, de forma menos dramática mas não menos importante, o ter de suportar durante toda a sua carreira a dinastia do melhor surfista de todos os tempos Kelly Slater e ainda o ataque imprevisível do tubarão na África do Sul.

A necessidade ou o sofrimento apura o engenho e Fanning superou tudo nesta sua gloriosa travessia, no primeiro ano do Tour foi top 5 e Rookie of the year, no segundo ano ficou em 4º, no seu terceiro ano do tour teve a tal lesão muito grave mas que não o impediu de 6 meses depois retornar, de forma triunfante e vencer em sua casa na onda de Snapper Rocks, finalmente em 2007 destroça Kelly Slater e torna-se no primeiro australiano em 15 anos a bater Slater.

Em 2009 volta a vencer o seu amigo e rival Joel Parkinson e o terceiro título mundial vem em 2013 destroçando novamente Kelly, pelo meio no round 4 recebe a notícia trágica da morte do seu irmão mais velho. Nesse momento que deveria ser de silêncio e respeito, é impossível esquecer as suas palavras a Peter Mell quando este salienta a emoção da sua performance no heat , Fanning  apenas responde “Estou a tentar viver”.

O lado humano de Fanning em contraste com o seu lado competitivo é impressionante, talvez o maior exemplo de um surfista profissional para os nossos jovens e nunca esquece as suas origens, o  surfista mais veloz do planeta nasceu na costa Oeste de Sidney em Penith, só foi viver para Coolangatta aos 12 anos e nas suas declarações oficias tem sempre uma palavra sobre a sua terra natal.

Foi na sua mãe que muitas vezes procurou um abrigo, seguindo bem o espírito irlandês “ Tudo é incerto neste mundo mas não o amor de mãe”

Mick Fanning aceita o sofrimento supera-o mas não prevarica o jogo como os que teimam em estar por cima e vencer a qualquer custo deturpando de certa maneira a realidade, pelo contrário procura a lealdade e tem sempre um gesto para o adversário, é um verdadeiro campeão, a fibra de quem o sofrimento passa a ser um “incómodo salutar” e talvez até uma bênção. 

Filho de pais irlandeses, talvez a sua alma sofrida e vencedora venha daí:  “Tenta, Fracassa. Não importa. Tenta outra vez. Fracassa de novo. Fracassa melhor”

Mick Fanning aceita a realidade e toma consciência que depois de toda esta travessia atribulada carregada de conquistas já não está preparado para voltar a vencer e sai do circuito, mas sai pela porta grande.

As vitórias competitivas são relativas, a sua superação humana não, essa superação e a sua humanidade talvez sejam a sua grande vitória uma vitória que enaltece o surf como modalidade competitiva,... citando o dramaturgo irlandês Samuel Beckett:  “Fracassa mas fracassa melhor” um verdadeiro campeão é isso…

Mick Fanning - Click in Tracks Mag

 

*Por Bernardo Seabra

 

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