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sábado, 17 fevereiro 2018 19:14

O ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA - W.S.L A CAMINHO DO ABISMO OU DO SUCESSO?

O Surf profissional está partido em dois, o surf tradicional e o surf mediático....

O ensaio sobre a cegueira

“Um motorista parado no semáforo, subitamente descobre que está cego” assim começa de forma aterradora o Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago.
Recordando este perturbador parágrafo, há muita gente no surf hoje em dia parada no semáforo a sofrer do mesmo mal, não vêm ou não querem ver que o surf profissional está partido em dois, o surf tradicional e o surf mediático e é preciso encontrar um equilíbrio entre estas duas correntes.


A perda de Cloudbreak e de Pipeline do circuito em troca da inserção da Kelly Slater Wave Pool no circuito é a constatação disso mesmo.
O surf tradicional é feito para um publico restrito e a estratégia da WSL é alargar o surf de competição a um publico mais vasto ganhado assim maior pujança económica.
Para quem percebe de audiências e rentabilidade económica a entrada da piscina do Kelly é um tiro certeiro, finalmente o surf poderá ser transmitido com hora e dia marcado, os patrocinadores agradecem, nada pior para eles do que a imprevisibilidade dos horários.

Por outro lado, para nós surfistas esta mudança é drástica, fazendo uma comparação machista exagerada “é como trocar a Gisele Bunchen e a Eva Mendes pela Barbie”, eu sei que é uma Barbie bem feita, a piscina até dá bons tubos mas é uma troca sem sentido.. Para além disso é triste constatar a falta de esquerdas no circuito em 2018, só há Teahuppo neste momento, privilegiando claramente os surfistas regulares.


A WSL tem tido sem dúvida um contributo muito importante no crescimento do surf profissional e nós portugueses temos beneficiado da presença do incansável Francisco Spínola, (a nossa sorte é ele ser um surfista empresário, e não o contrário) e  muito tem feito através da WSL pelo nosso país, Francisco Spínola consegue ver os dois lados da moeda e é isso que tem faltado á nova CEO da WSL neste momento, Sophie Goldschmidt.
A legitimidade da WSL para tentar alargar o seu mercado por questões financeiras não está em causa, tem é de ter cuidado para não fugir do seu core e implodir por dentro.


Por exemplo a inserção do pay per view , sabemos que já a curto prazo provavelmente iremos ter a transmissão dos campeonatos mundiais paga, será uma versão mais completa, com  entrevistas mais detalhadas e filmagens com outros ângulos por outro lado mantém se a transmissão gratuita standard para o publico não pagante, presumo que o publico pagante sejam a larga maioria os “não surfistas” e os não pagantes os surfistas, é só recordar o que aconteceu com as marcas de surf que criaram o surfwear a preços mais elevados, reduzindo drasticamente o consumo dos próprios surfistas.

É preciso perceber quem é a nova CEO da WSL, Sophie Goldschmidt, não é uma profissional qualquer, teve cargos executivos na Rugby Football Union e na WTA – o circuito feminino de ténis, no início da sua carreira esteve na direção de Marketing da Adidas.
Sophie é uma profissional experiente e com valor comprovado, a entrada do maior patrocinador da história do ténis feminino teve o seu contributo, é uma especialista nata em impulsionar o crescimento comercial e desenvolvimento de algumas modalidades desportivas. Entusiasta dos jogos olímpicos e incentivadora da piscina de ondas no circuito já começou a afrontar os surfistas tradicionais da pior maneira perdendo a prova rainha do surf mundial o Pipe Masters já em 2019.
A ideia seria encerrar o circuito de 2018 em Pipeline e executar o evento novamente no início de 2019 mas ninguém lhe disse o básico, as licenças no Hawaii são dadas por temporada e não por ano, sendo assim a WSL teria de se candidatar a duas licenças separadas da temporada de inverno 2018/2019, não conseguindo corrigir o erro e fazendo um braço de ferro com o município de Honolulu acabou por perder o evento.
Para se ter uma noção o poder de compra no Hawaii é dos mais caros do mundo, estive lá há cerca de um mês e senti isso na pele, Sophie pelos vistos não sabia.

O investimento económico da WSL na região é irrisório, as receitas turísticas do Hawaii chegam aos 14,7 biliões de dólares por ano, a WSL investe 7 milhões e apenas uma pequena parte desse valor vai para o município de Honolulu e os 20 milhões prometidos de receita durante 6 semanas da Triple Crown é 50% do que o Hawaii recebe só num dia com turistas americanos escaldados a beberem cocktails.
Ao contrário do que as pessoas pensam a maioria dos eleitores Havaianos não fazem surf e são muito sensíveis a preservação natural do seu Estado e consideram os eventos desportivos em recintos púbicos naturais prejudiciais á sua terra.
Outro argumento ignorante foi a comparação com os eventos de futebol ou de golfe estes são realizados em propriedades privadas ao contrário do surf que utiliza espaços públicos para os seus eventos, mas o pior foi procurar estimular a divulgação na imprensa desta “guerra” e matar de vez os “arranjos” possíveis com o município de Honululu que neste momento procura proteger os outros candidatos que cumpriram as normas previstas.

Como se costuma dizer pela boca morre o peixe, e o motorista cego parado no semáforo deve ser mulher e só pode ser a própria Sophie.
O erro foi básico mas não deixa de ser surpreendente depois de tantos anos de eventos de surf na ilha com maior tradição e cultura de surf a nível mundial, é um erro grave.

A questão agora é se a WSL sai de vez do Hawaii ou apenas perde a sua prova em Pipe nos próximos tempos.
E o mais intrigante é saber se a nova CEO acha mesmo que foi um erro ou se acredita que não precisa do Hawaii para impor a sua nova estratégia, é preciso que fique claro, não é o Hawaii que precisa da WSL mas sim a WSL que precisa do Hawaii.


E só espero que no meio desta cegueira haja alguém a ver que o surf não tem de crescer desgarradamente, é preciso reforçar um principio fundamental “terá de ser o público em geral a adaptar-se ao surf e não o contrário” não falo só da WSL mas dos responsáveis das marcas de surf e das outras entidades ligadas ao surf, é preciso ter esta consciência e responsabilidade , “a responsabilidade de ter olhos quando os outros perderam” e acabar com esta corrente cega da procura pelo ovos lucrativos em vez de proteger os surfistas que são a razão de tudo isto.



Por Bernardo "Giló"Seabra

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