A influência das escolas de surf na gestão das praias na Austrália e em Portugal

Pelo vice-presidente da AESDP, uma comparação entre a estrutura da Austrália e a portuguesa...

 

O Circuito Mundial a decorrer e quase a ser iniciada a terceira de quatro etapas da Perna Australiana desperta em muitos de nós a curiosidade em saber um pouco mais sobre como funciona a gestão da segurança das praias na Austrália, por quem é feita a educação aquática da população e como é que podemos comparar esta estrutura com a do nosso país. Para tal, ninguém melhor para nos explicar do que alguém que já esteve bastante tempo em contacto com a realidade Australiana, que trabalhou nas praias deste local icónico e tirou aqui um Curso de Treinador de Surf: João Diogo.

Estivemos à conversa com o proprietário do Surfing Life Club e ex-presidente e atual vice-presidente da Associação de Escolas de Surf de Portugal (AESDP). João Diogo partilha connosco alguma da sua experiência e equipara também à realidade Portuguesa. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

"O que melhor diferencia a gestão de praias na Austrália da gestão e Portugal

 

é a quantidade de leis..."

 

 

 

 

 

Surftotal: A educação aquática em Portugal e na Austrália é transmitida através de diferentes estruturas. Qual a principal diferença?

João Diogo: Na Austrália, a estrutura nacional de educação aquática foi e é feita, desde o século passado, através de Clubes de Surf e Life Save. A base e a raiz da educação aquática foram transmitidas através dos Life Saving Clubs. Em Portugal, não existiam estes Life Saving Clubs, como na Austrália, onde está tudo constituído em clubes que trabalham em prol da segurança aquática e introduzem o surf.  A Austrália tem uma estrutura organizacional de formação aquática muitíssimo bem desenvolvida e com muita experiência, pois são clubes que existem há 100 anos.

Em Portugal, demos os primeiros passos na formação aquática há 25 anos. Evoluímos bastante e orgulho-me muito. 

 

 

 

"As escolas de surf, quando começaram a ser criadas em 1993/1994

 

deviam estar a ser apoiadas pela Federação Portuguesa de Surf

 

mas não foi isto que aconteceu..."

 

 

Por André Gomes 

 

 

Surftotal: Então, a quem compete esta educação aquática em Portugal?

João Diogo: As escolas de surf, quando começaram a ser criadas em 1993/1994 deviam estar a ser apoiadas pela Federação Portuguesa de Surf juntamente com uma estratégia de crescimento, mas não foi isto que aconteceu. Foram antes criadas, na sua maioria, por empresários em nome individual e muito poucos clubes e foram estes que levaram as raízes do surf em Portugal para a população. As escolas de surf em Portugal desempenharam um papel na educação aquática e na experiência de uma nova atividade através de empresários e não de clubes e da federação, aos quais competia, basicamente, gerirem a parte da competição, direcionada apenas para quem era surfista de competição.

O papel da educação aquática em Portugal foi dado pelas escolas de surf, por empresários em nome individual, por quotas ou unipessoais. Os treinadores começaram a fazer as suas atividades (porque os clubes não davam respostas às necessidades) e fizeram o papel todo de educação para a população. Deixo aqui um parêntesis, A AESDP(Associação das Escolas de Surf de Portugal) foi criada também com este objetivo de dar resposta à necessidade de criação de bases e raízes do surf.

 

 

 

 

 

"Em Portugal, o nadador salvador não faz a formação

 

para a população no que respeita ao surf..."

 

 

Por André Gomes  

 

Surftotal: Como é então feita a gestão da segurança nas praias em Portugal?

João Diogo: A segurança nas praias em Portugal é feita pelo Instituto de Socorros a Náufragos, que certifica os nadadores salvadores que fizeram formação, para que sejam salvaguardadas as praias, lagos, rios e piscinas de Portugal. É feita a formação antes do Verão, para que se consiga dar resposta à época balnear. Em Portugal, o nadador salvador não faz a formação para a população no que respeita ao surf. Quem tem esta responsabilidade é a escola de surf, sendo que o grande papel da educação é feito por treinadores ou por alguns clubes (mas muito poucos). As bases do surf em Portugal foram as escolas que transmitiram. As escolas de surf desempenharam um papel importantíssimo na educação aquática e a AESDP estabeleceu parcerias muito importantes a nível nacional, como com a Autoridade Marítima através do Instituto de Socorros a Náufragos, sendo esta ligação entre as bases do surf e a segurança aquática fundamental para uma população enriquecida e com literacia do mar. As escolas transmitem conhecimentos muito importantes como a formação de uma onda e das correntes. 

 

Surftotal: Como faz a comparação da gestão da segurança das praias na Austrália e Portugal?

João Diogo: A gestão das praias na Austrália é feita pelos Life Guards (que são diferentes dos Life Savers), que correspondem à Polícia Marítima. Na Austrália, os Life Guards têm estações nas praias e podem passar multas se não forem cumpridas as suas ordens. Principalmente nas grandes praias de cidade, têm grandes torres de controlo que fazem a gestão das praias e, coordenadamente, têm os Life Savers que são quem faz também toda esta formação da sociedade australiana e têm uma estrutura de desporto ligada às formações de salvamento aquático (nadar, correr, utilizar as pranchas e os botes de salvamento).

Os Life Guards são quem faz a gestão das praias: chegam a uma praia e a primeira coisa que fazem é dizer o estado da maré, temperatura do mar e escrever um mapa de praia com os canais de correntes, os sítios onde os banhistas podem entrar na água e destacar a zona de surf/educação aquática.

 

 

Em Portugal não existe esta estrutura. Quem ajuda na gestão das praias, relativamente ao ensino do surf, são as escolas de surf que, juntamente com as capitanias, conseguiram arranjar, (através da Associação de Escolas de Surf de Portugal), uma estrutura onde há corredores destinados à formação do surf. Juntamente com os nadadores salvadores a AESDP vai tentando estabelecer boas relações para que não tenhamos corredores na zona de banhos. A regulamentação para as escolas de surf na Austrália é muito mais rígida: por exemplo, em sítios onde existiam demasiadas escolas, fecharam muitas. Não são necessárias tantas escolas na Austrália como em Portugal porque toda a parte de formação dada pelos Cubes já alberga grande parte da população. Em Sydney, em Bondi Beach, todos os domingos há 500 crianças na praia a fazer actividades de salvamento.

O que melhor diferencia a gestão de praias na Austrália da gestão é Portugal é a quantidade de leis. Na Austrália há leis próprias para a gestão das praias e, portanto, foi possível desenvolver rapidamente esta gestão. Em Portugal a regulamentação é bastante escassa.

 

 

 

 

 

"Isto tem sido feito pelas escolas de surf

 

Um laço com o Ministério de educação de extrema importância importante..."

 

 

 

 

 

Surftotal: Entre vários outros conhecimentos, o que aprendeu na Austrália e tentou pôr em prática em Portugal?

João Diogo: Um dos programas que trouxe da Austrália foi o Surf Educa (Surf Educate Austrália) que consiste, precisamente, em dar o primeiro impulso para as escolas e colégios, passando também a perspetiva da segurança aquática e do surf. Vamos às escolas que têm uma disciplina ocasional e a turma pode fazer uma atividade física fora da escola. Com isto, estamos a fazer muita introdução ao surf. Isto tem sido feito pelas escolas de surf- este laço com o Ministério de educação foi muito importante.

 

João Diogo, vice-presidente da AESDP

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