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quarta-feira, 06 maio 2020 11:53

"Passou-se a ver o Surfing como uma actividade mais económica que nunca"

Ericeira Surf Clube reage e comenta a actual situação dos Clubes de Surf em Portugal...

 

Na sequência da notícia da Federação Francesa de Surf e das possibilidades de abertura das praias naquele País, certamente coordenada com as diversas autoridades Francesas, FFS e clubes. E por que em Portugal a Federação Portuguesa de Surf também ter feito uma proposta para utilização das ondas, fomos saber como estão os Clubes de Surf em Portugal. Estes desempenham um papel importante por estarem no terreno, conhecerem bem a área, atletas, free surfers, hábitos, costumes e necessidades. Na verdade do ponto de vista externo com o boom das escolas de surf, os clubes “apagaram-se” um pouco.

Quais serão os motivos?  Pouca competição a nível colectivo?
Pouca representação local?
Falta Dirigentes?
Fomos tentar saber junto de alguns dos principais Clubes de Surf a nível nacional.

 

 

Responde o Ericeira Surf Clube  representado por Miguel Barata de Almeida:

 

 

 

 

 

"Quanto a mim a principal razão é o facto na natureza humana

cada pessoa quer ter o seu negócio pessoal ..."

 

 

 

*Miguel Barata de Almeida 

 

 

Surftotal: Nos últimos anos tem-se verificado menor actividade e visibilidade dos Clubes, concordas? Que razões existirão, pouca competição a nível colectivo?


Miguel Barata de Almeida: Quanto a mim a principal razão é o facto na natureza humana cada pessoa quer ter o seu negócio pessoal, de gerir a sua vida como quer e entende. O Surf é uma evidência. Quem não gosta de poder viver na e da praia e do mar? Aproveitaram também o Surf ter-se tornado moda para abrirem escolas de surf em catadupa, de haver um facilitismo descontrolado na obtenção de licenciamentos e o filão do turista que nos procura para as suas primeiras experiências no surfing. A conjuntura permitiu isso até ao passado mês de Março. Há também o projecto de treinadores individuais que dispersam um eventual trabalho de raíz dos Clubes com vários atletas. No nosso caso, temos apoiado diversos projectos pessoais e não tem corrido mal. Pelo contrário. Ajuda-mo-nos uns aos outros das mais diversas formas. A conjugação destes e outros factores tiraram algum protagonismo, mas não temos de temer. Continuamos a fazer o nosso trabalho em prol de todos e esse espaço é, e será sempre dos Clubes.

 

 

"Quem não gosta de poder viver na e da praia e do mar?"

 

 


Não creio que foi não haver tanta competição colectiva que levou a esta situação. O Surfing por si só é uma modalidade individualista, há ofertas maior visibilidade como os circuitos da Liga da ANS ou da WSL. Se em tempos houve o Campeonato Nacional de Clubes, Regionais de Clubes e Taça de Portugal, com a actual situação só tem sido possível a Taça de Portugal de Surfing (somos os actuais Bi-Campeões Absolutos) o que também não me parece mal. Está cada vez mais atractiva. Voltámos a ver muitas das referências do Surfing Nacional a representarem orgulhosamente os seus Clubes e a insistirem no prestigio que isso lhes trás. Organizámos durante os dois últimos anos e entendemos que sendo o Evento dos Clubes deveríamos dar a maior dignidade possível. Penso que conseguimos. Os números foram arrebatadores em termos de adesão colectiva e individual.


Ainda existem vários Clubes a desenvolverem um excelente trabalho nas suas localidades, desde a Formação à Competição, passando pelas actividades lúdicas, de sustentabilidade ambiental ou pela Educação Escolar, sendo de grande referência nas suas comunidades. É um facto que existem ciclos nos clubes, faltando por vezes elementos, mas se contabilizarmos os 25 Clubes presentes na Taça de Portugal em 2019, penso que ainda temos uma boa estrutura.

 

 

Ericeira Surf Clube Club foi campeão na Taça de Portugal de Surfing em 2019 

 

 

 

"Ainda existem vários Clubes a desenvolverem

um excelente trabalho nas suas localidades"

 

 

Surftotal: Preocupa-te esta situação? porquê?


Miguel Barata de Almeida: É naturalmente uma questão preocupante. As cerca de 320 Escolas (das quais 45 encontram-se na Ericeira) e 90 Clubes inscritos na FPS são reveladores. Passou-se a ver o Surfing como uma actividade mais económica que nunca, onde proliferam os mais diversos projectos empresariais de carácter privado. Poderia, e deveria, haver um maior controle das instituições que licenciam e permitem estes números. Existe um risco bastante real de haver uma oferta demasiada e banalizada, que poderá destruir e banalizar não só a actividade em si, como causar diversas contingências na utilização das praias. No Ericeira Surf Clube temos tentado manter o Clube como a referência para todos. Penso que temos conseguido. Não estamos parados. Muitos revêm o Clube como uma referência institucional. Promovemos os nossos Circuitos de Surf e Bodyboard, Etapas de diversos Circuitos Nacionais, Eventos para marcas e federações, ações de formação, projectos direccionados para população sénior, agrupamentos de escolas e surf adaptado. Contactos permanentes com as Escolas de Surf através de uma relação muito próxima com a formação dos seus Treinadores, inscrições na FPS ou distribuição pelas praias. Somos membros dos Conselhos Municipais do Turismo e Reserva Mundial de Surf da Ericeira, representantes da Ericeira nas World Surf Cities Network. Ainda esta semana apresentámos uma candidatura a um Projecto Erasmus + Sports para ser desenvolvido em 2021, estando outros na calha.
Se outros Clubes também procurassem ser mais pro-activos nas suas regiões também eles poderiam concorrer a vários mecanismos para se financiarem, criarem emprego, desenvolverem projectos sustentáveis interessantes a nível comunitário e devolverem à população local o seu Clube de Surfing. Estou crente que este poderá ser um caminho.

 

 

 

"Existe um risco bastante real de haver uma oferta demasiada e banalizada,

que poderá destruir e banalizar não só a actividade em si,

como causar diversas contingências na utilização das praias..."

 

 

A equipa campeã da Taça 2018!

 Ericeira Surf Clube Club - Campeão Nacional de Clubes 

 

 

Surftotal: Como tem sido a vida dos Clubes nos últimos tempos?


Miguel Barata de Almeida: Em relação ao nosso Clube, naturalmente que esta Pandemia veio adiar uma série de projectos e eventos calendarizados e aprovados, mas temos de conviver com a situação e aguardar com serenidade que as autoridades nos venham informando sobre as possibilidades de retomarmos as actividades. Estas últimas semanas permitiram-nos focar-mo-nos em candidaturas a diversos projectos, repensar algumas áreas e, aproveitámos também os nossos Atletas estarem em recolhimento, para os desafiarmos a fazerem um pequeno vídeo a falarem-nos sobre o que fazem durante este período. Tem sido uma adesão bastante interessante e estamos a colocar um vídeo diário nas nossas páginas do Instagram e Facebook.

 

 

 

"Se outros Clubes também procurassem ser mais pro-activos nas suas regiões

também eles poderiam concorrer a vários mecanismos para se financiarem...."

 

 

 

Surftotal:Tem havido ou está previsto algum tipo de contacto e/ou apoio de entidades desportivas a nível local e nacionais?


Miguel Barata de Almeida: A este nível temos estado em permanente contacto com os nossos Atletas, Escolas de Surf associadas, FPS, Câmara Municipal ou Capitânia, recolhendo e partilhando o máximo de informação possível. Não podemos fazer muito mais, assim como essas entidades estão também dependentes da evolução da Pandemia. Neste momento, estamos todos ansiosamente a aguardar pelas medidas de desconfinamento após o Estado de Emergência. No entanto, temos a perfeita consciência que continuarão a haver restrições nas dinâmicas de acesso às praias, ao mar, às instalações balneares ou nos parques de estacionamento. Avizinham-se dias de alguma euforia após várias semanas fechados em casa. Mas estou certo que a maioria tenha uma maior consciência de partilha, da manutenção de algum distanciamento social para que não existam grandes aglomerações potenciadoras de um eventual novo surto ou de novo encerramento das praias.

 

 

 

 

 

"Os Clubes estão presentes nas comunidades

para acrescentarem valor a uma sociedade..."

 

 

 

Surftotal: Sabendo que todas as praias têm características diferentes, consideras que clubes deveriam estar de alguma forma envolvido na abertura das praias?


Miguel Barata de Almeida: Os Clubes estão presentes nas comunidades para acrescentarem valor a uma sociedade cada vez mais afastada do movimento associativo, procurando envolver-se nas mais diversas actividades. Estando diariamente presentes nas praias ao longo do ano, não só através dos seus dirigentes como dos seus treinadores e atletas, é natural que as entidades competentes nos oiçam, não só para se aconselharem, como para nos transmitirem as novas dinâmicas para que também nós procuremos mobilizar a comunidade num sentido único. Só assim fará sentido.

 

Surftotal:Algo mais a dizer?


Miguel Barata de Almeida: Para finalizar, em nome da Direção do nosso Clube gostaria de agradecer publicamente a todas as pessoas e entidades que se têm posicionado na linha da frente no combate a esta pandemia, permitindo que pudéssemos ser um exemplo a nível mundial, e deixar também  uma palavra de enorme apreço aos nossos jovens atletas que na sua grande maioria confinados às suas habitações, se têm comportado à altura de tão exigente privação da sua liberdade e da prática daquilo que mais gostam de fazer – Surfing. Por eles continuamos dedicar-mo-nos,  como sempre.

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