Uma imagem recente de Pedro Coelho em J-Bay. Uma imagem recente de Pedro Coelho em J-Bay. Foto: Maarten Van De Velde

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quarta, 20 junho 2018 15:36

Pedro Coelho: “Procuro ganhar mais visão do circuito mundial”

A atualização com um dos surfistas nacionais de referência… 

 

Pedro Coelho, surfista cascalense de 23 anos, é um dos habitués da Liga MEO Surf, mas também um dos gladiadores lusos que compete regularmente na sempre dura e exigente WSL Qualifying Series. Aproveitando a sua presença na África do Sul, onde irá participar em três eventos do mundial de qualificação, aproveitámos para traçar o perfil às ondas da região e, claro, fazer o balanço de meio de época.

 

De todos os anos que tens vindo a competir no WQS, este parece-nos ser o que estás mais focado em conseguir resultados. Fala-nos um bocadinho do teu “mindset” e objetivos para o circuito mundial de qualificação?

Na minha opinião, para um surfista se dar bem nos WQS lá fora precisa de ganhar experiência competitiva, perder bastante e, acima de tudo, ter confiança nos heats. Acho que só este ano, depois de ter estado dois anos seguidos a perder consecutivamente, consegui ganhar confiança ao nível da competição. Sinto que mudei um pouco o meu mindset e comecei a acreditar que é possível, muito com a ajuda no meu treinador Rodrigo Sousa que acredita no meu surf mais que ninguém. O primeiro objetivo que impusemos para este ano está cumprido, que era atingir o top 200 para poder competir nas provas de 6000 pontos. Encontro-me neste momento no número 180 do ranking e o objetivo para o final do ano é atingir o top 100.

 

Ainda no QS, o ano passado optaste por competir na perna australiana e este ano nas provas sul-africanas. Fala-nos do porquê… o que levou a essa mudança ou nova estratégia?

A decisão de não estar presente na Austrália nunca é fácil, já que existem ondas incríveis e um ambiente altamente propício ao surf. Naturalmente que a gestão do budget que tenho obriga a fazer concessões e a decisão de não fazer o circuito na Austrália e ir à África do Sul prendeu-se com o tipo de ondas que ainda não conhecia e a necessidade de fazer mais ondas, conhecer mais spots, ganhar mais visão do circuito mundial. Estou muito satisfeito porque esta decisão revelou ser a mais acertada; tenho tido oportunidade de surfar ondas incríveis, com gente que tem o surf no sangue.

 

“(…) tenho tido oportunidade de surfar ondas incríveis,

com gente que tem o surf no sangue”

 

- A voar durante a 2.ª etapa da Liga MEO Surf no Porto. Foto: Pedro Mestre/ANSurfistas

 

Ainda tens mais uma prova em Port Elizabeth, mas para já um 13.º e 17.º são os resultados registados. Fala-nos de como correram esses eventos, se consideras que poderias ter ido um pouco mais longe, e de como é, no geral, a “surf scene” na África do Sul?

De um modo geral estou satisfeito com os resultados, mas fica sempre um amargo de boca quando, na análise que faço da minha prestação até agora, me permite concluir que poderia ter ido mais longe. Apesar disto, foram campeonatos que me ajudaram a escalar no ranking, considerando, portanto, um balanço positivo. 

 

Entre eventos passaste alguns dias em Jeffrey’s Bay. Confirmas que é uma das melhores ondas do Mundo? Ou é uma onda difícil em que é necessário um período de leitura e aprendizagem?

Ir à África do Sul sem passar em J-Bay é um pouco como ir a Roma e não ver o Papa. É uma onda fabulosa, de uma exigência técnica elevada, mas que, depois de a conhecermos um pouco melhor permite fazer manobras no limite e pôr na prancha todo o surf que temos, e mesmo aquele que não sabíamos que tínhamos. É uma experiência incrível que passa a fazer parte dos meus destinos de surf.

 

“Encontro-me no número 180 do ranking

e o objetivo para o final do ano é atingir o top 100"

 

- A usufruir de uma onda de classe mundial como é J-Bay. Foto: Maarten Van De Velde

 

A perna sul-africana está a ser feita com Neco Pyrrait e Arran Strong, surfistas da Ericeira. Fala-nos de um momento divertido que se tenha passado convosco?

Viajar com estes dois Jagozes, um deles meio inglês, tem sido uma experiência incrível. Quando combinámos esta viagem, definimos que teríamos que estar altamente focalizados para o surf. Não escondo que tem sido muito cansativo, com muitas horas de surf, muitos quilómetros percorridos, mas a boa disposição está presente em cada momento. É fantástico o apoio que damos uns aos outros, principalmente quando temos que lidar com o fracasso e com a irritação de poder ter feito melhor. Entre os inúmeros momentos divertidos posso destacar uma sessão em que estávamos a apanhar altas ondas sozinhos no pico, e não muito longe avistamos uma barbatana que parecia ser um tubarão... Após 1-2 minutos de pânico apercebemo-nos que era apenas uma pacífica foca a brincar com a barbatana de fora e rimo-nos da situação. 

 

Mudando para o plano entre portas e a Liga MEO Surf. A etapa da Figueira passaste em branco por te encontrares na África do Sul, mas na anterior, no Porto, apresentaste-te em grande forma alcançando as fases finais de man-on-man. É esse o objetivo para as duas etapas que restam?

A Liga MEO é a nossa prova, dos portugueses. Para mim, fazer a Liga MEO é um imperativo. Recordo-me do ano passado ter chegado ao aeroporto quando faltavam 20 minutos para o heat no Guincho, vestir o fato no carro, violar todas as regras de trânsito e entrar na água dois minutos depois de começar. Apesar de neste momento estar sem margem de erro, devido à ausência na Figueira e de não me ter corrido bem a Ericeira, espero, nas próximas etapas conseguir obter bons resultados. O meu objetivo para a Liga MEO é andar no lugares da frente e fazer alguns pódios. 

 

"A Liga MEO é a nossa prova, dos portugueses.

Para mim, fazer a Liga MEO é um imperativo”

 

 

Estás neste momento em 30.º lugar do ranking, mas tens apenas duas etapas a contabilizar.  Onde achas que é o teu lugar na Liga?

Como referi,  uma ausência e um resultado menos bom na Ericeira atiraram-me para uma posição no ranking onde não me sinto nada confortável. Porém, a Liga MEO faz parte dos meus objetivos e espero conseguir ter uma boa prestação nas restantes provas. Gerindo as minhas ambições, é meu objetivo terminar no top 10, pelo menos, apesar de estar sem margem para falhas. Vou surfar o melhor que sei e no final faremos as contas.

 

Em termos de performance, em que aspetos ou áreas tens tentado melhorar o teu nível surf nos últimos tempos?

Tenho trabalhado intensamente com o Rodrigo Sousa alguns aspetos técnicos e os resultados estão a aparecer. Sinto-me muito bem fisicamente e, acima de tudo, sei que o meu surf está a fluir. Tenho noção de que há muito ainda por fazer, mas estou talvez a atravessar o meu melhor momento de forma. Tudo isto é fruto da conjugação dos treinos de mar, de ginásio e de um mindset mais focalizado nos meus objetivos. Só assim poderei continuar a lutar por uma carreira no mundo do surf de competição. Tenho também um excelente entendimento com o meu shaper, Luís “Lacrau" Carvalho, que continua apostado em fazer-me as melhores pranchas e a perceber como pode dar-me as melhores ferramentas. 

 

“Para darmos o clique temos que acreditar que somos

tão bons como os outros e não baixar os braços”

 

- Super rasgada em Leça da Palmeira no Renault Porto Pro. Foto: Pedro Mestre/ANSurfistas

 

Uma última questão sobre o Surf nacional? O que nos falta, ou o que nos falta trabalhar, para termos mais surfistas entre os melhores do mundo?

Penso que estamos num momento explosivo do surf nacional. Basta vermos o nível da Liga MEO, logo desde os primeiros rounds. Vemos atletas mais experientes a mostrar uma linha de surf invejável, um grupo de jovens a emergir e a dar aos mais velhos verdadeiras dores de cabeça nos heats. Temos um grupo muito consistente de atletas a fazer o circuito mundial, alguns com um pé quase dentro do CT e outros a trepar pelo ranking do QS. Acho que para darmos o clique temos que acreditar que somos tão bons como os outros lá fora e não baixar os braços.

 

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