Rede de Pesca fiscalizada Rede de Pesca fiscalizada Jornal o Minho quarta-feira, 07 janeiro 2026 23:15

Redes de pesca na zona de rebentação: um risco real no Brasil… e também em Portugal

Desde o final da década de 1970, 49 surfistas perderam a vida...

Durante décadas, o litoral do Rio Grande do Sul, no Brasil, foi palco de uma das mais graves e silenciosas tragédias ligadas ao surf em todo o mundo. Desde o final da década de 1970, 49 surfistas perderam a vida após ficarem presos em redes e cabos de pesca colocados na zona de rebentação — um número sem paralelo noutras regiões do planeta.

Apesar de não existirem registos amplamente noticiados de mortes em 2025 ou 2026, o problema não desapareceu. Pelo contrário: permanece como um alerta sério sobre a convivência entre atividades humanas no mar.

E esse alerta não é exclusivo do Brasil.

Portugal: um risco latente que muitos preferem ignorar

Ao longo de toda a costa portuguesa, não é raro encontrar redes de pesca colocadas muito próximas — ou mesmo dentro — da zona de rebentação, em spots frequentados diariamente por surfistas, bodyboarders e banhistas.

Em muitos casos:

  • as redes estão submersas;

  • os cabos não têm qualquer identificação visível;

  • não existe sinalização clara a partir do mar;

  • e a colocação ocorre em locais onde a dinâmica costeira pode facilmente arrastar uma pessoa para essas zonas.

O facto de ainda não ter ocorrido um acidente mortal grave em Portugal associado a redes de pesca não significa ausência de perigo — significa, acima de tudo, sorte.

Tal como no sul do Brasil, basta uma combinação de fatores:

  • corrente forte,

  • queda inesperada,

  • fadiga,

  • ou perda momentânea de orientação para que uma situação aparentemente banal se transforme numa armadilha invisível.

 

Redes podem-se encontrar à venda em sites online

 

Casos práticos em Portugal:

Em Portugal, surfistas e praticantes de desportos de ondas cruzam-se frequentemente com estruturas de pesca colocadas diretamente na zona de rebentação, muitas vezes sem qualquer sinalização adequada.

Um exemplo particularmente preocupante é a utilização de:

  • Redes fixas montadas com estacas ou varões de ferro espetados na areia,

  • Estruturas rígidas e permanentes, invisíveis durante a rebentação,

  • Onde as ondas empurram o peixe diretamente para a rede, funcionando como uma verdadeira armadilha submersa.

Este tipo de instalação representa um risco elevado, sobretudo em situações de queda, deriva ou fadiga. Um surfista apanhado por uma corrente lateral ou de retorno pode ser empurrado diretamente contra ferros, cabos ou redes tensionadas, sem tempo ou visibilidade para reagir.

O facto de ainda não ter ocorrido um acidente mortal grave em Portugal associado a este tipo de redes não é sinal de segurança — é, acima de tudo, resultado de sorte.

 

Um perigo invisível

Ao contrário de outras ameaças no mar, estas estruturas:

  • não são facilmente visíveis a partir da água;

  • podem estar parcialmente submersas;

  • não têm marcação flutuante;

  • e são colocadas precisamente onde a energia das ondas é maior.

Basta um wipeout mais violento, uma prancha partida ou uma perda momentânea de orientação para que a situação se torne crítica.

 

A lição do Brasil

O caso do Rio Grande do Sul demonstra que o risco só é plenamente reconhecido depois da tragédia acontecer. Durante anos, surfistas alertaram para o perigo das redes colocadas na zona de arrebentação. As respostas foram tardias, e as mudanças legais só surgiram depois de dezenas de mortes.

Hoje, o estado é frequentemente citado como o único lugar do mundo onde redes de pesca causaram tantas mortes de surfistas, levando à criação de leis específicas, zonas de escape, maior sinalização e fiscalização reforçada.

 

Portugal não quer repetir essa história.(Convivência, não conflito):

Importa sublinhar que esta não é uma luta entre surfistas e pescadores. A pesca artesanal faz parte da identidade costeira portuguesa e deve ser protegida. Mas a segurança humana tem de ser prioridade absoluta.

A solução passa por:

  • delimitação clara de zonas de surf e pesca;

  • sinalização visível a partir do mar;

  • identificação obrigatória dos cabos e redes;

  • fiscalização eficaz;

  • e diálogo permanente entre comunidades locais, autoridades marítimas, pescadores e praticantes de desportos náuticos.

Um alerta antes que seja tarde

O surf cresce em Portugal, o turismo costeiro cresce, e cada vez mais pessoas entram no mar ao longo de todo o ano. Ignorar riscos conhecidos não os faz desaparecer.

O exemplo brasileiro mostra que esperar pelo primeiro acidente grave não é uma opção aceitável.

 

Falar do tema agora é um ato de responsabilidade. Amanhã pode ser tarde demais.

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