Terra vista do Espaço - (bem visível oPolo Norte) imagem gerada por IA quinta-feira, 29 outubro 2026 21:58 Humanidade pode ter interrompido o início da próxima Idade do Gelo — mas cientistas alertam que não há motivos para celebrar
Um novo estudo publicado na prestigiada revista científica Science....
.....revela que a atividade humana poderá ter interrompido um processo natural de arrefecimento do planeta que se prolongava há cerca de dois mil anos. A investigação sugere que a próxima glaciação já tinha começado a dar os primeiros sinais no Ártico canadiano, mas o aquecimento global provocado pelas emissões de gases com efeito de estufa inverteu essa tendência.
A investigação, publicada a 22 de outubro de 2026, foi liderada pelo cientista Nicolás E. Young e analisou a evolução da calote glaciar de Barnes, na ilha de Baffin, no Canadá, o último vestígio do gigantesco manto de gelo Laurentide, que chegou a cobrir grande parte da América do Norte durante a última Idade do Gelo.
Os resultados apontam para uma conclusão surpreendente: a Terra poderá ter iniciado naturalmente um novo período de expansão glaciar há aproximadamente 2.000 anos, mas a influência humana sobre o clima terá interrompido esse processo a partir de meados do século XX.
O gelo estava a voltar a crescer há dois mil anos
Ao longo dos últimos 11.700 anos, período conhecido como Holoceno, o planeta atravessou uma fase interglaciar, caracterizada por temperaturas relativamente amenas e pelo recuo dos grandes mantos de gelo.
No entanto, os investigadores descobriram que a calote glaciar de Barnes, depois de atingir dimensões mínimas há cerca de 3.600 anos, começou novamente a expandir-se há aproximadamente dois milénios.
Este crescimento acompanhou uma tendência natural de arrefecimento das temperaturas de verão nas altas latitudes do hemisfério norte, associada às alterações graduais da órbita terrestre e da quantidade de radiação solar recebida.
A expansão prolongou-se durante séculos, atingindo a sua maior extensão recente por volta de 1960.
Foi então que a tendência se inverteu.

O aquecimento global travou um processo natural
Segundo os cientistas, o aumento das temperaturas de verão provocado pela acumulação de gases com efeito de estufa na atmosfera levou a calote glaciar a perder mais gelo do que aquele que conseguia recuperar.
Desde a década de 1960, a margem da calote de Barnes recuou entre aproximadamente 200 e 800 metros em diferentes setores analisados.
Para reconstruir esta evolução, a equipa recorreu à datação de rochas expostas pelo recuo do gelo e de vegetação antiga que tinha permanecido preservada sob a superfície glaciar durante séculos.
Os resultados permitiram identificar um processo de expansão que se prolongou durante cerca de dois mil anos e que foi interrompido pelo aquecimento contemporâneo.

Evitar uma Idade do Gelo não significa salvar o planeta
À primeira vista, impedir uma nova glaciação poderia parecer uma consequência positiva da atividade humana. Contudo, a investigação não apresenta esta descoberta como uma boa notícia.
O facto de as emissões humanas conseguirem contrariar tendências climáticas naturais que se desenvolvem ao longo de milhares de anos demonstra a dimensão da influência que a humanidade passou a exercer sobre o sistema climático.
O aquecimento global está associado à perda acelerada de gelo, à subida do nível médio do mar e a alterações nos ecossistemas terrestres e marinhos.
Além disso, a conclusão do estudo não significa que uma Idade do Gelo completa estivesse prestes a acontecer. Os investigadores referem que modelos anteriores apontavam para o desenvolvimento de grandes mantos glaciares apenas daqui a milhares ou dezenas de milhares de anos.
A novidade está na identificação de uma fase inicial de crescimento do gelo que, segundo os autores, já representava o começo desse processo de glaciação.
Uma descoberta que altera a forma como olhamos para o clima
Os ciclos glaciares e interglaciares fazem parte da história natural da Terra e são influenciados por alterações na órbita do planeta, na radiação solar e na composição da atmosfera.
O novo estudo demonstra que a influência humana poderá ser suficientemente forte para interromper uma dessas tendências naturais.
Com as concentrações de dióxido de carbono a continuarem a aumentar, os investigadores consideram extremamente improvável um regresso às condições glaciares enquanto persistir o atual nível de aquecimento.
A descoberta deixa uma mensagem clara: a humanidade adquiriu a capacidade de alterar processos climáticos que normalmente decorrem ao longo de milhares de anos. E essa capacidade está longe de representar uma vitória sobre a natureza.
Fonte científica: Young, N. E. et al. (2026). Late Holocene reexpansion of the Laurentide Ice Sheet. Science, vol. 394, pp. 455–459.




