Porque é que não conseguimos deixar de ver surf? A ciência explica o que o Mundial da WSL desperta em nós
Não é apenas pelas ondas perfeitas, pelos tubos impossíveis ou pelas notas de 10 pontos.
O que nos leva a passar horas a acompanhar uma competição de surf, à espera de uma onda que pode durar apenas alguns segundos? Porque sentimos as vitórias dos nossos surfistas quase como se fossem nossas? E porque acabamos tantas vezes uma transmissão com uma vontade irresistível de entrar no mar? A psicologia do desporto e vários estudos sobre o comportamento humano ajudam a explicar o fascínio que o Championship Tour exerce sobre nós.

Italo Ferreira em Supertubos - WSL
O MEO Rip Curl Pro Portugal, em Supertubos, é um exemplo perfeito da capacidade que o surf tem para despertar emoções.
Milhares de pessoas acompanham as baterias, vibram com os tubos, sofrem com as eliminações e celebram as vitórias. Mas há algo mais profundo nesta relação entre os atletas e o público.
Não estamos apenas a observar um espetáculo desportivo. Estamos a identificar-nos com histórias, a experimentar emoções e, muitas vezes, a encontrar inspiração para a nossa própria vida.
Porque sentimos as vitórias dos surfistas como nossas?
Em 1976, o psicólogo norte-americano Robert Cialdini e os seus colegas estudaram um fenómeno conhecido como Basking in Reflected Glory (BIRG), que descreve a tendência humana para nos associarmos ao sucesso de pessoas ou grupos com os quais nos identificamos.
Os investigadores observaram, por exemplo, que os adeptos utilizavam mais frequentemente a expressão «nós ganhámos» depois das vitórias das suas equipas.

Gui Ribeiro saudado pelos amigos e familiares - WSL / Manuel Geada
É precisamente isso que acontece quando Guilherme Ribeiro vence uma bateria em Supertubos ou Teresa Bonvalot elimina Gabriela Bryan, líder do ranking mundial.Mesmo sem conhecermos pessoalmente os atletas, sentimos uma ligação emocional às suas conquistas.
O sucesso deixa de ser apenas individual e transforma-se numa experiência partilhada.
A admiração pelos melhores pode tornar-nos melhores surfistas
Há uma razão para sentirmos vontade de ir surfar depois de assistir a uma bateria extraordinária.

Griffin Collapinto - WSL / Manuel Geada
Num estudo publicado em 2009, os investigadores Sara Algoe e Jonathan Haidt, juntamente com outros colegas, analisaram a forma como reagimos perante demonstrações excecionais de talento e capacidade.
Os resultados mostraram que a admiração pode despertar motivação para melhorar e desenvolver as nossas próprias competências.
Quando vemos Gabriel Medina sair de um tubo aparentemente impossível ou Ítalo Ferreira executar uma manobra de enorme dificuldade, não sentimos apenas entusiasmo.Também podemos experimentar uma vontade de evoluir.

Medina a voar em Supertubos - WSL / Damien Poullenot
Essa inspiração manifesta-se de formas diferentes: experimentar uma nova manobra, melhorar a leitura das ondas, ganhar confiança ou simplesmente voltar ao mar com outra motivação.
O espetáculo transforma-se assim numa fonte de aprendizagem e estímulo pessoal.
A imprevisibilidade é uma das grandes forças do surf competitivo
Ao contrário de muitos outros desportos, o surf decorre num cenário que está permanentemente a mudar. Nenhuma onda é igual à anterior e nenhum resultado está garantido.
A investigadora Silvia Knobloch-Westerwick e os seus colegas estudaram, em 2009, a relação entre a identificação dos espectadores com os participantes e a intensidade do suspense numa competição desportiva.
A investigação mostrou como as expectativas sobre o resultado e a ligação emocional aos competidores influenciam a experiência de quem assiste.

Erin Brooks num close out em Supertubos - WSL / Damien Poullenot
No surf, este fenómeno ganha uma dimensão especial.
Uma bateria pode mudar completamente nos últimos segundos. Um campeão mundial pode ser eliminado por um jovem convidado. Uma única onda pode decidir o resultado de uma competição.
Em Peniche, Yolanda Hopkins conseguiu uma excelente onda de 9,00 pontos frente a Molly Picklum, mas acabou eliminada.
É essa incerteza que nos mantém atentos. Sabemos que, enquanto houver tempo no relógio, tudo pode acontecer.
O que aprendemos com os melhores do mundo?
Assistir ao Championship Tour também pode influenciar a forma como surfamos.
A escolha das ondas, o posicionamento no pico, a leitura das secções e a gestão da velocidade são aspetos que os surfistas mais atentos procuram observar.

Medina é um exemplo de auto dominio - WSL/Damien Poullenot
Mas talvez uma das aprendizagens mais importantes esteja na forma como os atletas lidam com a pressão.
Mesmo os melhores do mundo falham, fazem escolhas erradas e enfrentam eliminações inesperadas.
A capacidade de recuperar de um erro, manter a concentração e esperar pela próxima oportunidade é uma qualidade essencial no surf de competição.
E é também uma lição que podemos transportar para muitas situações da vida.
Porque é que assistir ao vivo é tão diferente?
Existe ainda uma dimensão coletiva que ajuda a explicar o fascínio pelos grandes eventos desportivos.
Em Supertubos, o som das ondas, a reação dos espectadores e a proximidade dos atletas criam uma experiência emocional difícil de reproduzir através de um ecrã.
Quando milhares de pessoas celebram o mesmo tubo, partilham um momento de entusiasmo e pertença.

Teresa Bonvalot emocionou todos quantos assistiam ao seu heat- WSL / Poullenot
É algo que acontece também no futebol, no ténis ou na Fórmula 1, mas que no surf apresenta uma particularidade: a natureza participa diretamente no espetáculo.
O oceano não segue estratégias nem respeita favoritos.
Por mais preparado que esteja um atleta, nunca poderá controlar completamente as ondas que vai encontrar.
Muito mais do que descobrir quem vai ganhar
Talvez o maior valor de acompanhar o Mundial de Surf esteja precisamente naquilo que levamos connosco depois de terminar a competição.
Uma grande bateria pode despertar a vontade de voltar ao mar. Uma vitória inesperada pode lembrar-nos que a persistência compensa. Uma derrota pode ensinar-nos a aceitar aquilo que não conseguimos controlar.
Para os mais novos, assistir a surfistas portugueses a competir entre os melhores do planeta pode transformar uma ambição distante num objetivo concreto.
Para quem já surfa há décadas, pode ser simplesmente uma forma de recuperar a emoção das primeiras ondas.

Yolanda "YoYo" transformou-se num fenómeno à escala global- WSL/Manuel Geada
A ciência ajuda a compreender parte destes mecanismos: identificamo-nos com os atletas, admiramos desempenhos extraordinários e somos atraídos pela incerteza dos resultados.
Mas existe também algo que dificilmente cabe numa explicação científica.
A relação pessoal que cada surfista mantém com o oceano.
No fundo, talvez a pergunta errada seja “porque é que não conseguimos deixar de ver surf”. A pergunta certa é outra: o que é que o surf nos devolve quando o vemos? E a resposta é diferente para cada pessoa. Para alguns, é a memória de uma onda. Para outros, é a promessa de uma que ainda não chegou. O Mundial não é apenas uma competição — é um espelho de nós próprios.
Referências científicas
Cialdini, R. B. e colaboradores (1976). Basking in Reflected Glory: Three (Football) Field Studies. Journal of Personality and Social Psychology.
Algoe, S. B. e Haidt, J. (2009). Witnessing Excellence in Action: The “Other-Praising” Emotions of Elevation, Gratitude, and Admiration. The Journal of Positive Psychology.
Knobloch-Westerwick, S. e colaboradores (2009). Investigação sobre identificação com participantes, expectativas e suspense na experiência de espectadores de competições desportivas, publicada no Journal of Communication.





