O que está a acontecer à Praia de São Torpes? Ameaça ao areal e ao surf gera contestação
A praia encolheu drasticamente e hoje termina praticamente junto à conhecida “pedra preta”....
A Praia de São Torpes, uma das mais emblemáticas do litoral alentejano, está a enfrentar uma redução significativa do seu areal nas últimas duas décadas, levantando preocupações crescentes entre surfistas, população local e especialistas. A comparação entre imagens de 2003 e 2023 mostra uma realidade evidente: a praia encolheu drasticamente e hoje termina praticamente junto à conhecida “pedra preta”.
Esta tendência não é recente e, segundo vários alertas, poderá agravar-se nos próximos anos caso não sejam tomadas medidas concretas.
Comparação da extensão do areal em 2004 e em 2023:
Expansão do Porto de Sines está na origem do problema
A principal causa apontada para o desaparecimento progressivo da areia está relacionada com a expansão do Terminal XXI do Porto de Sines, cuja construção e sucessivas ampliações (2004, 2014 e fase em curso até 2028) alteraram o equilíbrio natural da costa.
Em condições normais, o transporte de sedimentos ao longo da costa portuguesa faz-se de Norte para Sul. No entanto, a construção de molhes e estruturas portuárias atua como uma barreira, fazendo com que a areia se acumule a Norte e escasseie a Sul, precisamente onde se encontra São Torpes.
Este fenómeno já é conhecido e repete-se noutras zonas do país, como na Figueira da Foz ou em Leixões, sendo considerado uma consequência previsível destas intervenções.
Novo terminal pode agravar ainda mais a situação
Para além da expansão em curso, está agora em cima da mesa a construção de um novo terminal — o Terminal Vasco da Gama — a sul do Terminal XXI, na zona da Praia de Vale de Marim, conhecida como “Apocalipse”.
Este projeto encontra-se atualmente em consulta pública até 28 de abril, numa fase inicial que prevê a realização de um aterro. Apesar de já ter existido uma avaliação ambiental em 2018, este novo processo levanta críticas por parte de vários intervenientes, que consideram que:
- As alterações ao projeto justificariam uma nova avaliação ambiental completa
- As condicionantes ambientais estão a ser adiadas para fases posteriores
- O impacto social, cultural e desportivo da intervenção continua subavaliado
Impacto direto no surf e no acesso à costa
Para além da perda de areia, há também preocupações com a qualidade das ondas, numa zona reconhecida como um dos melhores spots do Alentejo.
Segundo vários alertas da comunidade, a continuação destas obras poderá afetar diretamente spots como o Apocalipse, Pico Loco e zonas adjacentes, reduzindo a consistência e qualidade das ondas — algo que já terá começado a acontecer após a construção do Terminal XXI.
Existe ainda o receio de restrições ao acesso público a uma praia que, durante décadas, foi um espaço livre e acessível a todos.
Comunidade apela à participação pública
Face a este cenário, têm surgido vários apelos à mobilização da comunidade para participar na consulta pública em curso.
A ideia central é clara: sem pressão pública, dificilmente serão impostas medidas de mitigação ou compensação por parte das entidades responsáveis.
Entre as propostas defendidas estão:
- Planos eficazes de reposição do areal
- Cumprimento rigoroso das condicionantes ambientais
- Maior transparência e informação à população
- Medidas compensatórias para a comunidade local
Um futuro em risco para São Torpes
A Praia de São Torpes não é apenas um spot de surf — é um espaço com forte valor social, cultural e turístico para toda a região.
O que está agora em causa é o seu futuro.
A evolução dos próximos meses, e o nível de envolvimento da população neste processo, poderão ser determinantes para perceber se ainda será possível travar — ou pelo menos mitigar — o impacto de uma transformação que muitos consideram irreversível.
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