O surfista indonésio Dede Suryana a verticalizar de backside. Foto: WSL/Tim Hainsegunda-feira, 16 abril 2018 15:14 sexta-feira, 10 julho 2026 09:01 Nias Pro e Krui Pro ficam fora do calendário QS em 2026
Cortes no financiamento público deixam duas das principais etapas indonésias fora do circuito asiático da World Surf League
Duas das provas indonésias mais importantes do circuito asiático da World Surf League não vão realizar-se em 2026.
O Nias Pro e o Krui Pro, eventos que nos últimos anos se afirmaram como paragens regulares do Qualifying Series na Ásia, ficaram fora do calendário devido a cortes de financiamento em vários níveis do governo indonésio.
Segundo informação avançada pelo Swellnet, um responsável ligado à organização dos dois eventos confirmou que a decisão resulta de uma combinação de fatores políticos e económicos, com reduções de apoio por parte de entidades locais, provinciais e nacionais.
“O governo — local, nacional e central — cortou financiamento para estes eventos e até para a seleção nacional de surf”, afirmou a fonte citada.
Dois eventos importantes para a Indonésia
O impacto é significativo para o surf indonésio.
Embora fossem provas muito procuradas por surfistas internacionais em viagem pela Ásia, o Nias Pro e o Krui Pro tinham também um papel fundamental no desenvolvimento dos surfistas locais, oferecendo experiência competitiva em ondas de grande qualidade e pontos importantes no ranking regional.
O Krui Pro, realizado em Ujung Bocur, começou em 2017 como QS 1000 e foi ganhando estatuto ao longo dos anos, chegando a QS 6000 na última edição.
Já o Nias Pro tornou-se uma das provas mais mediáticas da região, beneficiando da qualidade da direita de Lagundri Bay, uma das ondas mais famosas da Indonésia. Em 2024, a prova teve condições excelentes, com o australiano Xavier Huxtable a assinar uma bateria perfeita, com duas ondas de 10 pontos.
Mudança política afetou o apoio ao surf
Historicamente, estes eventos eram financiados pelas regências e províncias onde se realizavam, com os líderes locais a verem o surf como uma ferramenta de promoção turística e desenvolvimento económico. Essa relação parece ter mudado.
A fonte citada pelo Swellnet explicou que os novos regentes e governadores eleitos nas regiões em causa não parecem atribuir ao surf e ao turismo a mesma prioridade dada pelos seus antecessores.
“No passado foram grandes apoiantes e viram as economias locais crescer através do financiamento destas competições, mas acredito que, em ambas as áreas, os novos regentes e governadores não colocam o surf e o turismo como prioridade neste momento”, afirmou.
Na Indonésia, as limitações de mandato e a rotação política local podem alterar rapidamente as prioridades de investimento público, sobretudo em áreas consideradas menos essenciais.
Pressão económica também pesou
A situação foi agravada pelo contexto económico mais amplo no país.
Com a nova administração de Prabowo e a rupia indonésia sob pressão face ao dólar norte-americano, o espaço para despesas consideradas discricionárias diminuiu em vários níveis do governo.
O resultado foi uma quebra de apoio que os organizadores não conseguiram compensar a tempo.
De acordo com a mesma fonte, no ano passado as provas ainda conseguiram realizar-se apesar das dificuldades. Em 2026, isso já não foi possível.
Filipinas e Taiwan ganham peso no surf asiático
A ausência de Nias e Krui acontece num momento em que o centro competitivo do surf asiático parece deslocar-se para leste.
As Filipinas e Taiwan têm vindo a ganhar maior protagonismo no calendário regional, com destaque para o evento de Cloud 9, em Siargao, que recebeu um forte impulso através da parceria com a Philippine Sports Commission e subiu para o estatuto de QS 6000 International.
Este crescimento contrasta com o recuo temporário da Indonésia, país que continua a ter algumas das melhores ondas do mundo, mas que tem encontrado dificuldades em manter uma estrutura competitiva regular e financeiramente estável.
A situação também ajuda a explicar porque razão, apesar da qualidade das suas ondas e da importância cultural do surf no arquipélago, a Indonésia continua fora do calendário do Championship Tour.
Num modelo cada vez mais dependente de apoio institucional, investimento turístico e capacidade organizativa local, a qualidade das ondas já não é suficiente.
Esperança de regresso em 2027
Apesar do cancelamento em 2026, o cenário não está totalmente fechado.
Tipi Jabrik, secretário-geral da federação indonésia de surf, terá tentado garantir apoio junto do Ministério da Juventude e Desporto e também do setor do Turismo, mas sem sucesso para esta temporada.
Ainda assim, mantém-se alguma esperança de que tanto o Nias Pro como o Krui Pro possam regressar em 2027.
Há também conversações numa fase inicial para a realização de um possível QS nas Mentawai ainda este ano, embora essa hipótese esteja longe de estar confirmada.
Para já, o calendário asiático perde duas provas com ondas de alto nível e a Indonésia vê reduzida a sua presença competitiva numa fase em que outros países da região começam a ganhar terreno.




