Mentawai sob pressão: quando o paraíso do surf começa a parecer um parque temático
Crowd excessivo, drop-ins constantes, tensão no line-up e uma experiência que, para muitos, deixou de justificar o investimento elevado de uma surf trip às Mentawai.
Durante décadas, as Ilhas Mentawai foram sinónimo de sonho para qualquer surfista: recifes perfeitos, tubos intermináveis e a sensação rara de isolamento num dos melhores arquipélagos de surf do planeta. Em 2025, essa imagem idílica está cada vez mais longe da realidade — e o vídeo “Mentawai 2025 – The Shit Show | EP 1” expõe isso de forma crua e sem filtros.
O episódio, partilhado pelo canal Badgertales, mostra aquilo que muitos surfistas já sentem há anos, mas que agora é difícil ignorar: crowds excessivos, drop-ins constantes, tensão no line-up e uma experiência que, para muitos, deixou de justificar o investimento elevado de uma surf trip às Mentawai.
Do sonho à saturação
O que antes era uma expedição quase mítica transformou-se, em alguns picos, numa sucessão de barcos, surfistas e egos a competir pela mesma onda. Comentários ao vídeo refletem frustração, nostalgia e até resignação. Muitos relatam que já viveram o mesmo fenómeno noutras regiões icónicas como Maldivas, Pipeline ou até certos destinos australianos.
A combinação de charters em massa, exposição constante nas redes sociais, YouTube e Instagram, e a facilidade de acesso logístico fez com que spots outrora remotos passassem a funcionar quase em regime industrial. Para alguns, o problema não é apenas a quantidade de pessoas, mas a perda de cultura de line-up, de rotação e de respeito básico.
Um espelho do surf moderno
O vídeo levanta uma questão mais profunda: o surf está a consumir os seus próprios paraísos?
Muitos dos comentários apontam para um fenómeno global — o surf deixou de ser apenas paixão e ligação ao oceano para se tornar também produto, conteúdo e negócio. O resultado é uma pressão crescente sobre ondas finitas, em ecossistemas frágeis, onde o impacto não é apenas social, mas também ambiental.
Há quem defenda que a solução passa por procurar destinos mais frios, mais difíceis ou tecnicamente mais exigentes. Outros admitem que o “tempo da descoberta” acabou e que a próxima geração já nasce num mundo sem picos secretos.
Mentawai ainda vale a pena?
A resposta depende do que cada surfista procura. As ondas continuam a ser de classe mundial — isso ninguém discute. Mas a experiência mudou. Para quem sonha com sessões solitárias e ritmo tranquilo, o choque pode ser grande. Para outros, faz parte da evolução inevitável do surf moderno.
O que é certo é que vídeos como este não são apenas entretenimento: são um alerta. Um convite à reflexão sobre como viajamos, como surfamos e como queremos que o futuro do surf — e dos seus lugares sagrados — seja tratado.
Porque, quando até o paraíso começa a parecer um “shit show”, talvez esteja na hora de repensar o caminho.


