Siargao, Filipinas, devastada pelo ciclone Rai Siargao, Filipinas, devastada pelo ciclone Rai créditos: ROEL CATOTO/AFP/METSUL METEOROLOGIA A reprodução em parte dos conteúdos da MetSul é autorizada desde que citada a fonte e publicado o hyperlink para o original https://metsul.com/desastre-total/ .
quarta-feira, 12 janeiro 2022 16:22

"Desastre" sim, "natural" nem tanto - como a acção humana exacerba os efeitos negativos dos fenómenos climáticos

 A forma como falamos sobre desastres dificulta a procura por soluções.

 

 

Está cada vais mais claro que a actividade humana tem contribuído para um aumento de desastres climáticos, com consequências muito negativas para a vida na Terra. Mas bem antes das mudanças climáticas serem um tema recorrente nas nossas mentes, já a humanidade conhecia a força e imprevisibilidade dos fenómenos climáticos, e dos efeitos que estes poderiam ter na sociedade. A estes temos chamado de desastres naturais: inevitáveis, independentes da acção humana, e catastróficos. Contudo, um artigo publicado a 10 de Janeiro para o Communications Earth & Environment argumenta que a forma como falamos sobre estes fenómenos climáticos dificulta a tarefa de tomar medidas apropriadas de forma a melhor lidarmos com eles. 

Os autores do artigo defendem que eventos perigosos como enchentes, secas ou ondas de calor passam a ser desastres quando é tido em conta a situação de vulnerabilidade de uma sociedade, factor que depende sempre da acção humana. O mesmo evento climático tem consequências drasticamente diferentes para pessoas em diferentes contextos sociais. Processos de urbanização mal planeados, desigualdade social e a marginalização de grupos sociais são alguns factores que podem fazer a diferença entre o perigo e o desastre. Os autores servem-se da pandemia que agora atravessamos como exemplo: as populações com menor acesso a sistemas de saúde foram as que mais sofreram com esta crise. 

 

 

 

Quem assume a responsabilidade?

 

O artigo defende que, ao descrevermos este tipo de fenómenos climáticos como naturais, estamos a criar uma ideia de que as suas consequências para a sociedade são unicamente resultado do fenómeno em si, e independentes da acção humana. Por outras palavras, se interpretarmos um desastre como natural e inevitável, não podemos atribuir a responsabilidade a nenhuma pessoa ou entidade. Mas, como argumentam os autores, a vulnerabilidade "é produto de processos políticos e sociais que incluem elementos de poder".

"Um discurso que responsabiliza a natureza pelos desastres cria uma escapatória subtil para aqueles que são de facto responsáveis por criar essa vulnerabilidade", argumentam os autores. Além disso, impede que se analisem os comportamentos humanos responsáveis pelos desastres e consequentemente impede que se pensem soluções e alternativas.

A mensagem do artigo é clara: há que mudar a forma como falamos sobre estes desastres, e pensar neles como mais do que apenas "desastres naturais". Se o factor da vulnerabilidade estiver no centro da discussão, poderemos mais facilmente encontrar formas de proteger toda a sociedade de forma igual dos fenómenos climáticos, evitando que se tornem desastrosos.

Itens relacionados

Scroll To Top