De Ronaldo ao futuro da China: Paddy Cosgrave fala sem filtros sobre Portugal, os jovens e a nova ordem tecnológica mundial
O fundador da Web Summit falou sobre a revolta dos jovens, a transformação de Lisboa, a ascensão da China e o futuro do maior encontro tecnológico realizado em Portugal.
Num encontro reservado com os principais órgãos de comunicação social portugueses, em que a Surftotal esteve presente, o fundador da Web Summit falou sobre a revolta dos jovens, a transformação de Lisboa, a ascensão da China e o futuro do maior encontro tecnológico realizado em Portugal. E deixou uma mensagem inesperada: compreende a indignação de quem não beneficiou da prosperidade dos últimos dez anos.
"Ronaldo?"
Foi com esta simples palavra, acompanhada de um sorriso, que Paddy Cosgrave quebrou o gelo, mal se sentou para conversar com um pequeno grupo de jornalistas portugueses, entre os quais se encontrava a Surftotal.
O ambiente era descontraído, quase intimista. Longe da dimensão dos grandes palcos da Web Summit, o empresário irlandês mostrou-se disponível para falar abertamente sobre Portugal, sobre as mudanças que testemunhou ao longo de uma década e sobre um mundo tecnológico que, na sua opinião, está a mudar muito mais depressa do que muitos imaginam.
A conversa rapidamente ultrapassou os limites da tecnologia. Falou-se de desigualdade social, de jovens portugueses que se sentem excluídos, da influência do dinheiro estrangeiro em Lisboa, da China, da inteligência artificial, da Palestina e até de ténis.

Cosgrave não evitou temas controversos. Pelo contrário, algumas das suas declarações mais marcantes surgiram precisamente quando foi confrontado com as consequências sociais da transformação de Lisboa.
"Os jovens portugueses têm todo o direito de estar revoltados"
Um dos momentos mais reveladores da conversa surgiu quando o fundador da Web Summit foi questionado sobre a destruição de um dos grandes letreiros metálicos do evento em Lisboa.Com quase dois metros de altura e uma estrutura pesada, o letreiro tinha sido vandalizado, algo que, segundo Cosgrave, nunca acontecera nos dez anos de presença da conferência em Portugal.
"Foi a primeira vez numa década que um letreiro da Web Summit foi destruído. Até fiquei impressionado com o que conseguiram fazer", comentou.
Mas a sua reação não foi de indignação.
Cosgrave revelou ter procurado compreender as razões do protesto, recorrendo às redes sociais e até ao Google Translate para acompanhar discussões entre portugueses no Reddit e no X.
O que encontrou foi uma geração que associa a chegada de investimento estrangeiro, de empresas internacionais e de profissionais com elevado poder de compra ao agravamento das dificuldades económicas em Portugal.
"Embora a Web Summit possa ter contribuído para uma transformação muito positiva de Portugal e de Lisboa, existe uma geração que não sente esses benefícios. E penso que tem todo o direito de estar revoltada."
A afirmação ganha particular significado por partir de alguém que ajudou a colocar Lisboa no mapa internacional da tecnologia.
Cosgrave reconhece que a prosperidade não chegou a todos.
"Existem oportunidades e empregos extraordinários. O problema é que essas oportunidades não estão suficientemente distribuídas."
O empresário discorda, contudo, de que a Web Summit deva ser responsabilizada diretamente pelas dificuldades enfrentadas pelos jovens portugueses.
Nas redes sociais encontrou acusações de que a conferência teria ajudado a abrir as portas à entrada de grandes quantidades de capital estrangeiro, transformando Portugal numa espécie de "Califórnia da Europa".
Mas recusou assumir o papel de quem pretende apresentar soluções políticas para o país.
"Sou irlandês. As políticas de Portugal devem ser decididas pelos portugueses e pelos seus representantes políticos."
"Adoro Lisboa. É praticamente a minha segunda casa"

Apesar das críticas que a Web Summit recebe, a ligação pessoal de Paddy Cosgrave a Portugal parece ir muito além dos negócios.
O fundador da conferência revelou uma faceta menos conhecida: a paixão pelo ténis.
"Fora da Web Summit, a minha grande paixão é jogar ténis. Participo no circuito mundial de veteranos e viajo com muitos portugueses para torneios em todo o mundo."
É precisamente através dessas relações que mantém um contacto regular com a realidade portuguesa, fora dos ambientes empresariais e tecnológicos.
"A outra parte da minha vida também é muito portuguesa", afirmou.
Para Cosgrave, Lisboa tornou-se uma cidade profundamente diferente daquela que conheceu há dez anos.Na altura, recorda, a capital portuguesa estava longe do cosmopolitismo de centros como Londres ou Silicon Valley.
Hoje, a cidade reúne empreendedores, programadores, trabalhadores remotos e profissionais de dezenas de nacionalidades.
"Não existe uma única comunidade tecnológica em Lisboa. Existem muitas comunidades, muitas subcomunidades."
O empresário considera essa diversidade uma das grandes conquistas da última década.
"Silicon Valley tornou-se tão bem-sucedido porque muitas das pessoas que criam empresas interessantes nem sequer são da Califórnia ou dos Estados Unidos. Vieram de outras partes do mundo."
Na sua perspetiva, Lisboa começa a beneficiar dessa mesma mistura de culturas, conhecimentos e experiências.
Web Summit gerou um impacto económico estimado de 2,5 mil milhões de euros em Portugal
Os números ajudam a compreender a dimensão desta transformação. Segundo um estudo da EY-Parthenon, encomendado pela Web Summit e divulgado a 5 de novembro, o evento gerou ou ajudou a estimular cerca de 2,5 mil milhões de euros de atividade económica em Portugal ao longo de dez anos, o equivalente a aproximadamente 250 milhões de euros anuais.
Só as despesas dos visitantes representaram 730 milhões de euros, enquanto as receitas fiscais associadas ao evento atingiram cerca de 50,7 milhões de euros em 2025. No mesmo período, o número de startups portuguesas passou de 2.193 para 5.091 e o volume de negócios anual do setor aumentou de 1,23 para 2,85 mil milhões de euros.
São indicadores expressivos de crescimento, mas que tornam ainda mais pertinente a questão levantada pelo próprio Cosgrave: até que ponto esta prosperidade chegou efetivamente às novas gerações de portugueses?
Portugal entre os mercados tecnológicos mais fortes da Europa
Se a transformação de Lisboa é evidente, Cosgrave considera que o panorama europeu revela uma realidade muito desigual.A partir dos indicadores internos da Web Summit, identifica uma Europa dividida entre países onde o empreendedorismo tecnológico está a crescer e outros onde a participação empresarial revela sinais de estagnação.
"Continuam a existir duas Europas", afirmou.
Na Europa Ocidental, destacou Portugal, Espanha e Londres como os mercados que apresentam maior dinamismo nos dados da conferência.A avaliação sobre Alemanha, França e Itália foi bastante menos favorável.
"Não é certamente a Alemanha. Continua a atravessar grandes dificuldades."
Em contrapartida, os países da Europa de Leste estão a ganhar protagonismo.Polónia, Lituânia, Letónia e Estónia apresentam indicadores positivos, com alguns mercados a registarem crescimentos de dois dígitos.
Um dos exemplos mais surpreendentes é o da Estónia.
"A Estónia tem tantas startups presentes como a Suécia", revelou.
Cosgrave salientou que estes números refletem a participação na Web Summit, mas considera que demonstram uma mudança importante na geografia do empreendedorismo europeu.
Também o Brasil está a ganhar terreno. Em 2017, São Paulo tinha apenas duas ou três startups representadas no evento, enquanto Paris contava com cerca de 50.
Atualmente, segundo o empresário, as duas cidades apresentam aproximadamente o mesmo número de empresas expositoras.
"São Paulo está praticamente do outro lado do mundo. Paris fica a pouco mais de uma hora de avião. E, no entanto, têm agora o mesmo número de startups."
70 mil participantes e um recorde de startups portuguesas
A próxima edição da Web Summit deverá voltar a atingir a capacidade máxima, com cerca de 70 mil participantes.Cosgrave anunciou ainda um número recorde de investidores presentes, apesar de o mercado europeu de capital de risco atravessar uma fase particularmente difícil.Segundo os dados que apresentou, o número de investidores ativos na Europa caiu para menos de metade nos últimos três anos.
Apesar de continuarem a surgir grandes rondas de financiamento, sobretudo em empresas ligadas à inteligência artificial, o número total de operações diminuiu significativamente.
Portugal, porém, apresenta um sinal positivo.
A participação de startups portuguesas na conferência deverá atingir um máximo histórico, mesmo com uma redução dos apoios públicos à presença de empresas nacionais.Segundo Cosgrave, na edição anterior os programas estatais apoiavam cerca de 50% mais startups através da disponibilização de espaços de exposição.
Apesar dessa alteração, mais empresas portuguesas decidiram participar por iniciativa própria.
"É um máximo histórico para as startups portuguesas", sublinhou.
"O futuro da tecnologia não é americano"
Foi quando a conversa chegou à inteligência artificial que Paddy Cosgrave apresentou algumas das suas posições mais contundentes.Para o fundador da Web Summit, o equilíbrio de poder tecnológico mundial está a mudar rapidamente e a China encontra-se na linha da frente dessa transformação.
"A ascensão da China, particularmente na inteligência artificial e na robótica, é simplesmente avassaladora."
Cosgrave afirmou que a utilização de modelos chineses de inteligência artificial no Ocidente está a crescer de forma extraordinária.Segundo números que apresentou, a quota de utilização de tokens associada a esses modelos terá passado de cerca de 7% para 70% ao longo do ano. Não especificou, contudo, a origem ou a metodologia desses dados.
O empresário destacou ainda o exemplo da Revolut, afirmando que a empresa recorre a modelos chineses de código aberto, nomeadamente o GLM, que permitem reduzir significativamente os custos de utilização.
Na sua perspetiva, algumas das soluções norte-americanas tornaram-se demasiado dispendiosas perante as alternativas disponíveis.Mas foi a experiência pessoal de uma viagem à China, em setembro, que parece ter reforçado a sua convicção.
"Há pessoas que falam sobre a China sem nunca lá terem estado. Mas, quando vamos a Shenzhen ou Xangai, é impossível não questionar o futuro."
Cosgrave confessou ter ficado profundamente impressionado com aquilo que encontrou.
E lançou uma provocação às grandes empresas tecnológicas ocidentais.
"Já nem sei se estas empresas são assim tão interessantes, porque deixaram de estar na linha da frente da tecnologia."
A conclusão foi inequívoca.
"Somos uma janela para o futuro. E aquilo que estamos a refletir é o futuro da tecnologia, que certamente não é americano."
O futuro da Web Summit em Lisboa ainda não está decidido
Apesar da forte ligação pessoal que mantém com Portugal, Cosgrave reconheceu que o futuro da conferência para além do atual horizonte contratual continua em discussão. O empresário confirmou a existência de contactos e de um processo em curso, envolvendo outras cidades europeias, mas recusou divulgar detalhes.
"Estamos ainda em 2026 e 2029 parece estar longe. Mas, em certos aspetos, talvez não esteja assim tão longe."
O fundador da Web Summit garantiu que haverá novidades quando chegar o momento adequado.
As suas declarações não significam uma decisão de abandonar Lisboa, mas mostram que a continuidade do evento não deve ser considerada automática.
Palestina e o direito de protestar
Outro dos temas abordados foi a situação na Palestina.
Cosgrave manifestou apoio pessoal ao direito à ação direta, defendendo que os cidadãos devem poder mobilizar-se contra acontecimentos ou organizações que considerem prejudiciais.
"A ação direta é uma ferramenta extremamente importante que as pessoas têm à sua disposição para mudar o rumo dos acontecimentos, no seu país ou internacionalmente."
O empresário afirmou apoiar movimentos de protesto relacionados com aquilo que classificou como genocídio na Palestina.Revelou ainda que dirigentes de movimentos de protesto franceses estarão presentes na Web Summit enquanto oradores.
Para Cosgrave, a democracia exige espaço para o confronto de ideias e para formas de contestação que ultrapassem o debate convencional.
"Vivemos numa democracia onde as ideias devem ser intensamente discutidas e debatidas."
Ressalvou, no entanto, que estas posições refletem as suas convicções pessoais.
Uma década que mudou Lisboa — mas não da mesma forma para todos
A conversa terminou por deixar uma imagem de Paddy Cosgrave bastante diferente daquela que habitualmente surge nos grandes palcos da Web Summit.
Entre referências a Cristiano Ronaldo, à paixão pelo ténis, às amizades portuguesas e às suas viagens à China, o empresário mostrou-se simultaneamente entusiasmado com a transformação tecnológica mundial e consciente das contradições que essa transformação produz.
Lisboa é hoje uma cidade mais internacional, com mais empresas tecnológicas, mais investimento e uma diversidade que dificilmente seria imaginável há uma década.
Mas o próprio fundador da Web Summit reconhece que essa evolução não foi acompanhada por uma distribuição suficientemente ampla das oportunidades.
É talvez essa a maior contradição de uma década de transformação: Portugal tornou-se mais atrativo para o mundo, mas nem todos os portugueses sentem que o país se tornou mais acessível para si próprios.
E foi precisamente essa realidade que Cosgrave, sentado informalmente perante um pequeno grupo de jornalistas portugueses, não procurou ignorar.
Num mundo onde a tecnologia avança a uma velocidade extraordinária, a grande questão poderá já não ser apenas quem lidera a inovação, mas quem beneficia verdadeiramente dela.
Surftotal — Reportagem exclusiva | Lisboa 05 de,novembro de 2026




