Descodificar a competição com uma solução australiana
O surf tornou-se de tal forma complexo para quem está de fora que é muito difícil para o espectador comum compreender o que se está a passar.
Quem está em casa, no sofá, a ver um jogo de futebol, basquetebol ou andebol consegue acompanhar a ação de forma muito intuitiva. Há regras claras, balizas ou cestos, um relógio a contar e uma continuidade lógica que qualquer leigo entende. No surf, a história é completamente diferente.
O desporto tornou-se de tal forma complexo para quem está de fora que é muito difícil para o espectador comum compreender o que se está a passar.
Este problema tem sido agravado pela própria política das transmissões da WSL, onde praticamente não existe espaço para os comentadores criticarem ou debaterem abertamente as notas atribuídas pelos juízes. Ao longo dos anos, figuras como Martin Potter ou Barton Lynch protagonizaram momentos de maior confronto e discussão em torno do julgamento.
Se quem está na emissão a tentar explicar o desporto não pode questionar ou dissecar uma nota, a avaliação torna-se ainda mais difícil de compreender para o espectador não familiarizado com o surf.
Reconheço que há mérito em algumas das alterações feitas nos últimos anos ao circuito mundial. O polémico corte de atletas a meio da época ou a introdução das finais decididas num único dia tiveram um lado positivo: aumentaram a espetacularidade e a tensão competitiva.
Só que, ao fazer isto sem resolver o problema de base, o surf continua a falhar na captação de novos adeptos.
E a razão é simples: a avaliação do desporto está de tal maneira codificada que se torna indecifrável para o público não praticante. Aquela pessoa que, num domingo à tarde, até estaria disposta a acompanhar uma competição na televisão acaba por mudar de canal porque pura e simplesmente não consegue perceber por que motivo a onda de um atleta valeu um 8,5 e a do adversário ficou-se por um 6,0.
Sem clareza, não há ligação emocional. Sem ligação, não se ganham novos fãs.
A solução australiana
É exatamente por causa deste problema de comunicação que olho com bons olhos para as notícias recentes vindas da Austrália.
Ao contrário daqueles que torceram o nariz, concordo com a ideia por trás da nova Surfing Super League (SSL). Ao tentar criar um formato com equipas, horários de transmissão fixos e regras simplificadas, inspirando-se na orgânica dos grandes desportos de massas, a SSL está a tentar desatar um nó com décadas.
Em vez de complicar o surf, está finalmente a tentar traduzi-lo para a linguagem de quem está em casa.
Para percebermos o que está em causa, temos de olhar para aquilo que os australianos pretendem lançar no verão de 2028. A SSL não quer ser apenas mais um campeonato. Pretende alterar a forma como consumimos surf de competição, formatando-o para que qualquer pessoa o consiga acompanhar.
O fim da imprevisibilidade?
O primeiro grande tabu que a SSL quebra é o calendário.
Quem acompanha surf sabe que as competições vivem reféns dos chamados waiting periods, os períodos de espera pelas melhores condições do mar. Isso é fascinante para os puristas, mas constitui um enorme problema para as televisões e para o espectador casual, que nunca sabe ao certo a que horas ou em que dia a prova vai para a água.
É precisamente essa imprevisibilidade que a SSL pretende eliminar.
Durante a temporada haverá horários previamente definidos aos fins de semana. O mar pode não estar épico, mas quem liga a televisão sabe que o “jogo” vai acontecer.
É uma mudança aparentemente simples, mas que altera profundamente a forma como o surf pode ser vendido a uma estação de televisão, a um patrocinador e, principalmente, ao público.
Um jogo de surf com 90 minutos
E por falar em “jogo”, a própria lógica tradicional dos heats é alterada para dar lugar a um formato muito mais próximo daquele que um adepto de futebol ou andebol reconhece.
Cada confronto terá 90 minutos, dividido em duas partes de 40 minutos, com um intervalo de dez minutos.
A lógica é clara: criar um produto que tenha princípio, meio e fim dentro de uma janela televisiva perfeitamente definida.
Outra mudança radical é o conceito das equipas regionais, num modelo de franquias inspirado noutras grandes ligas profissionais. Em vez de o público torcer apenas por um atleta, passa a existir uma identidade coletiva e geográfica à qual se pode ligar.
Os plantéis deverão juntar homens e mulheres e misturar diferentes perfis de surfistas, procurando criar personagens, rivalidades e histórias capazes de sobreviver para além de uma única bateria.
A igualdade salarial é outro dos pilares anunciados pelo projeto: homens e mulheres contratados pela liga terão a mesma remuneração base.
No fundo, aquilo que a Austrália se prepara para fazer em 2028 é pegar num desporto com regras difíceis de interpretar e horários imprevisíveis e tentar transformá-lo num espetáculo facilmente consumível pela família ao fim de semana.
O surf como produto televisivo
Para lá da paixão pelas ondas e da tentativa de simplificar as regras para o público, há que olhar de forma pragmática para a vertente comercial.
O surf movimenta uma enorme economia na Austrália, mas a competição profissional tem historicamente dificuldades em captar investimento comparável ao de grandes modalidades australianas como o rugby ou o futebol australiano.
A SSL percebeu que, para transformar o surf num produto televisivo verdadeiramente rentável, teria de eliminar um dos seus maiores problemas aos olhos dos investidores: a imprevisibilidade.
Ao garantir horários fixos de transmissão e fechar, com grande antecedência, um acordo televisivo com o Foxtel Group, que prevê pelo menos 50 horas de programação durante a temporada inaugural, a liga oferece às marcas e aos anunciantes algo que o surf tradicional raramente consegue garantir: saber exatamente quando o seu produto estará no ecrã.
Mas o modelo vai muito além dos direitos televisivos.
A criação de franquias permite construir ativos comerciais próprios, associados a diferentes regiões, patrocinadores, merchandising, hospitalidade e, potencialmente, investidores privados.
É uma forma completamente diferente de pensar o negócio do surf profissional.
E qual é a dimensão deste negócio em Portugal?
Toda esta conversa sobre os milhões australianos e a criação de uma liga profissional obriga-nos, inevitavelmente, a olhar para o nosso próprio quintal. Como se traduz esta realidade comercial em Portugal?
É evidente que Portugal não tem a escala nem a dimensão do mercado australiano, mas desengane-se quem pensa que, no nosso país, o surf continua a ser apenas um desporto de nicho praticado por meia dúzia de idealistas em carrinhas pão-de-forma.
As nossas ondas transformaram-se num verdadeiro motor de desenvolvimento regional.
Os estudos económicos mais recentes apontam para que a economia do surf em Portugal valha mais de 400 milhões de euros por ano. Só as provas mundiais realizadas na região Oeste terão movimentado cerca de 23 milhões de euros em 2024, com um impacto de aproximadamente 7 milhões de euros em receitas fiscais.
E o fenómeno não se limita às regiões mais associadas às grandes competições internacionais.
A norte, mesmo fora do circuito mundial, as estimativas apontam para mais de 200 mil visitas anuais de surfistas à Praia de Matosinhos, responsáveis por um impacto económico agregado na ordem dos 20 milhões de euros.
São números que mostram que o surf deixou há muito de ser apenas uma modalidade desportiva em Portugal. É também turismo, hotelaria, restauração, escolas de surf, comércio, indústria, emprego e promoção internacional do território.
A grande questão passa, por isso, a ser outra: o que queremos fazer com este crescimento?
E se fizéssemos isto em Portugal?
Perante o peso económico que o surf já tem em Portugal, a pergunta impõe-se: e se adaptássemos parte deste conceito à nossa realidade?
A primeira regra de ouro teria de ser respeitar a nossa escala. Os valores seriam necessariamente muito inferiores aos australianos.
Mas a premissa poderia manter-se: contratos fixos para os atletas durante a duração da competição.
Para muitos surfistas portugueses de elite, que passam o ano a fazer ginástica financeira e dependem da continuidade de um ou dois patrocinadores, ter um salário garantido durante um mês de competição fechada seria uma pequena revolução.
Além da estabilidade financeira, permitiria aos atletas entrar numa competição sabendo exatamente quanto vão receber, quantas semanas vão competir e qual será a exposição televisiva oferecida aos seus patrocinadores.
Norte contra Cascais? Oeste contra Ericeira?
Para a televisão, a criação de equipas poderia encaixar particularmente bem na nossa identidade regional.
Imaginem o potencial de um domingo à tarde com uma equipa do Norte a defrontar uma equipa da Linha de Cascais, do Oeste ou da Ericeira.
A rivalidade geográfica é imediatamente compreensível. Mesmo alguém que nunca tenha visto uma bateria de surf percebe o conceito de “nós contra eles”.
E, se o formato tiver 90 minutos, uma pontuação simples e um horário fixo, desaparecem algumas das barreiras que atualmente dificultam a entrada de novos espectadores.
O surf deixaria de depender exclusivamente do nome individual do atleta para começar também a construir identidades coletivas.
Um adepto poderia não conhecer todos os surfistas que estão dentro de água. Mas saberia perfeitamente qual é a sua equipa.
Verão ou inverno?
A grande questão logística seria outra: fazemos isto no verão ou no inverno?
Quem surfa sabe que a verdadeira época das ondas portuguesas, aquelas que mostram toda a potência da nossa costa, vai essencialmente do outono ao início da primavera.
O problema é que o conceito de “estádio de praia” — público, hospitalidade, ativações de marcas e ambiente de festival — dificilmente combina com alguns dos nossos dias mais duros de inverno.
Além disso, um mar demasiado agreste poderia colocar em causa precisamente aquilo que sustenta o conceito: o horário fixo televisivo.
A solução de compromisso poderia passar por setembro e outubro. É uma janela em que começam a chegar os primeiros swells mais consistentes e o clima ainda permite criar um verdadeiro evento de praia.
Se a escolha recaísse sobre o verão, o paradigma teria de ser diferente.
Com ondas mais pequenas, o foco poderia passar pelo surf progressivo, velocidade, manobras e aéreos.
O oceano transformar-se-ia numa espécie de skatepark aquático para a televisão.
E o circuito nacional? Acabava?
A resposta é um redondo não.
A importação de um conceito desta natureza nunca deveria substituir a Liga organizada pela Associação Nacional de Surfistas ou os restantes circuitos promovidos pela Federação Portuguesa de Surf.
O circuito tradicional continuaria a ser a base competitiva do surf português, premiando a regularidade e coroando os campeões nacionais.
Uma eventual Liga de Equipas teria outra missão: funcionar como complemento, concentrado em algumas semanas, pensado desde a raiz para televisão, público, patrocinadores e entretenimento.
São produtos diferentes e podem perfeitamente coexistir.
No fundo, é possível modernizar a montra sem vender a alma do desporto.
Se a máquina comercial ficar confinada a algumas semanas de espetáculo televisivo, continuam a sobrar todos os outros dias do ano para aquilo que sempre tornou o surf diferente.
Porque, no fim de contas, o maior património do surf nunca foi o cronómetro. Foi sempre o mar.




