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sábado, 02 maio 2020 16:36

"Quando voltarmos à água, não podemos perder os valores mais importantes da cultura do surf"

A opinião de Joana Rocha, ex Campeã Nacional de Surf...

 

 

 

"Agora mais que nunca, quando voltarmos à água,

não percam os valores mais importantes da cultura do surf:

 

Paixão, partilha, ajudar o próximo, apreciar o momento, a relação com a natureza "

 

 

 

Joana Rocha quando competia no circuito nacional de surf esperanças.(arquivo pessoal)

 

 

 

Sobre a Cultura do Surf (por Joana Rocha):


 
Vivo na Ericeira oficialmente há 15 anos mas antes disso vivia em S. João do Estoril, era local da Poça e da Azarujinha. Durante 10 anos essas duas praias foram a minha segunda casa.
 
Para os jovens que estão a ler este artigo, há 25 anos atrás o surf era um desporto bem mal visto, era dito pela sociedade que só os marginais faziam surf... nunca cheguei a entender bem o estigma. Será que era pelo fato de alguns surfistas faltarem às aulas para irem surfar? Isso havia em qualquer outro desporto... sempre houve jovens que faltavam as aulas.

 

 

 

"A grande diferença é que o surf

criava curiosidade nas outras pessoas."

 

 

 

Joana Rocha - foto por Ricardo Bravo

 

 


A grande diferença é que o surf criava curiosidade nas outras pessoas. Era uma modalidade, mais propriamente um modo de vida APAIXONANTE, em que os surfistas transbordavam felicidade, sorrisos, adoravam liberdade, viajavam pelo mundo em busca da melhor onda, espalhavam boa energia e ainda por cima, viviam o tempo todo na praia e queimados do sol.
 
Para a sociedade, nessa altura, os surfistas eram todos uns marginais, sem estudo e ainda por cima uns pés descalços, pois nenhum surfista ganhava dinheiro para ser independente.
 
Agora que olho para trás, vejo a paixão que todos os surfistas tinham pelo desporto e por aquele modo de vida tão diferente e julgado pela sociedade. Sem dúvida que era um modo de vida saudável, verdadeiro, apaixonado e muito mais conectado com a natureza do que qualquer outra pessoa.
 
Comecei a surfar nessa altura, em que as pessoas nos chamavam de marginais. Acreditem que é preciso ter coragem para ir contra o que a sociedade diz e pensa, não é para todos.
 
Comecei a surfar numa altura em que havia tão poucas pranchas que qualquer prancha servia para nos divertirmos.
 
Comecei a surfar numa altura em que havia tão poucos fatos que surfava de short mesmo no inverno.
 
Comecei a surfar numa altura em que não havia escolas de surf e muito menos alguma informação na net.
 
Comecei a surfar numa altura em que quando se ganhava um campeonato o prémio era literalmente uma t-shirt.
 
Comecei a surfar numa altura em que dormíamos no carro para conseguir participar em todos os campeonatos.

 

 

 

"A cultura do surf tem vindo a perder essa chama da paixão,

peço desculpa se estou a ofender alguém,

é o que acho e o artigo é segundo uma opinião pessoal."

 

 

 

 

Joana Rocha - Foto por Carlos Pinto

 

 


 
Foi a cultura do surf que me moldou, apaixonada pelo que faço, saber esperar pelas coisas, trabalhar arduamente para ver resultados, ajudar os outros, saber partilhar conhecimento, viver na natureza, gostar de liberdade, apreciar cada momento, quer seja em família, com amigos, viagens ou mesmo apreciar o por do sol com presença. 25 anos de partilhas que ficaram para a vida.
 
A cultura do surf tem vindo a perder essa chama da paixão, peço desculpa se estou a ofender alguém, é o que acho e o artigo é segundo uma opinião pessoal.
Eram tantas as dificuldades que tínhamos comparado com os surfistas de hoje que nem dá para comparar. Quanto mais difícil as coisas são menos pessoas o fazem mas quem tem a coragem de o fazer é um verdadeiro herói. Como eu costumo dizer “se fosse fácil todos faziam”.
 
A cultura do surf tem se vindo a perder... tudo é tão fácil hoje em dia. Quantos modelos de pranchas podemos encontrar no mercado e o surfista ainda diz “esta prancha não funciona”. Quantas marcas de surf há e quantos fatos de boa qualidade o surfista pode encontrar e ainda diz “hoje não vou porque está frio”. Quantas escolas de surf há para ensinar e o surfista ainda diz “hoje a aula de surf é só à tarde, não dá para mim”, enfim, quando não há paixão não há.
 
Acredito que há mais pessoas hoje em dia a surfar porque os surfistas de hoje são bem vistos como desportistas e a modalidade já move muito dinheiro.
 
Acredito que há mais pessoas hoje em dia a surfar porque já existe a informação que o surf é um desporto saudável.
 
Acredito que há mais pessoas hoje em dia a surfar porque está na moda.
 
Mas a verdadeira cultura do surf onde está? O surfista de alma onde está? Os valores intrínsecos a este modo de vida onde estão?
 
Não quero que deturpem as minhas palavras. Sou a maior apologista de incentivar as pessoas a fazer surf, aliás, dediquei parte da minha vida, juntamente com a minha irmã a impulsionar o surf feminino em Portugal. Formamos mais de 2000 surfistas.

 

 

 

"Aquilo que quero dizer com as minhas palavras a todos os surfistas da nova geração é,

 

SEJAM GUERREIROS..."

 

 

 

Joana com as suas pupilas

 


 
Aquilo que quero dizer com as minhas palavras a todos os surfistas da nova geração é, SEJAM GUERREIROS, vai sempre haver dificuldades na vida mas não desistam à primeira só porque correu menos bem, vão com tudo, mostrem a vossa paixão pelo desporto, por este modo de vida apaixonante, partilhem, ajudem quem podem ajudar, o vosso caminho faz-se caminhando. Bem... faz-se surfando, o destino é apenas um destino, desfrutem do caminho.
 
Aprendemos uma grande lição com o vírus que se espalhou pelo mundo e fez com que tudo parasse. Nada é garantido, nem mesmo uma surfada. Quem iria imaginar que não poderíamos surfar durante quase 2 meses por obrigação imposta? Agora mais que nunca, quando voltarmos à água, não percam os valores mais importantes da cultura do surf, paixão, partilha, ajudar o próximo, apreciar o momento, a relação com a natureza e o grande ensinamento da quarentena a relação contigo e com as pessoas que te rodeiam. A conexão. Todos somos um.
 
Quero com estas palavras fazer uma homenagem, a todos os locais da Poça e da Azarujinha, que fizeram parte da minha formação como pessoa, a todos os locais da Ericeira que me acolheram com muito carinho, a todos os surfistas apaixonados pelo desporto, e por este modo de vida, por espalharem magia e ajudarem a transformar a vida de tantas pessoas e principalmente à minha irmã Rita, responsável por ter começado a surfar e também a pessoa que mais me incentivou ao longo da vida a nunca desvirtuar os meus valores. Um obrigada muito especial a todos.

 

Joana Rocha e Rita Rocha - as duas irmãs começaram a organizar o QS feminino com cotação de 6 estrelas entre 2004 a 2006 na Ericeira e de 2007 a 2012 em Cascais.

 

 

www.coachingyoungminds.com

 

 

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