O Português Manuel Gameiro e a Israelita qualificada para o CT 2026, Anat O Português Manuel Gameiro e a Israelita qualificada para o CT 2026, Anat / Arquivo pessoa Manuel Gameiro terça-feira, 17 março 2026 09:39

“Esta conquista valida todo o processo” Manuel Gameiro sobre a qualificação de Anat Lelior para o CT 2026

Treinador Português está de regresso a Portugal e entre escalas falou à Surftotal

A qualificação de Anat Lelior para o Championship Tour 2026 teve também um forte cunho português. O treinador Manuel Gameiro, que acompanha igualmente atletas como Gui “Gato” Ribeiro e Teresa Bonvalot, falou à Surftotal sobre o percurso construído com a surfista israelita até à chegada à elite mundial.

Uma parceria que começou sem planos de continuidade

Segundo Manuel Gameiro, a ligação com Anat Lelior começou em 2022, numa fase em que a surfista regressava de uma longa paragem depois de uma cirurgia à anca, realizada após os Jogos Olímpicos de Tóquio.

“Comecei a trabalhar com a Anat em 2022. Numa fase inicial, a ideia era apenas ela vir a Portugal integrar o meu grupo de treino durante 10 dias, com o objetivo de voltar a ganhar ritmo após uma longa paragem devido a uma cirurgia à anca”, explicou.

Na altura, o plano não passava de um bloco curto de treinos. “Antes desse camp, não havia qualquer expectativa de continuidade. A própria Anat foi muito clara ao dizer que não estava à procura de alguém para a acompanhar no processo”, recorda.

Mas cerca de um mês depois, tudo mudou. “A Anat entrou em contacto comigo para uma reunião e perguntou se estaria disponível para a acompanhar de forma mais consistente. A partir daí iniciámos um trabalho conjunto com objetivos bem definidos: a qualificação para Paris 2024 era uma prioridade.”

Um caminho exigente, com lesões e superação

O percurso até ao CT esteve longe de ser linear. Gameiro recorda que, em 2023, já no final da pré-época, Anat sofreu uma lesão em Carcavelos.

“Foi um percurso exigente e com vários desafios pelo caminho. Em 2023, já no final da pré-época, a Anat sofreu uma lesão em Carcavelos, uma rotura de ligamentos, que a obrigou a parar durante alguns meses.”

Ainda assim, a surfista mostrou desde cedo uma atitude fora do normal. “Mesmo nos momentos mais difíceis, como após a lesão, em que no dia seguinte já estava a realizar trabalho físico em casa, demonstrou sempre um carácter e compromisso fora do normal.”

Em 2024, já sem lesões, a preparação pôde finalmente decorrer de forma completa e os resultados apareceram. A qualificação para os Jogos Olímpicos acabou por acontecer em Porto Rico, e Gameiro acompanhou Anat em Paris 2024, onde a surfista terminou no 9.º lugar.

O CT chegou mais cedo do que o previsto

Depois dos Jogos, a equipa redefiniu objetivos, mas a progressão foi mais rápida do que se esperava.

“Após os Jogos, redefinimos objetivos: qualificar para os Challenger Series em 2025, requalificar em 2026 e chegar ao CT em 2027. No entanto, o processo acabou por evoluir mais rápido do que o previsto e a chegada ao CT aconteceu já em 2026.”

Para o treinador português, o talento sempre esteve lá, mas havia mais do que o surf em si para trabalhar.

“Sempre vi na Anat um enorme potencial, não só pela capacidade técnica e física, mas pela disciplina, ética de trabalho e consistência. É uma atleta muito forte no backside, adapta-se bem a diferentes tipos de ondas e tem uma relação natural com tubos, algo que é cada vez mais importante no Tour feminino.”

Ao mesmo tempo, sublinha, foi essencial construir a parte mental e emocional. “A Anat é muito exigente consigo própria, e foi fundamental desenvolver a capacidade de gerir expectativas, aceitar o erro e valorizar a consistência.”

O momento de viragem

Gameiro identifica um momento muito claro como ponto de viragem no processo: a primeira etapa do Challenger Series em Newcastle.

“O ponto de viragem aconteceu após a 1.ª etapa do CS em Newcastle. Não correu bem em termos de performance, sobretudo pela forma como ela se sentiu no evento. Foi o chamado ‘shocker’.”

Depois dessa prova, houve uma conversa decisiva entre treinador e atleta. “Quando o campeonato terminou, tivemos uma conversa muito importante sobre a forma como eu acho que ela deveria viver a sua carreira no surf e desfrutar da mesma. O foco dela deveria estar no que faz no dia a dia e não por pressão nos resultados.”

A partir daí, diz Gameiro, Anat passou a olhar para a carreira de outra forma. “Senti que a partir daí escolheu ver a sua carreira de uma forma diferente, começou a desfrutar do processo e as coisas começaram a acontecer.”

Os resultados confirmaram essa mudança: “Ganhou dois QS na Europa e fez meia-final no CS da Ericeira. A confiança foi crescendo e começou a materializar o nível que sabíamos que tinha e em Pipeline chegou à final depois de um campeonato brilhante.”

 

“Sinto sobretudo um grande orgulho”

Com a qualificação para o CT confirmada, o sentimento dominante é claro.

“Sinto sobretudo um grande orgulho. Não apenas pelo resultado final, mas por todo o caminho que foi feito até aqui, pelas dificuldades, pelos ajustes que fomos fazendo, pelos momentos de dúvida e pela forma como fomos ultrapassando os desafios e crescendo ao longo do processo.”

Para Manuel Gameiro, esta conquista tem também um significado mais profundo: “Mais do que um objetivo alcançado, esta conquista valida todo o processo que montámos ao longo dos últimos anos.”

E acrescenta que este resultado reforça também a motivação para o trabalho com outros atletas.

“Como treinador, sinto-me mais motivado do que nunca para ajudar outros atletas a fazerem o mesmo caminho. Felizmente treino vários atletas com potencial, se trabalharmos bem, tenho confiança que mais qualificações acontecerão.”

O que muda agora no CT?

A chegada ao Championship Tour abre uma nova fase, naturalmente mais exigente, mas sem mudar a essência do trabalho.

“A chegada ao CT traz naturalmente um novo nível de exigência, mas a base do trabalho mantém-se”, explica Gameiro.

Entre os focos principais para esta nova etapa estão:

  • a adaptação ao ritmo e ao nível competitivo do Tour

  • a preparação mais específica para cada etapa

  • a adaptação do material para cada onda

  • a continuidade do trabalho mental e emocional

  • e a gestão estratégica de cada prova e da temporada

Gameiro revela ainda que o trabalho com a Silver Surfboards já vinha a ser alinhado com essa perspetiva, aproveitando a experiência da marca no circuito mundial.

“O objetivo passa a ser consolidar a presença no CT e competir ao mais alto nível de forma consistente. Conhecendo a Anat, acredito que este é apenas o início de uma nova fase.”

 

  • Créditos fotos: Hannah Anderson / WSL

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