As Surfinistas: Não o que o surf é, mas o que o surf ainda pode ser Surfinistas terça-feira, 28 junho 2022 13:48

As Surfinistas: Não o que o surf é, mas o que o surf ainda pode ser

A Surftotal organizou uma série de reportagens com ativistas que usam o surf como meio de gerar mudança em várias camadas da sociedade.

 

Hoje, dia 28 de junho, no âmbito do dia internacional do orgulho LGBT, publicamos a primeira entrevista com as Surfinistas.

Quando um meio machista pode tornar-se integrante: o nascimento das Surfinistas

O primeiro contacto que a activista Patrícia Vassalo e Silva teve com o surf foi através de uma aula com a big rider Joana Andrade. Foi “com um grupo que não conhecia” de turistas muito simpáticos, e divertiu-se bastante, mas teve a sensação que se teria divertido ainda mais se estivesse com um grupo de pessoas conhecesse. Mais ainda, se essas pessoas partilhassem consigo valores e experiências.

Um dia, “a fazer um barbecue” com as amigas, sugeriu que fossem todas ter aulas juntas.  “Disse que seria surf para feministas”, conta, “e uma de nós lembrou-se do nome Surfinistas, e ficou assim”.

As Surfinistas começaram como um grupo informal, mas depressa foram percebendo que o espaço que tinham criado era um espaço importante, que fazia falta. “Do que conheço, o surf é um meio muito conservador e acaba por ser machista e homofóbico”, explica Patrícia. As Surfinistas tentam combater essa realidade, abrindo lugar para que mulheres e pessoas LGBT se sintam confortáveis e seguras a surfar juntas. “Não interessa o nível, nenhuma de nós é de nível avançado”. O que interessa é a partilha, o contacto com a natureza e com o mar através de uma actividade “que nos faz tão bem, que é tão boa e tão saudável”.

É um grupo pequeno, embora tenha ambição de crescer, mas a forma como vão chegando pessoas novas é ainda bastante informal. “Há pessoas que nos procuram por serem amigas de amigas. Há quem nos procure no instagram.” E as vontades de quem procura As Surfinistas são sempre muito parecidas umas com as outras: o foco principal é surfar em segurança e com pessoas com quem se identificam.

 


Créditos de imagem: Surfinistas


São problemas do surf ou do meio do surf?

A ideia de que o surf é um meio conservador não surgiu do nada para Patrícia, que conta que já experienciou situações em aulas que a deixaram insegura. “Achei que quem estava a dar formação eram pessoas extremamente conservadoras, sem noções de questões de género. É muito difícil encontrar uma escola em que não tenhamos que ouvir comentários à nossa volta que nos deixam desconfortáveis, porque não é a nossa comunidade”.

Mas mesmo para além da experiência pessoal de Patrícia, há exemplos desse conservadorismo de um modo geral. “Vê-se nos campeonatos, os prize moneys, o facto de as piores ondas, a pior altura do mar, a pior maré é sempre dada às atletas femininas”.

 

"Há atletas que o fizeram [assumiram-se como pessoas LGBT] e perderam tudo"

Patrícia também repara na falta de visibilidade de pessoas LGBT no mundo do surf, e aponta para os mesmos motivos: se para as mulheres de um modo geral as dificuldades são tantas, “quanto mais se se assumirem como pessoas LGBT. Há atletas que o fizeram e perderam tudo”, lembra Patrícia. Mas se algo de positivo saiu disso, é que “abriram espaço outras surfistas da nova geração”.

Patrícia dá o exemplo da surfista Tyler Wright e da bodyboarder Isabela Sousa, ambas abertamente lésbicas, e realça a importância de pessoas com tanta visibilidade se assumirem e mostrarem ao mundo que “somos todos iguais”. “Não são mais ou menos profissionais, não conseguem fazer mais ou menos coisas. São atletas que mostram estar ao nível de qualquer outra”.

Enquanto activista num grupo de surfistas que se preocupam com estas questões, Patrícia não esconde o orgulho a ver mulheres como Tyler e Isabela, “que nunca desistiram”, mesmo quando “não são propriamente recebidas de braços abertos”. Enquanto mulheres e enquanto membros da comunidade LGBT, “são pessoas muito corajosas por terem conseguido enfrentar e não largar aquilo que gostam de fazer”.

 

Elitismo e fraca igualdade de género são questões que se juntam à homofobia

 

"Um desporto para os privilegiados"

Patrícia não nega que existe inclusão, de alguma forma, no mundo do surf. Não pode falar sobre o universo do surf profissional, pois não o conhece, mas no meio amador, onde os membros das Surfinistas se incluem, repara que pouco importa a idade, o tipo de corpo ou as capacidades, e que, nesse sentido, “é um desporto para toda a gente”. Contudo, os factores de exclusão vão além do machismo e da homofobia. “É um desporto muito caro, muito difícil de sustentar”, argumenta. O material é caro e viver perto da praia não é opção para todos, e acaba por ser “um desporto para os privilegiados”

Patrícia também reconhece uma forte consciência política entre a comunidade surfista, principalmente no que toca às questões ambientais. Mesmo assim, diz que é raro ver grupos de surfistas a participar em marchas ou manifestações, algo que se estende aos desportistas de um modo geral. “Enquanto activista já tentei várias vezes chegar a certos grupos para fazer certas actividades, fora do surf, e nunca consegui.”

 

“Vemos muito os homens a surfar e as mulheres na areia com as crianças."

Além disso, repara que essa consciência política não se costuma alargar para outros temas, como por exemplo a igualdade de género. E, se pode parecer à primeira vista que não há razão nenhuma para surfistas se conectarem com estas questões, Patrícia recorda que os cenários que surgem dentro do mundo do surf podem muitas vezes servir de espelho para o que acontece fora de água, no dia-a-dia de todos: “Vemos muito os homens a surfar e as mulheres na areia com as crianças. Acredito que muitas mulheres gostassem pelo menos de experimentar, e acho que nem nunca lhes ocorreu que podiam estar no outro papel. Se é assim dentro da água e na praia, claro que vai ser assim em casa e no resto da sociedade.”

 


Créditos de imagem: Surfinistas

 

Um “espaço seguro no mar” não deveria ser um bem garantido?

Outra razão que poderia justificar que a comunidade surfista se importasse mais com questões de género seria a desagradável tomada de consciência de que nem todas as pessoas se sentem seguras dentro da água. Essa, aliás, é uma das premissas da existência das Surfinistas, que escrevem na descrição da sua conta de instagram: “procuram espaços seguros ligados ao mar”.

 

“A comunidade não está preparada para pessoas trans, para pessoas não-binárias, gays, lésbicas”

 

“Quando queremos apanhar uma onda, um homem pode sentir que tem mais poder, mais direito, podem até ser mais agressivos”, diz Patrícia. “E há mesmo casos de invisibilidade, em que nem sequer vêm as mulheres que estão ao lado. Isso não é uma situação segura.” Como às vezes se diz, a força está nos números, e é por isso que As Surfinistas organizam surfadas em grupo. “Estamos mais seguras se formos duas ou mais para a água”.

A expressão “espaço seguro” pode significar muitas coisas para muitas pessoas. Para As Surfinistas, “um espaço seguro é também um espaço onde podemos ser quem somos”, e o mar não o é, ainda, para todos. “Nunca vi um homem abertamente LGBT neste contexto”, comenta Patrícia, que relembra que as interacções entre praticantes de surf não se limitam ao mar, mas começam “no parque de estacionamento, enquanto nos vestimos, enquanto vamos para a praia…” – todos estes momentos podem causar vulnerabilidade e desconforto a qualquer pessoa que declare abertamente, ou que deixe transparecer através do corpo, que não faz parte do status quo.


"Eu não tenho que ir para uma aula de surf ou bodyboard e esconder quem sou"

 

“A comunidade não está preparada para pessoas trans, para pessoas não-binárias, gays, lésbicas”, reforça Patrícia. “E não devia ser assim. Eu não tenho que ir para uma aula de surf ou bodyboard e esconder quem sou. Quando dizemos que As Surfinistas são um espaço seguro, é porque queremos que as pessoas que surfam connosco sintam que são elas próprias.”

Mas o activismo e as lutas sociais não trabalham apenas com a realidade, e sim com a combinação entre a realidade e a imaginação do futuro que se quer ter. E é isso que As Surfinistas têm em mente: não apenas o que o surf é, mas o que o surf ainda pode ser.

 

“Toda a gente pode surfar”

Para As Surfinistas, “o surf pode ser uma ferramenta para combater desigualdade”, além de ser um meio comprovadamente útil “para ajudar com problemas de saúde mental”, algo bastante presente em grupos marginalizados como a comunidade LGBT.

E qual é o caminho que é preciso fazer para que o surf chegue a esse patamar ideal? “A nível profissional, era importante mostrar que não há diferenças. As mulheres têm que ser tratadas de forma igual e têm que ter direito aos mesmos espaços. É verdade que há mais homens, mas talvez seja porque nunca abriram o espaço para as mulheres.”

Esse espaço não tem que ser concretizado apenas no mundo tangível – igualdade de prize moneys, investimento por parte dos patrocinadores, mais mulheres no backstage dos campeonatos – mas também no mundo psicológico. É preciso de deixar de pensar no surf como uma actividade masculina.

 

“Saímos a sentirmo-nos bem e fortes, depois de conseguirmos ultrapassar as barreiras de estarmos no mar. Isso depois reflecte-se noutras partes da nossa vida.”

 



Créditos de imagem: Surfinistas

“É comum falarmos com mulheres que surfaram até à adolescência e depois deixaram de surfar porque acharam que não era uma coisa de rapariga”, comenta Patrícia. Se formos capazes de abandonar essa forma de pensar, “o surf e o bodyboard também podem ser uma ferramenta de empoderamento”, que se espalha para todos os aspectos da nossa vida e da sociedade para a qual queremos contribuir: “Saímos a sentirmo-nos bem e fortes, depois de conseguirmos ultrapassar as barreiras de estarmos no mar. Isso depois reflecte-se noutras partes da nossa vida.”

E é isso, no fundo, que querem As Surfinistas. Um grupo pequeno mas a crescer, que leva o activismo ao surf e o surf ao activismo, que se une na luta, na partilha e na felicidade de podermos ser quem somos, livremente, dentro e fora de água.

A mensagem principal é que “toda a gente pode surfar”, e todos têm o direito de estar “bem e felizes" no mar, ou em qualquer lugar – porque “As Surfinistas são muito mais do que surf. Somos companheirismo, quase família. Apoiamo-nos umas às outras. É um surf dentro e fora do mar”.

 

*Por Maria Kopke

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