Uma viagem no tempo com Gonçalo Ruivo- o capitão da Sumatra Surf Trip Por Gonçalo Ruivo
quinta-feira, 03 junho 2021 13:33

Uma viagem no tempo com Gonçalo Ruivo- o capitão da Sumatra Surf Trip

Gonçalo Ruivo é o embaixador do surf português na Indonésia...
 
Atualmente, Gonçalo Ruivo é um dos surf-guides(Guias de Surf) mais experientes nas ilhas de Sumatra na Indonésia. Mentawai, Telos, Nias, Banyak, etc. são, provavelmente, uma das ondas mais perfeitas do planeta. O fundador da Sumatra Surf Trip já conduziu centenas de surfistas de vários cantos do mundo por ondas tão famosas como Macarronis, Lance’s Right, Rifles, Telescopes, Greenbush, Nias, e por muitas outras que ele prefere não divulgar. 
 
 
 
A Surftotal esteve à conversa com Gonçalo, numa viagem pelo tempo, desde quando o engenheiro nem sonhava que este "sonho" de trabalho, um dia, poderia torna-se real. 
 
 
 
Surftotal: Gonçalo a primeira pergunta é obvia: Como tudo começou? O que te levou a começar a fazer viagens organizadas nas Mentawai e outras ilhas/ondas, eventualmente?
 
Gonçalo: A primeira vez que fui à Indonésia, no ano 2000, fui para Bali e G-Land e percebi logo que teria que procurar ondas noutras ilhas porque aquelas já estavam cheias de surfistas. Felizmente, a Indonésia tem milhares de ilhas e de ondas incríveis, mas, para explorá-las, é preciso um barco. Então, nos anos seguintes, comecei a alugar barcos de pesca com amigos para surfar em ilhas remotas, sem crowd. Eram barcos muito básicos, de madeira e cheios de baratas, e com pescadores que não falavam inglês nem conheciam as ilhas para onde eu queria ir.
 
 
 
"Aventuras dignas de filme!"
 
 
 
A cada ano vinham mais amigos e depois os amigos dos amigos e, passados uns anos, e com a experiência que fui adquirindo, percebi que podia viver dedicando-me a organizar viagens de surf. Percebi também que os melhores locais para surfar na Indonésia são, sem dúvida, os arquipélagos da Sumatra: as ilhas Mentawai, Telos, Nias, Banyak, etc.   
 
 
 
 
 
Surftotal: Sabemos que, em Portugal, tiraste a carta de Patrão de Costa, certo? Ou terá sido de outra categoria? O que te levou a fazer tal coisa?
 
Gonçalo: O gosto pelo mar. Cresci junto à praia, o meu pai ensinou-me a navegar à vela em criança, aos 10 anos comecei a surfar e sempre quis ter uma vida ligada ao mar. Após o 12° ano fiz o curso de Navegação da Escola Náutica e depois tirei a carta de Patrão de Alto Mar. Aos 20 e poucos anos já era "skipper" profissional de veleiros no Atlântico e Mediterrâneo. Essa experiência e conhecimentos náuticos foram determinantes para, anos mais tarde, alugar barcos e explorar as ilhas da Indonésia à minha vontade e, hoje, continuam a ser fundamentais na organização e condução das minhas surf trips
 
 
Surftotal: As primeiras viagens que organizaste remontam a que ano? Que barco usavam?
 
Gonçalo: As primeiras viagens de barco na Indonésia foram na segunda vez que lá fui, em 2001, na ilha de Java. Aluguei um pequeno veleiro com um grupo de amigos, passámos pela ilha do famoso vulcão Krakatoa - que ainda está a fumegar - e fomos para a ilha de Panaitan, onde quebram duas ondas alucinantes, talvez as mais incríveis da Indonésia: a super comprida, tubular e rasa esquerda de One Palm Point e a animalesca direita de Apocalipse. Mas não tivemos sorte com o swell... Então, mal terminámos essa viagem, resolvemos lá voltar nas semanas seguintes, mas com o grupo de amigos reduzido a apenas três pessoas (no veleiro éramos oito) tivemos que alugar um pequeno barco de pesca de madeira, baratinho. 
A ilha de Panaitan é um dos incríveis Parques Nacionais da Indonésia e os únicos habitantes são rinocerontes, veados, macacos que tomam banho no mar e lagartos do tamanho de um homem parecidos com os dragões de Komodo a passear nas praias desertas.
 
 
 
 
Surftotal: Quem foram os primeiros aventureiros a ir contigo? Como foi lidar com a tripulação Indonésia pela primeira vez? Onde foi a viagem e que ondas surfaram?
 
Gonçalo: Nessa primeira viagem no veleiro em 2001 éramos oito portugueses: eu, o Rui Leite de Carcavelos, o "Bird" da Parede, o Carlinhos "Willy" (conceituado pintor de pranchas), os manos Miguel "Strabicha" e Ricardo "Matalão" de Ribamar (donos da discoteca Ouriço na Ericeira), o Ricardo Dias e um amigo dele, Bruno. Na semana seguinte, quando lá voltámos no barco de pesca, éramos só três: eu, o Bird e o Willy. 
Lidar com a tripulação Indonésia era sempre um desafio, umas vezes divertido e outras desesperante, porque nenhum de nós falava indonésio nem a tripulação (pescadores) falava inglês. Além disso, nessa altura a cultura muçulmana ainda era uma novidade para nós. Por exemplo, a certas horas do dia, várias vezes por dia, não importa o que estejam a fazer, pára tudo para rezarem virados para Mecca, mesmo a bordo de um barco no meio do mar. E não podemos usar a mão esquerda para nada. Nem para comer, nem para receber ou entregar nada a alguém, nem para pagar ou receber troco, porque essa mão serve para lavar o rabo. 
 
 
Surftotal: E que episódios ficaram para a historia, nesse primeiro ano?
 
Gonçalo: Nessas viagens à ilha de Panaitan, um dia fomos apanhar côcos numa praia completamente selvagem e, de repente, do meio dos coqueiros, ao nosso lado, sai um lagarto com dois metros de tamanho a correr pela areia.... Que susto! Eu nunca tinha visto um bicho daqueles!
 
 
 
 
 
 
"Pescávamos para comer, incluindo lagosta,
 
e surfávamos ondas tubulares com três palmos de água a tapar os recifes de coral"
 
 
 
 
 
 
Lembro-me da primeira noite no barco de pesca, estávamos a tentar dormir e os quatro tripulantes indonésios, todos homens, dormiam amontoados na minúscula cabina do leme separada da nossa apenas por umas tábuas. De repente, começámos a ouvir gemidos sexuais na cabine deles, de diferentes vozes...!  O Willy passou-se e desatou aos gritos e murros nas tábuas (risos).
Nessa primeira viagem, em 2001, tivemos várias sessões de surf inesquecíveis em Ombak Tujuh, uma esquerda perdida na selva, e uma dessas sessões com tubos de três metros. Sempre sozinhos!
 
 
 
 
 
 
"Sessões de surf inesquecíveis em Ombak Tujuh,
 
uma esquerda perdida na selva,
 
e uma dessas sessões com tubos de três metros. Sempre sozinhos!"
 
 
 
 
 
Surftotal: Após essa primeira viagem, percebeste que era uma actividade para manter? O que mudaste ou, aliás, o que foste mudando e melhorando até chegar ao Sumatra Surf Trip dos dias de hoje?
 
Gonçalo: Essa surf trip na Indonésia serviu para perceber que queria fazer muitas mais. As primeiras idas à Indonésia, entre 2000 e 2005, foram viagens de férias com amigos, e não imaginava que um dia viria a fazer disto a minha vida. A Indonésia é o maior arquipélago do mundo, com mais de 15.000 ilhas tropicais espalhadas ao longo de mais de quatro mil quilómetros e depressa percebi que existiam milhares de ondas para explorar e que teria que lá ir muitas vezes. Voltei lá com amigos todos os anos, explorando as ondas em zonas diferentes: Nias, Mentawai, Lombok, Sumbawa, Sumba, Rote, Timor (etc), mas só comecei a fazer viagens "comerciais" em 2006, quando já havia muitos surfistas que queriam ir comigo. Nos primeiros anos, só fazia duas ou três viagens por ano, porque ainda trabalhava em Portugal, nessa altura como engenheiro. Em 2009, havia tanta gente a querer acompanhar-me que decidi deixar a engenharia para me dedicar às surf trips na Indonésia. Isso obrigava-me a passar metade do ano lá, mas como não tinha mulher nem filhos foi uma decisão fácil. 
 
 
 
 
 
 
 
O que foi mudando ao longo dos anos foram os barcos que utilizava, que passaram logo a ter que ser decentes e seguros, porque passei a ter clientes de todo o lado em vez de apenas amigos aventureiros. A organização das viagens também evoluiu muito devido à experiência que fui adquirindo, à aprendizagem da língua Indonésia, à descoberta de ondas sem ninguém e, nos últimos anos, à profissionalização de toda a operação. Os barcos melhoraram muito, dos pequenos barcos de pesca há 20 anos atrás para barcos grandes (25-30 metros, com dois motores e dois geradores), construídos especificamente para viagens "live-aboard", com todo o conforto e segurança, ar condicionado, a electrónica mais moderna (GPS, Radar, telefones satélite, sistema AIS, etc.), lanchas de apoio com motores de 200 cv., barcos de back-up em caso de avaria, equipas profissionais em terra, comida excelente, serviço fotográfico/vídeo, entretenimentos para os/as clientes que não fazem surf, professor de yoga, pesca grossa, acompanhamento personalizado desde a chegada ao aeroporto, viagens desenhadas para famílias ou para grupos de competição, enfim, tudo o que um surfista em férias pode desejar. 
 
 
 
 
 
"A primeira surf trip na Indonésia serviu para perceber que queria fazer muitas mais.
 
Não imaginava que um dia viria a fazer disto a minha vida"
 
 
 
 
 
 
Surftotal: Hoje em dia (e antes da Pandemia) o ritmo de surf trips que organizavas era consistente, certo? Tiveste que cancelar muitas viagens devido à situação do Covid 19? 
 
Gonçalo: Sim, nos últimos anos fiz entre 10 e 15 surf trips por ano e para 2020 tinha 20 viagens marcadas, com mais de 200 surfistas de todo o mundo. Seria non-stop de Fevereiro até Novembro. Ainda fiz as duas primeiras viagens, mas, em Março, parou tudo e as restantes surf trips foram canceladas ou adiadas para 2021. Estamos todos a rezar para que possam ser realizadas brevemente! 
 
 
 
 
 
Surftotal: Sentes que o sonho se concretizou? És um homem realizado com o Sumatra Surftrip? Porquê?
 
Gonçalo: Sem dúvida! Adoro o que faço e também a vida que isso me permite ter, com uma temporada baixa de 3-4 meses em que posso descansar das surf trips e viajar para as montanhas e destinos diferentes. 
Na verdade, nem imaginava que esta "profissão" existia (risos). Depois de trabalhar como "skipper" de iates e, mais tarde, vários anos como engenheiro, sinto que hoje tenho o melhor trabalho do mundo: surfar pelas ilhas tropicais da Indonésia, num barco cheio de amigos, com ar condicionado, dois cozinheiros e uma tripulação que nos trata como príncipes. Eu nem precisava de ganhar dinheiro para fazer isto (risos).
E a cereja no topo do bolo é ver os sorrisos de felicidade dos nossos clientes, ouvi-los dizer que fizeram as melhores ondas das suas vidas, ou o seu primeiro tubo, e fazer amizades para a vida!
 
 
 
 
 
 
 
"Na verdade, nem imaginava que esta "profissão" existia.
 
Eu nem precisava de ganhar dinheiro para fazer isto (risos)"
 
 
 
 
 
 
Surftotal: Agora falando deste próximo ano de 2021, com certeza as pessoas vão querer começar a viajar para a Indonésia mal possam. Nota-se uma certa ansiedade nas pessoas a quererem voltar a viajar. O que tens organizado? Muitas viagens já marcadas e reservadas no Sumatra Surf Trip?
 
Gonçalo: Sim, todos os surfistas estão desejosos de voltar a viajar para destinos de água quente e ondas perfeitas e, para isso, a Indonésia é a Mecca. Neste momento, já temos 17 surf trips marcadas para 2021 e duas para 2022. 
Espero poder retomar as operações em Março, obviamente adaptando à nova realidade determinada pela pandemia. É provável que seja necessário fazer testes à Covid-19 a todos os passageiros e tripulantes antes de embarcarem para cada viagem. 
 
 
 
 
 
 
"Neste momento, já temos 17 surf trips marcadas para 2021 e duas para 2022"
 
 
 
 
 
Surftotal: Que novidades para 2021? Com que Barcos e destinos os teus guests podem contar?
 
Gonçalo: Nesse aspeto, não haverá grandes novidades, porque a fórmula que temos usado já é próxima do que achamos ideal. Continuaremos a trabalhar com os três barcos de que gosto: o Melaleuca e o Kaimana 1, que são barcos de gama média, e o Kaimana 2 que é de gama média/alta. 
Os nossos destinos preferidos continuam a ser os arquipélagos da Sumatra: Mentawai, Telo, Nias/Hinako e Banyak. São os melhores locais do mundo para fazer surf trips, não só devido à excepcional qualidade das ondas, mas também - e muito importante - devido às condições para navegar com conforto e segurança.
 
Para quem nunca fez uma surf trip nas ilhas da Sumatra, recomendo que a faça logo que possa, pois nunca se sabe o dia de amanhã. Hoje é uma pandemia, amanhã uma guerra ou sabe-se lá o quê...!
Os preços médios do barco rondam os 2.000 Euros, a que acrescem cerca de 1.000 Euros dos voos para a Indonésia (total ~3.000 €), para 2 semanas de férias e surf com tudo incluído.
 
 
 
 
Rui Costa foi um dos amigos de Gonçalo Ruivo que embarcou na primeira viagem à Indonésia e guarda grandes recordações destes tempos.
 
Estivemos também à conversa com Rui, que nos deixou um testemunho sobre estas aventuras: 
 

 

"Começámos a viajar em 2005 de barco e nos primeiros dois, três anos o que o Gonçalo fazia era uma coisa de amigos, não era um negócio. O Gonçalo e mais um amigo nosso iam um mês para a Indonésia e diviam o barco por quinzena: numa quinzena iam uns amigos e noutra outros. Era um barco de pescadores, típico de Padang, arranjado por nós. O Gonçalo preparava a maior parte das coisas e depois nós, o resto dos amigos, ajudávamos a carregar gelo para manter a comida fresca, um fogão tipo campingás, protegíamos o barco com uma proteção de impermeáveis para podermos estar deitados, porque o barco não tinha zona coberta, era todo aberto. Na verdade, para mim, foram os melhores tempos.

 

 

 

"Quando fomos para a Indonésia

 

sabíamos que com o Gonçalo estávamos bem entregues"

 

 

 

Mais tarde, isto veio a torna-se uma coisa tão conhecida e viral (através do "passa a palavra") que as pessoas queriam todas viajar e ter esta experiência e o Gonçalo acabou por montar um negócio. Não foi com um barco de pescadores, foi com um barco de qualidade e na altura até brincava com ele dizendo que tinha perdido um bocadinho a essência. As nossas viagens eram de 15 dias (e não de 10) e passávamos por tudo: basicamente o Gonçalo tinha o GPS e tínhamos umas cartas marítimas que liamos e assinalávamos os picos que queríamos ir e partíamos à descoberta. Às vezes até um bocadinho inconscientes: lembro-me de estar nas Mentawai e barcos australianos e brasileiros falavam do "barco dos portugas" como "malucos". Nós fazíamos rotas que mais ninguém fazia e era num barco de pescadores. Quando parávamos num pico, nunca sabiam se éramos um barco de pescadores ou de surfistas (porque quando um barco está há muito tempo parado numa onda é porque naquele sítio está bom, mas com o nosso barco acabavam por não ter essa referência).

 

 

 

"Nós fazíamos rotas que mais ninguém fazia e era num barco de pescadores"

 

 

Temos muitas histórias por contar e muitas ondas pouco conhecidas surfadas, principalmente as Telo. Lembro-me de que quando começámos a ir às Telo ninguém as conhecia (nem as pessoas das Mentawai as tinham como rota). Começámos a ir lá neste grupo grande e tivemos essa sorte de ser dos primeiros portugueses a surfar as Telo e algumas ondas até percebemos mais tarde que tínhamos sido os primeiros a surfar. O Gonçalo sempre teve esta aptidão por descobrir novas ondas, tinha essas valência porque fez vela desde sempre e quando fomos para a Indonésia sabíamos que com o Gonçalo estávamos bem entregues."

 
 
É possível consultar tudo em www.sumatrasurftrip.com e na página do Instagram SumatraSurfTrip.
 
 
 
 
 

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