ENTREVISTA EXCLUSIVA - O OUTRO LADO DO ROB MACHADO Foto: Michael Wesley

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quarta, 22 abril 2020 18:27

ENTREVISTA EXCLUSIVA - O OUTRO LADO DO ROB MACHADO

Numa conversa descontraída à Surftotal....

 

 

Rob Machado não é apenas um dos maiores surfistas do mundo, é um ícone vivo que continua a expandir a definição do que é o surf. Conhecido pelo seu fluxo zen, tanto em terra como na água, Rob Machado esteve no topo do ranking como competidor no ASP World Tour. Com 12 vitórias na sua carreira no WCT (agora Championship Tour)  Rob Machado ficou entre os dez melhores surfistas do mundo durante onze anos consecutivos.

A sua contribuição para o desporto não termina com os seus feitos competitivos. Desde que se retirou da competição em 2001, Rob tem percorrido o mundo e surfado as suas melhores ondas enquanto aprofunda o seu compromisso com várias causas ambientais.

A Surftotal esteve à conversa com esta lenda do surf e comprovou em primeira mão que a boa vibe e a descontração é algo que lhe corre no sangue de forma tão fluída como a água no mar.

 

Foto: Facebook/Rob Machado

 

O filme Momentum Generation reflete o impacto que a vossa geração teve nas gerações seguintes e não só. Sentiste que as experiências que viveste durante o processo de filmagens do filme se tornaram mais importantes para ti e te tornaram um melhor surfista do que a experiência que ganhaste durante a tua carreira competitiva?

 

Nessa altura da minha vida estava tudo a acontecer ao mesmo tempo em que eu competia a tempo inteiro. Foi uma altura bastante louca no sentido em que viajávamos todos juntos, competíamos uns contra os outros, e ainda filmávamos com o Taylor. Aconteceu muita coisa durante esses anos. Acho que foi algo monumental, muito benéfico por termos crescido todos juntos. Alimentávamos-nos uns dos outros, apoiávamos-nos uns nos noutros para sobrevivermos. Na altura não havia telemóveis, estávamos a viajar o mundo por nossa conta e formámos uma espécie de um grande grupo de irmãos. Ajudámos-nos uns aos outros nos tempos difíceis, celebrámos os bons momentos e é por essa razão que somos amigos até hoje.

 

Uma das características pela qual és conhecido é pela tua boa vibe. Lembro-me de te ver competir no Figueira Pro, em Portugal, em 2000, contra o Taj Burrow, e uma das imagens que mais me marcou foi ver a tua abordagem que refletia e transmitia calma e boa vibe. Achas que essa foi a chave para o sucesso na tua carreira competitiva?

 

Ser calmo e ter uma boa atitude no oceano foi algo que aprendi bastante cedo. Lembro-me de um dia, quando estava a surfar imenso, após ter feito uma onda até à areia, o meu pai dizer-me para, em vez de pegar na prancha e voltar logo para o mar, ficar simplesmente ali, contar até dez e respirar, pois eu iria recuperar tanto nesses dez segundos que iria chegar lá fora mais depressa. Essa foi uma das lições que aprendi. A outra lição é que o oceano é um local muito poderoso. A quantidade de respeito que aprendes a dar ao mar. Nunca sentes que és melhor que o mar, que és mais forte, que estás acima dele. Ele está sempre por cima e tens que o respeitar. Eu sempre achei o mar muito relaxante, é o local onde vou para me sentir calmo, sentir-me feliz, e volto sempre uma pessoa melhor. É muito purificador.

Eu tive que aprender a competir neste mesmo ambiente, o que foi desafiante porque tu entras dentro de água e tentas vencer a outra pessoa, surfas o teu melhor e és competitivo, mas ao mesmo tempo quando voltas para a praia voltas a ser a pessoa calma e centrada que eras antes de remares lá para fora e isso foi algo que eu tive de aprender – a deixar tudo na água após tirar a licra, aprender com a experiência e crescer.

 

Foto: Wavegarden

 

Em tudo o que te vemos fazer mostras sempre uma energia positiva e até contagiante, o que nos faz pensar que talvez tenhas super poderes. Como consegues conciliar a tua vida familiar, ser shaper, o teu trabalho comunitário, a música, o surf e ainda manter esse espírito alegre? Queres revelar o teu segredo?

 

Eu não acho que haja nenhum segredo. Eu apenas tento manter uma atitude positiva aconteça o que acontecer. Eu sinto sempre que algo de bom vai surgir de uma situação. Estamos numa situação bastante precária neste momento, a lidar com este vírus, e é desafiante para todos de formas diferentes. Eu acho que quando tudo terminar vamos olhar para trás, refletir e alguma coisa de positivo vai surgir de tudo isto e sairemos todos daqui com algo diferente. Acho que a forma como vivemos vai mudar. A forma como vemos as coisas, como passamos o nosso tempo e o respeito que temos. Acho que esse tipo de atitude na realidade é olhar para tudo de uma perspetiva positiva, não importa o que aconteça. É manteres as expetativas não muito baixas mas realistas e se as coisas não resultarem da forma como gostarias, simplesmente não resultam e segues em frente. Eu simplesmente tento não deixar que muitas coisas me perturbem. Esse é o meu segredo.

 

A grande parte dos trabalhos que desenvolves, nomeadamente o shape, a música e até mesmo o trabalho que fazes na tua fundação, tem uma componente muito criativa. Onde encontras inspiração?

 

A inspiração está em todo o lado. No caso das pranchas olho para o início do surf e sinto-me inspirado pelas primeiras pranchas que as pessoas usaram. Entre essa altura até ao momento presente há inspiração em todo o lado, apenas tens de ter os olhos abertos. Na vida é igual. Há tanta criatividade lá fora. Agora, as pessoas têm tantas formas de colocar tudo no mundo que tudo está acessível. É um momento único em que temos acesso a tanta criatividade. Então, estou constantemente inspirado, todo o dia, todos os dias, por pessoas, por coisas, por lugares. Tudo é inspirador para mim.

 

Foto: Michael Wesley

 

Tens partilhado um pouco da tua alimentação nas redes sociais e a realidade é que cada vez vemos mais surfistas da elite mundial a preocuparem-se com aquilo que comem de forma a melhorarem a sua performance. Como descreves a tua alimentação e como achas que ela influência a tua performance no surf?

 

Eu fui criado como vegetariano. A minha mãe estava muito consciente da comida que nos servia quando era criança, muitas frutas e vegetais, e muito pouca carne. Comia carne só ocasionalmente, mas na maioria das vezes era peixe, às vezes frango. Eu mantive essa dieta ao longo da minha vida. Eu realmente acredito que o que colocamos no nosso corpo é algo super importante, é o combustível que nos torna mais limpos, então inspirei-me na forma como as pessoas abordam diferentes tipos de dietas, mas nunca mergulhei numa forma específica de alimentação. Eu sempre acreditei em comer de tudo com moderação, não estou preso apenas a comer proteína, ou apenas isto ou aquilo. Eu experimento tudo. Se estou em algum lugar e alguém se esforça para me apresentar uma refeição de carne não vou dizer que não como carne. Sinto-me honrado e, é claro, vou provar. Vou provar de tudo. Há tanta coisa no mundo para experimentar e em que me inspirar, de forma que a comida é inspiradora. Eu tenho passado algum tempo com um bom amigo do Japão, o nome dele é Rip Zinger, e ele inspirou-me e levou-me a ser mais criativo com a comida, a não ter medo de explorar e experimentar. A alimentação é realmente algo muito importante para mim e para a minha família.

 

Sabemos que tens rituais matinais que incluem algumas bebidas, o que nos faz pensar se  não será essa a chave para a tua energia infindável. Podes partilhar com os leitores da Surftotal a tua rotina e a tua bebida favorita para dar um boost de energia antes de uma surfada?

 

Os meus rituais matinais mudaram bastante no último mês. Quero dizer, as coisas ficaram meio que viradas de cabeça para baixo, mas está tudo bem. Se removermos o surf do meu mundo neste momento, o meu foco vai diretamente para acordar bem cedo. Faço uma caminhada rápida com o meu cão, apenas para aquecer o corpo, e volto diretamente para casa. Geralmente faço alongamentos, yoga e algum tipo de treino físico durante uma hora, antes da minha família acordar. Depois costumo tomar um chá que o meu amigo Rip Zinger tem feito. O chá é uma mistura de cúrcuma, canela, cardamomo, pimenta caiena, maca, mel, pimenta preta, óleo de mct, óleo de coco e ghee.  Depois não como nada até à hora do almoço. Normalmente, se vou surfar, gosto de colocar algum tipo de comida no meu corpo, apenas para me dar alguma energia, mas nada em específico, pode ser algo simples como uma torrada com abacate para colocar alguns nutrientes no meu corpo. Normalmente, se for surfar, depois como uma taça de açaí, sem açúcar, com leite de amêndoa e todo o tipo de toppings, como nozes e frutas, para colocar algo super saudável no meu corpo à hora do almoço. Ao jantar vario entre legumes, saladas ou peixe grelhado. É mais ou menos isso.

 

Estamos a enfrentar um momento difícil a nível global devido ao novo coronavírus que atingiu o mundo violentamente e de forma inigualável. Como é que a comunidade do surf na Califórnia está a lidar com esta situação?

 

Sim, estamos a lidar com um momento único. Acho que nenhum de nós jamais viu algo assim e espero que nunca mais vejamos. Todo o planeta está congelado devido a este vírus. Estamos todos trancados devido ao vírus, em alguns locais de forma mais rigorosa do que outros. A comunidade do surf no sul da Califórnia é interessante. Ainda há algumas praias onde se pode surfar, como Huntington Beach e Newport Beach. Onde eu moro, em San Diego, todas as praias estão fechadas. Estamos todos focados em ficar em casa e fazer a nossa parte, então eu acho que as pessoas estão a começar a ficar frustradas. Acho que os surfistas realmente não acham que estão a colocar outras pessoas em perigo ao surfar. Os line ups estão cheios de crowd mas eu não acho que as pessoas estejam a surfar com um metro e meio ou mesmo um metro de distância entre elas, por isso eu acho um pouco estranho que o surf tenha sido  retirado da lista. Se vão interromper as atividades, então têm que interromper todas. E foi aqui que as coisas ficaram um pouco estranhas na Califórnia. Não é possível surfar e passear em algumas praias, mas podes andar de bicicleta e correr, de forma que há muitas pessoas a manterem-se ativas, mas não tens permissão para ir à praia e ir surfar. Eu não sei, é um pouco confuso, mas tenho esperança que possamos encontrar uma saída e voltarmos ao mar e a fazer aquilo que gostamos. Até lá eu vou-me divertindo. Tenho passado muito tempo em casa com a minha família, tenho feito muitas coisas em casa que tinha colocado de lado, projetei e consegui focar-me em muitas coisas e isso é incrível. Isto fez-me apreciar coisas que eu talvez tenha deixado de lado por um tempo, por isso tem sido bastante bom.

 

Foto: Firewire

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