Filipe Toledo no Rip Curl Pro Bells Beach Filipe Toledo no Rip Curl Pro Bells Beach Matt Dunbar/World Surf League sexta-feira, 22 abril 2022 13:50

A análise de Pinga ao Rip Curl Pro Bells Beach e ao mid-season cut

Em entrevista exclusiva à SurfTotal

 

Quando Luiz Henrique Saboia de Campos, um dos responsáveis pela Brazilian Storm e mais conhecido por Pinga, tem algo a dizer sobre o Tour, apressamos-nos a ouvir, sobretudo quando estão no ar questões de relevo tal como a  última etapa em Bells Beach, que gerou confrontos acesos, e a polémica oriunda do mid-season cut.

Assim como a WSL tem uma opinião firme em relação à tentativa de esmorenar o corte a meio da temporada, Pinga também não precisa de pensar quando questionado sobre a sua posição. Não é a favor e acredita que resultará em “perdas enormes”, tanto financeiras como psicológicas para o atletas. Além disso, aponta também que falhou o sentido de oportunidade por parte da elite para lançar a petição contra o cut.

Em relação ao julgamento de Bells Beach e consequentes reações, Pinga, considerado um dos maiores formadores e treinadores brasileiros, prefere abster-se mas deixa saliente que a conversa, necessária a seu ver, tem que ser o princípio base e que a “meritocracia tem que prevalecer sempre.”

 

Pinga com alguns membros da Brazilian Storm

 

P: O que na tua opinião marcou mais esta etapa (dentro e fora de água)?

R: Com certeza temos que focar mais no surf, no que aconteceu dentro de água. Tivemos um campeonato que começou com más condições, mas o mar melhorou. Ficámos um pouco apreensivos com as primeiras chamadas porque realmente as condições estavam bem abaixo do potencial que há, tanto no Bowl como Winkipop. Mas dentro de água foi muito bom, vimos um nível muito alto. Vários surfistas conseguiram performar, vimos excelentes baterias, médias bem altas. Acho que é isso que vale, é o que temos valorizar. As coisas que aconteceram fora de água acho que têm que ser resolvidas internamente, com muita conversa e com muito alinhamento.

 

"A situação que ele [João Chianca] está a viver hoje realmente mostra a injustiça e o erro do corte"

 

P: Quais os surfistas que a teu ver mais sobressaíram?

R: Na minha opinião temos que dar destaque a vários surfistas na etapa de Bells. A começar, claro pelo Filipe, que fez um campeonato muito forte, um campeonato cirúrgico, como se diz. Com um comportamento muito inteligente, uma mentalidade competitiva muito forte, aliado ao talento e ao surf dele. Ele conseguiu trabalhar muito bem cada bateria, trabalhou muito bem a prioridade, e é isso que conta. Performou muito bem e ganhou o campeonato com muito mérito.

O John John fez algumas boas baterias. O Callum esteve bem, surfou muito bem no campeonato. Eu gostei muito do Ethan Ewing como sempre, sou fã do surf do Ethan Ewing. Mas temos que dar destaque ao João Chianca. Ele mostrou um surf muito forte, de altíssimo nível, de ataque, de approach, manobras grandes, variação, que é o critério pede. E a situação que ele está a viver hoje realmente mostra a injustiça e o erro do corte. Porque surfistas como ele e outros estão nessa situação no meio do ano não terão tempo de conseguirem adaptar-se e assim se recuperarem no ranking.

 

João Chianca | Créditos de imagem: Ed Sloane/World Surf League

 

"Acho que é nítido que alguma coisa tem que ser mudado [no julgamento]"

 

P: Sentes que houve algum caso de julgamento digno de ser falado?

R: Em termos de julgamento prefiro abster-me. Da mesma forma que disse que os assuntos que aconteceram fora da água têm que ser discutidos na mesa, com muita tranquilidade entre todos os envolvidos, também acredito que tudo relacionado ao julgamento tem que ser conversado. Temos vistos algumas coisas e eu acredito que a comunicação, a conversa, o entendimento, é o caminho a seguir. Mas acho que é nítido que alguma coisa tem que ser mudado. Não sei como, não sei o que tem que ser feito, mas com certeza, se as pessoas conversarem e se entenderem, a pensar sempre no melhor do surf, na meritocracia… Acredito que a meritocracia tem que prevalecer sempre.

 

Italo Ferreira após saber já na areia que Jack Robinson tinha virado a bateria com a última onda | Créditos de imagem: Matt Dunbar/World Surf League

 

"Temos que valorizar as oportunidades que os atletas merecem ter pelo sacrifício e entrega que tiveram para conquistar uma vaga no CT"

 

P: Após a entrega da petição assinada por grande parte dos atletas para evitarem o corte, houve uma resposta da WSL a dizer um não redondo e após isso houve uma reunião com os atletas. Houve algum resultado prático dessa reunião?

R: A respeito da petição e da resposta da WSL, sou muito tranquilo em falar sobre isso, já tenho tocado neste assunto há bastante tempo. Inclusive conversei com a World Professional Surfers, que representa os surfistas junto à WSL, para passar à WSL o que os surfistas querem e pensam em relação a tudo. Eu sugeri no começo do ano uma reunião entre todos os atletas para falar sobre o corte. Não tive uma resposta, um retorno muito positivo em relação a isso.

A hora foi errada. Eu sou contra o corte, todos sabem disso, não sou a favor do corte. Acho que temos que valorizar o desporto e as oportunidades que os atletas merecem ter pelo sacrifício e pela entrega que tiveram para conquistar uma vaga no CT. Não têm tempo de adaptação, eu não concordo. Mas acho que tudo tem o seu tempo e tudo tem o seu momento. Se a petição tivesse sido feita no Havai no início do ano, antes de Pipeline, ou entre Pipe e Sunset, o momento poderia ter sido mais adequado para conseguir algum tipo de mudança. Podia nem acontecer nenhuma mudança, mas o momento seria mais adequado, e não agora, em cima da hora, depois de tudo já ter acontecido. Podiam ter-se posicionado antes, até, em 2020 ou 2021, e não ter deixado tudo acontecer para virem agora querer fazer algo. Achei bom o movimento deles, acho que eles têm que se posicionar, sim, mas nos momentos adequados, na hora certa. O Havai poderia ter sido um bom momento. As chances de terem conseguido mudar alguma coisa no Havai seriam bem maiores do que agora.

 

Filipe Toledo e Tyler Wright foram os vencedores do Rip Curl Pro Bells Beach | Créditos de imagem: Matt Dunbar/World Surf League

 

 

P: É verdade que com o Cut os atletas vão ter mais dificuldade em angariar sponsors? Que mais implicações haverá?

R: Sobre o lado dos negócios em relação ao cut, com certeza. Os atletas que ficarem fora no meio da temporada vão ter perdas financeiras, psicológicas. As perdas são enormes. Temos que lembrar que os atletas são seres humanos, e têm a vida pessoal também, além da vida profissional. Todos eles passam por situações, problemas pessoais, eu sei de vários atletas que estão a passar por várias situações delicadas na vida pessoal, e ainda têm o corte no meio do ano, então o nível de stress está muito alto, o nível de tensão está muito alto. Porque envolve muita coisa. Envolve cláusulas contratuais de perda de salário. Grande parte dos atletas têm nos contractos que caso deixem de estar no CT, vão ganhar menos. Os patrocinadores vão pagar menos. Em alguns casos correm o risco de o patrocinador ter a opção de continuar ou não com o contracto, com o atleta fora do CT. Fora a parte dos prémios monetários. Não há comparação entre o prize Money do CT e o prize Money do Challenger Series. E o custo. O atleta agora não vai ter cinco eventos os quais estavam dentro de seus planejamentos, e sim um novo circuito, onde além de terem de custos maiores e premiação menores, terão de viajar ao redor do Mundo novamente.

Acredito que mudanças são válidas e importantes, mas acho que devem ser muito bem pensadas, analisando os impactos que podem ter em todos âmbitos, desportivos também. Devemos sempre valorizar o Surf,  a sua cultura, o seu ambiente, que é o que atrai as grandes empresas, que querem estar associadas a isto. Chegamos a este ponto, de até mesmo virar deporto olímpico sendo o que sempre fomos.

Devemos ter um olhar mais 360º das coisas, vermos o negócio sim, mas tudo que envolve o ecossistema do surf. O deporto tem de ter meritocracia, respeitar quem trabalhou e buscou um objetivo.

Temos vários exemplos de eventos que foram no caminho de redução de atletas e etc... Como o próprio X Games, que hoje não chega nem perto do que era. Tornou-se um evento de TV sem muito destaque.

Outro ponto é a Globalização, se temos como foco crescer o desporto, precisamos de mais atletas de diferentes países disputando. A própria regra e ideia dos Jogos Olímpicos é ter desportos que sejam disputados em alto nível pela maior quantidade de nacionalidades que puder. E nos negocios também, empresas e marcas são ou estão a globalizar-se.

 

Recorde-se que a próxima etapa, a última antes do mid-season cut, em Margaret River, decorre de 24 de abril a 4 de maio. O corte a meio da temporada significa que avançam para as restantes 5 etapas, apenas os primeiros 22 homens colocados no ranking e as primeiras 10 mulheres.

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