Pedro Barbosa Pedro Barbosa

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segunda, 27 julho 2015 09:23

Pedro Barbosa: juiz internacional analisa o J-Bay Open

Todos os detalhes da última etapa do Championship Tour.




Jeffreys Bay, na minha opinião, a melhor onda do World Surf League, onde o surf de alta performance pode ser conjugado com tubos. “Hometown” de um dos surfistas mais carismático e inteligentes que o surf já produziu, pai do surf moderno e grande referência na África do Sul e no mundo, o grande Shaun Tomson.

 

Início da prova com ondas sem grande qualidade, mar mexido sempre na expectativa de ver um ‘local hero’ ao nível de um Sean Holmes mas nada do mesmo calibre, no entanto, alguns pormenores interessantes do novato Slade Prestwich.

Sean Holmes

 

Nas primeiras rondas nada de muito relevante, as previsões não eram muito animadoras e a organização teve necessidade de avançar com a prova. Alguns surfistas começaram a demonstrar que, independentemente das condições, o surf de rail era diferente e a velocidade que conseguiam gerar nas difíceis condições estava noutro patamar.

 

Alguns factos do evento:

- Adriano de Sousa, líder do ranking, em virtude da prova não ter sido concluída apresenta níveis de consistência mais baixos e não parece estar com o mesmo 'drive' do inicio de ano;

- Julian fez um excelente resultado com surf sólido mas não surpreendente e ele próprio fez essa referência: “I feel I still haven’t had the heat that I’m waiting for”. Parece que segue a fórmula que o Slater usou durante muitos anos fazendo a gestão dos heats apenas de acordo com a necessidade... para chegar à final e vencer de forma brilhante! Vamos ver se é ou não um sério candidato ao título mundial;

- Medina fez a manobra do ano (até ao momento) em Jbay e parece estar de volta;

- Toledo, bem aquém das expectativas nas ondas de referência do World Tour e apesar de não ter o 'drive' competitivo do Medina, tem um excelente fair play. Gostei de ver a forma como celebrou a vitória do seu adversário e amigo Alejo Muniz, mesmo comprometendo a sua ascensão a nº 1 do Ranking.

 

Melhor performance:

Decisão ligeiramente mais difícil que na prova anterior. Apenas ligeiramente porque existiu claramente um surfista que foi o melhor do evento e a estatística ajuda-nos a tirar estas dúvidas. Neste evento a disputa esteve entre dois surfistas: Mick Fanning e Kelly Slater. A minha escolha recai sobre o Mick, passo a explicar a minha opinião:

Mick – Utilizando as excelentes descrições do Ross Williams e não conseguindo eu traduzir da melhor forma aqui vai:

“Mick is like a surgeon, he gets speed out of any manoeuvre, accelerates out of any manoeuvre, this tells you how perfect is surfing is”.

É exactamente o que penso. A precisão e velocidade com que o Mick surfa em conjunto com a utilização do rail em toda a amplitude da onda estão noutro patamar, não existem quebras e perdas de velocidade e quando existem são muito bem corrigidas e compensadas. Eu arriscaria a dizer que o Fanning é o melhor surfista do Mundo em point breaks de direitas com algum volume de água – Jbay e Bells - no entanto a falta de progressividade ou a níveis muito inferiores, relativamente a alguns adversários directos, pode vir a ser um factor a ter em consideração nos próximos anos.


Relativamente ao Kelly teve momentos brilhantes contudo, por vezes e na minha opinião, parece que surfa com pranchas muito pequenas e por vezes perde ligeiramente o controlo na finalização e entre algumas manobras.


Estatística:

A partir dos quartos de final e no seu caminho até à final Mick teve sempre os scores mais altos, sempre acima dos 18 pontos.



O surfista com factor X:

Para o surfista com factor X, tenho de eleger o Gabiel Medina. Ninguém surfa Jbay de backside desta maneira com 21 anos. O Owen é muito forte, o Buchan também e o Wilko é fabuloso mas o Medina está noutro patamar. A junção do ataque vertical às secções críticas com o surf progressivo e com a realização da manobra do campeonato fazem com que esta nomeação tenha sido relativamente fácil. Que me perdoem os amantes do surf progressivo, de entre as diversas ondas do Medina, eu optei por escolher esta:



O surfista em ascensão:

O surfista que mais posições subiu no TOP 10 (5 posições) - Kelly Slater. Acredito que pareça estranho nomear o melhor surfista de todos os tempos como o surfista em ascensão, mas mais uma vez isso mostra a sua genialidade incomparável que devemos aproveitar porque dificilmente se vai repetir. Foi bom ver o Kelly nas meias-finais, a última vez que ganhou uma prova foi PIPE em 2013. Isto mostra que o seu drive competitivo já não é o mesmo no entanto algo de surpreendente ainda pode acontecer…

Na meia-final cometeu um erro táctico quando com prioridade se precipitou para apanhar uma onda sem grade potencial e Mick ficou sozinho para apanhar a maior onda do heat e fazer um 9.63.



As ondas e as decisões dos calls:

Relativamente aos calls nada a dizer, não tivemos um Jbay de gala, as condições pareciam estar muito boas para a final.

A decisão de cancelarem o evento foi sensata, não me parece que existisse outra alternativa. Deparámo-nos com uma situação insólita no surf que terá obrigatoriamente consequências e modificações no circuito, aguardamos para ver. Queria apenas valorizar a forma como a situação foi gerida por todos os responsáveis e enaltecer a atitude de companheirismo e entreajuda entre staff técnico e atletas, sem dúvida um exemplo.



O Julgamento e os casos da prova:

Mais uma vez o julgamento foi muito bom, os atletas que deveriam ter passado os heats passaram. Estamos a falar dos melhores juízes do mundo e realmente a consistência que têm é impressionante. A única observação que faço, com a perspectiva de quem vê a prova sentado no sofá e não na praia, é que na zona do excelente na escala, entre 8 e 10, por vezes as comparações poderiam ser mais rigorosas. Existem 9’s que me parecem mais 9’s que outros, se bem que as condições do mar têm uma influência na avaliação.

Segue um exemplo de 2 heats seguidos, em que a onda do Jadson foi um 9.07 e a do Wiggolly foi um 9.0. Na minha opinião a do Wiggolly é consideravelmente melhor, pela qualidade e intensidade das manobras.

Façam a vossa avaliação:




Casos da prova

O aparecimento de tubarões na prova já tinha acontecido no passado em Jbay com o Taj e também com ele num WQS em Margaret mas sem o impacto e consequências que teve agora. Os tubarões estão no seu ambiente natural mas a Direção do WSL tem de tomar medidas para prevenir o máximo possível que em situações futuras os impactos possam ser outros. De qualquer forma, das diversas opções que possam existir, espero que tenham sempre em consideração a preservação do ecossistema.

 


 

  

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