É impossível não ser surfista. É impossível não ser surfista. Foto: DR

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segunda, 21 novembro 2016 16:01

O ESTADO DO SURFISTA

Os vários grupos/tipos de surfista em análise… 

 

O surfista tem sempre um objetivo comum que é a busca pelo surf. No entanto, para lá chegar, pode ter comportamentos diferentes. 

 

Existe o surfista empresário que toma a decisão de trabalhar para poder fazer o que mais gosta. Entre estes temos os surfistas que fizeram o seu negócio dando prioridade ao estilo de vida em detrimento de ter mais dinheiro na conta bancária. Embora se saiba que, muitas vezes, o dinheiro acaba por aparecer como consequência. 

 

Um bom exemplo é a Semente. O Nick e o Miguel optaram por ter a sua fábrica na Ericeira numa altura em que as estradas eram precárias e o consumidor surfista estava mais centrado na cidade. A prioridade na localização foi o estar perto do mar com boas ondas. Nessa altura, estamos a falar do início da década de 80, os clientes não apareciam facilmente e nem ao fim de semana. 

 

Inevitavelmente, pelas suas caraterísticas perfeitas para a modalidade, o surf explodiu na região e a Semente tornou-se uma das marcas de maior prestígio no país. Foi feita a pensar mais na proximidade das “boas ondas” do que nas “boas oportunidades de negócio”. Bem, não foi por isso que não vingou.

 

O surfista empresário que coloca “as boas ondas” à frente das “boas oportunidades” não deixa de ser trabalhador. Pelo contrário, ele trabalha com alegria e autenticidade, prezando, acima de tudo, a sua liberdade. Ele gere sempre que possível o seu tempo em função das ondas, mas a qualidade de vida tem de prevalecer. 

 

Há também o surfista empresário "sem tempo para se coçar”. Muitos estão, inclusive, diretamente ligados ao surf. O negócio é o seu foco principal, o “drive" está mais virado para o negócio, mas, muitas vezes, infelizmente, para eles o fato de borracha já não leva com o sal da água do mar há semanas ou meses. 

 

Depois há um grupo muito vasto de surfistas conhecido como "o surfista de fim de semana” que, geralmente, é aquele que trabalha por conta de outrém ou que vive longe do mar, recebe 14 salários, tem seguro de saude, filhos e passa 30% do seu tempo no escritório a olhar para o Windguru ou para as Live Cams instaladas nas praias, como se vivesse um mix de sonho e tortura ao mesmo tempo. O surf para estes está muito presente, mas apenas como se fosse uma rotina ou uma droga controlada.

 

Neste grupo é preciso salientar que há muitos surfistas que não fazem mais surf porque simplesmente não podem. As circunstâncias da vida não permitem, não é fácil conciliar o trabalho e as responsabilidades familiares com o surf. A vontade está lá, mas foi domesticada.

 

Com a idade, muitos passam a surfistas resignados. O resignado aceita "não surfar” mesmo não concordando, mas já não se chateia pois deixar de surfar deixou de ser uma tortura. Torna-se então um teórico, o seu prazer pelo surf vem pela informação, uma espécie de surfista passivo onde a vontade de surfar existe, mas é sucumbida, como uma mãe que vê um filho drogado, que procura o possível e o impossível para tratá-lo e vê as suas tentativas de recuperação esgotadas. 

 

Haverá maior drama do que deixar de surfar? 

 

O surfista resignado não vive o drama, até vai à praia ver os amigos a surfar mas acaba por incomodar os outros que percecionam esse drama. É que, sem perceber, ele é uma ameaça para os restantes que não compreendem esse seu estado - vive o surf, mas já não pratica.

 

No sentido inverso temos o surfista insaciável. Para estes o surf é um buraco sem fundo. Recordo-me de há uns anos estar num jantar com surfistas um pouco mais velhos, em Cabo Verde, numa noite rara de vento ameno na Ilha do Sal, depois de um dia de altas ondas na Ponta Preta, e de ter fixado esta frase: “A fome insaciável é positiva.” 

 

Na mesa estavam o João Guedes (pai) e os pilotos Rocha e Tiago Matos. Essa frase, solta expressa de forma seca pelo Rocha, não me saiu da cabeça. “A fome é positiva“. A fome é uma busca constante, nunca sossega. Se o mar estiver bom, tudo vai literalmente “ao ar”. A insaciabilidade não escolhe idade, diga-se, é uma expetativa permanente, como uma enfermeira de serviço no Hospital São José em dia de passagem de ano - é um estado de quase ansiedade.

 

Com a globalização do surf surgiram duas novas categorias nestes casos e o surfista deixou de ser surfista. Uns viajam uma vez por ano às Maldivas ou à Costa Rica para surfar com os amigos ou com a namorada e o resto do ano é passado longe do mar. Na verdade têm outros interesses e o surf para eles já é como o “tuga" que vai esquiar para a Serra Nevada na Páscoa. É apenas uma pequena parte da sua vida.

 

Para outros, o surf é uma experiência, quase como ir a um spa na montanha ou fazer uma massagem com pedras quentes. Surfar é uma espécie de voucher ou um presente pago na caixa da Fnac embrulhado num envelope. O surf é uma sensação tal como beber um vinho caro. O surf não existe na vida deles para além disto.

 

Outro há ainda que são uma mistura de vários estados.

 

Particularmente só espero andar por muitos e bons anos nesta busca constante pelo surf que não sossega. A fome é um estímulo que apura o instinto e rejuvenesce, que nunca passe e esteja sempre lá. 

 

Haja saúde para acompanhar este estado. 

 

 Opinião: Bernardo “Giló” Seabra

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