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quinta, 20 outubro 2016 08:35

John John campeão

John John Florence é um pré destinado, quase desde que nasceu, a ser o melhor surfista do Mundo.

Cresceu em Haleiwa, sendo o mais velhos dos três irmãos e o grande apoio no seu percurso como surfista foi a sua mãe Alex.

Natural de New Jersey, a mulher que lançou os alicerces do campeão, arrancou para o Hawaii com 16 anos e nunca mais voltou. Alex, além de mãe solteira , é longboarder e manager da carreira dos filhos John, Nathan e Ivan. Todos surfistas.

John John começou a surfar logo aos 6 meses, numa prancha de bodyboard, e aos 6 anos já era patrocinado pela O´Neill.

Em casa, nunca teve TV ou video games. O lema era brincar na rua , estar fora de casa…

Nathan descreve o seu irmão recordando as palavras de Dennis Hopper no filme Apocalypse Now : Parecia um adulto ainda quando era criança. Definitivamente uma “alma velha”, John John foi obrigado a crescer depressa como irmão mais velho de uma família sem um pai presente e que passou por grandes dificuldades económicas. A mãe diz que ele, desde miúdo, era o “ dono da casa” quase como se fosse o pai dela.

A vida deste miúdo loiro, de ar tímido e despreocupado, foi, desde muito cedo, competir. Todos os fins-de-semana lá ia ele acompanhado pela mãe para Kawai, Big Islands ou Califórnia, para campeonatos…

Aos 13 anos, tornou-se o surfista mais novo de sempre a participar na Vans Triple Crown of Surfing.

Hoje em dia, recebe 4 milhões de dólares anuais da Hurley, venceu o Surfer Poll Award 2014-2015 e é, sem dúvida, a marca mais valiosa no surf. E ainda bem, é uma marca que nos orgulha, surfistas, por tudo o que ele representa, marca essa a que ele parece não dar muita importância.

 

O que impressiona é o magnetismo do seu surf ser agressivo e suave ao mesmo tempo, talvez o ser um grande skater tenha influenciado o seu estilo…faz as coisas dificeis parecerem estupidamente fáceis seja em qualquer tamanho de mar, as partes mais estranhas ou dificeis duma onda nunca parecem o afetar ou nem parecem sequer exisitir.

Há a síndroma de ser o melhor do mundo, mas nunca ser campeão. Um pouco como Phil Edwards nos anos 60, Buttons nos anos 70, ou Dane Reynolds apartir de 2011. Mas, a meu ver, John John ainda não ganhou porque não quer, parece mais interessado em surfar do que em ganhar...

Tem também muitos interesses variados: Adora fotografia, meditação, vela, pilotar pequenos aviões, skate, vinho. Inclusive, ajudou na edição e realização do filme “View from a Blue Moon”, o primeiro ser produzido na sua totalidade na tecnologia 4K, .

Mesmo dentro do surf, John John tem objetivos dispersos: ter ganho o Eddie Aikau em ondas de muito grandes, em Fevereiro de 2016, foi para ele mais importante que vencer qualquer campeonato do WCT.

É também o novo rei de Pipe da era moderna; ganhou 4 das últimas 5 edições do Volcom Pipe Pro…

John John é um fenómeno dentro do surf, mas há uma história por trás e que demonstra que foi preciso crescer depressa. A tal “alma velha” que o seu irmão descreve, passou por dificuldades finaceiras na sua infância , faz-me recordar, por razões quase opostas, Andre Agassi no ténis.Não podiam ser mais diferentes, desde logo na imagem: John John sempre discreto, ao contrário de Agassi que andou muito tempo de cabelo comprido e brinco.

Agassi confessa que desde a sua infância tem pesadelos com o “dragão” … o dragão não é nenhuma alucinação ou figura do pokemon, mas sim o boneco que solta as bolas de ténis nos treinos quando era miúdo…aos 13 anos abandona a sua terra natal Las Vegas para começar uma longa e brilhante carreira na Florida, uma vida, segundo ele, que nunca quis.

Há quem o considere o melhor a devolver serviços de todos os tempos. Não é por acaso, é preciso saber sofrer para rebater serviços a velocidades de um BMW.

Pressionado desde muito cedo pelo pai, imigrante iraniano, obsessivo  a vencer, Agassi que já disse várias vezes publicamente que odeia competir, teve uma carreira atribulada , passando pelas drogas e várias crises de identidade. John John pelo contrário tem um percurso de vida bem mais estável e retira prazer na competição.

Mas Agassi, tal como John John, não é um competidor nato. Há um lado vulnerável em Agassi que o fez sofrer, e muito, para se tornar um dos maiores competidores da história do ténis, e quem ganhou com as vitórias dele foi o próprio ténis.

Apesar de ambos serem génios de talento, sempre tiveram alguém mais forte do que eles a competir, o que gera ainda maior empatia com o público.

Nos desportos individuais, como o surf e o ténis, ser campeão e não ter com quem partilhar pode ser dolorosamente solitário e vazio, e mais, pode rapidamente entrar no esquecimento.  Agassi e John John não sofrem desse problema, eles têm um dom em comum: quando ganham quem vence é a propria modalidade é o próprio desporto em si.

Quando vemos um atleta extremamente competitivo como Gabriel Medina vencer, ele ganha para a família, é uma vitória que não entra no vazio, há um seio familiar que o acompanha sempre,  que para além de gerar força mental e disciplina, dá um sentido a ser campeão. O lado patriótico também é muito importante, ele sente que está a vencer pela nação, sem esquecer obviamente a partilha da vitória com os seus inumeros fãs no mundo inteiro.

Mas se John John for campeão mundial, quem ganha não é só a sua família, os seus amigos, as pessoas da sua terra no North Shore, os seus fãs; é uma vitória mais abragente, a fazer lembrar a vitória de Martim Potter ou do Occy, é uma vitória que o surf está a espera, e isso faz toda a diferença.

 

 

Por Bernardo"Giló"Seabra

   

 

 

 

 

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  • Hugo De Sousa Cardoso Hugo De Sousa Cardoso

    "Só me comecei a dedicar realmente ao surf por volta dos 12 anos de idade, quando comecei a treinar com o Axel Bellino."

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