Pedagogia inicial poderia fazer parte de uma estratégia inicial. Pedagogia inicial poderia fazer parte de uma estratégia inicial. Foto: DR

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terça, 12 setembro 2017 14:05

Paraísos em risco

Proteger e preservar a pensar no futuro… 

 

No outro dia li o texto do vosso colaborador João Vilela, “Costa Vicentina sem rei nem roque” (disponível aqui), e nele constatei que, infelizmente, os abusos e a falta de consciência ambiental/humana de pessoas que possuem autocaravanas (AC) e autovivendas (AV) continuam a ter lugar. É triste como tantos ainda consideram ser “cool” (quando é exatamente o contrário) acampar e poluir sem respeito e noção tendo como base um veículo casa com rodas, sem se aperceberem que um dia aquele paraíso deixará de o ser e que foram eles que fizeram parte do estrago ambiental.

 

Sou surfista há mais de 20 anos e considero-me neste momento um surfista mediano, dos que procura simplesmente o prazer de surfar, seguindo a máxima "quem surfa melhor é quem mais se diverte", estando dentro de água sempre que posso e atrás do bem-estar e do bom ambiente que tento sempre procurar e fomentar.  

 

Tive até há bem recentemente uma autocaravana e vivi alguns anos a liberdade de ter casa com rodas. Depois de alguns “erros” iniciais cometidos, foram-me transmitidas as chamadas "regras de ouro" pelos que há mais anos praticam o autocaravanismo e são efetivamente autocaravanistas na verdadeira essência da palavra (pois não basta ter uma AC/AV para o ser). Isso abriu-me e muito a perspetiva do que deveria e não deveria ser feito, e a partir desse momento passei a tentar sensibilizar os outros a fazê-lo.

 

No entanto, como só por que fazemos surf não somos todos “colegas”, da mesma forma se deduz que nem todos os utilizadores deste tipo de veículos reagem de igual maneira. A verdadeira fiscalização deveria ser feita pelas autoridades e não por quem não tem autoridade, como os “autocaravanistas responsáveis”, fazendo cumprir o Código da Estrada (estacionamentos, etc) e evitando acampamentos em zonas que não são para esse efeito. Como é sabido, infelizmente, as autoridades não conseguem chegar a todo o lado e com os vários exemplos de desrespeito de uns começam a surgir as proibições totais por parte de vários municípios, bem como a autêntica perseguição às AC/AV devido aos incumpridores.

 

O tema é abrangente, raramente há conclusões que sirvam a todos, mas alguns veículos são em geral um veículo/carrinha adaptado que não inclui lavatório ou WC, ou então detém capacidades de depósitos de águas pequenos. Nestes casos, que podem ser encontrados de norte a sul, o mais vulgar são as necessidades serem feitas nos locais menos próprios e as loiças e despejos de água suja feitos onde não deveriam ser. O respeito pelo espaço dos outros também não é preservado. Sei do que falo porque em idos anos andei em viagem com amigos numa carrinha/autovivenda adaptada que só possuía lavatório e sem WC. As condições eram as suficientes para lavar a loiça e os dentes. Ainda assim, quando precisávamos encontrávamos os WC’s que serviam para o efeito e ainda tínhamos um WC/sanita química portátil. Portanto, desculpas não haviam. 

 

Os verdadeiros autocaravanistas não despejam os depósitos no local por estar longe de uma área de serviço ou casa de banho. Eles fazem sem problema vários quilómetros se for necessário para propositadamente o fazerem de forma ecológica. Planeiam, antecipam, organizam-se. Se vamos para uma surftrip não fazemos algo parecido? 

 

Argumentam-me que corre-se o risco de perder o lugar… Mas isso faz parte, é óbvio. Aceite-se isso como a moeda de troca para se poder pelo menos lá estar uma noite. Tal como estar sentado na água na zona perfeita do pico implicar apanhar uma onda perfeita e deixar de se lá estar, faz parte! Volta-se ao pico, senta-se talvez um pouco mais ao lado e desfruta-se à mesma do paraíso. Simples. Contudo, esse paraíso continuará lá, não é preciso sermos egoístas, preguiçosos e o estragarmos. Um dia tudo desaparecerá como conhecemos.

 

Quem tem uma AC/AV (que não quer dizer que seja verdadeiramente um autocaravanista) totalmente preparada não tem desculpa para cometer “atentados” e nem para colocar mesas/toldos na via pública. Os verdadeiros autocaravanistas sabem disso e é precisamente isso que praticam e divulgam junto de quem observam a fazer errado. Como todos bem sabemos, por uns pagam outros, além de que muitas vezes as críticas construtivas são mal recebidas. Era aí que entravam as autoridades e colocavam na linha quem não respeitava. 

 

Daí que concordo com uma ideia de pedagogia inicial, por exemplo, colocando flyers a informar, se bem que, tal como acontece no no universo dos surfistas, há vários comportamentos e filosofias na vida. Após essa tentativa de pedagogia seguir-se-ia uma coima se não fossem cumpridas sucessivamente as indicações. Julgo que o banir passaria a ser desnecessário. 

 

As multas costumam ser um bom dissuasor para não repetir atitudes e assim definia-se melhor na mente de muita gente que pernoitar é diferente de acampar, evitava-se que muitos abrissem toldos ocupando lugares que davam para caber veículos ligeiros, espalhassem mesas e cadeiras com fogareiros à mistura onde outras pessoas passam, despejassem águas com gorduras/óleos/cheiro/consistência que em pouco tempo geram o impacto ambiental que se sabe.

 

Imaginando cada um fazendo "só" um despejo (mesmo com detergente biológico) da sardinhada e da comida temperada, "só" tirando uma cadeira, "só" abrindo o toldo, “só” indo atrás da moita/duna, "só" pondo o grelhador a fumegar, "só" espalhando as coisas à volta do veículo… Juntam-se mais uns e é fácil perceber como rapidamente os paraísos podem ser destruídos tal como se pode observar nas fotos e no texto de João Vilela.

 

Do que acompanho do lado dos autocaravanistas é que cada vez mais se reduzem e proíbem os locais de estacionamento, de pernoita, etc. No entanto, de forma muito fácil se poderiam criar alternativas e um conjunto de regras: bastaria lugares mais ao lado, por exemplo, não ficando em cima da linha de mar devido ao volume de alguns veículos; marcas de estacionamento para que só AC/AV coubessem nesse espaço e aí permanecessem, número limitado de lugares. Por culpa de uns surgem proibições para todos, e os cumpridores continuam impotentes e a perder terreno perante aqueles que desrespeitam e denigrem a imagem dos autocaravanistas e autovivendistas que cumprem e não prejudicam os outros. 

 

Quando vejo muita gente a dar os piores exemplos, a fazer as maiores barbaridades para com a natureza e ainda a passar aquela imagem de que “eu tenho isto e tu não, somos very cool, e ai de ti se vens dizer alguma coisa”, espero que tudo se ordene mantendo-se, no entanto, o espírito de “liberdade”. É que detestaria daqui a muitos anos ver jovens de espírito livre proibidos de usufruírem do que eu usufruo neste momento e vir a ter que lhes dizer que "sim, antigamente tolerava-se mas agora é proibido. Eu, há 20 anos atrás, tentei falar com os vossos pais para pensarem um pouco e não fazerem o que faziam, mas eles não ligaram”.  

 

Sou surfista, fui autocaravanista e acima de tudo cidadão que preza o bom ambiente em todos os locais. Espero que dure muitos anos, seja como surfistas ou autocaravanistas (ou quaisquer outros), a imagem na cara das pessoas da reação de sorrirem ao ver chegar "gente cumpridora e simpática” (quem me dera), ao invés da cara de desagrado por estarem a ver passar/chegar os que "ocupam tudo sem respeito, pensam que é tudo deles, só sujam e desrespeitam, deviam bani-los deste sitio..."

 

Tudo fica mais simples se se olhar à volta e perceber que agindo de determinada forma, mais cedo ou mais tarde, irão perder a liberdade que ainda vai existindo, deixando de poder usufruir desses espaços (por culpa própria) e prejudicando todos os outros que zelam por passar uma boa imagem de uma qualquer atividade. Surfers, autocaravanistas, skaters, paddleboarders, motociclistas, bikers e muitos outros, estamos todos neste planeta… 

 

Que tal abrirmos os olhos e deixarmos legado para que as próximas gerações ainda possam aproveitar o que nós podemos? 

A vida é boa, vivam-na! 

 

Texto_ Sérgio Leal Albino

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