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segunda, 10 novembro 2014 19:36

BRUNO LEMOS: "CHEGUEI A SER HOMELESS NO HAVAI"

Fotógrafo com 20 anos de carreira participou da realização do filme "Beyond Sight" que conta a história de Derek Rabelo. 

 

São 20 anos de carreira na fotografia. Nasceu no Brasil, mas desde 1991 que se mudou para o Havai em busca de ondas grandes. Primeiro para as surfar, e depois para as fotografar e filmar. Bruno Lemos esteve recentemente em Portugal, durante o Moche Rip Curl Pro Portugal, em Peniche. O objetivo era ver o seu compatriota Gabriel Medina levar o título. Saiu de cá sem a taça, mas apaixonado pelo país e pelas pessoas. Antes de viajar de volta para North Shore, a SurfTotal esteve à conversa com este fotógrafo e operador de câmara responsável pelas imagens do filme “Beyond Sight”, que conta a história de Derek Rabelo, um surfista cego que já surfou Pipeline.

 

Por que decidiu vir até Portugal?

Eu vim para Portugal na espectativa de ver o Medina ser campeão mundial. Trabalho com surf há 20 anos, seria um momento histórico no surf brasileiro e eu queria ter isso no meu arquivo. Estava a fazer a tournée com o Derek [Rabelo], e quando terminou pensei em investir e vir fazer essa viagem para mim, sem compromisso. Eu tenho um programa no canal brasileiro Whohoo. Se chama Kaunala Road e é meio reality show, que mostra como trabalho, faço fotos, os lugares onde eu vou. Então vim para cá para fazer programas paralelos de free surf e entrevistas. Aí cheguei na sala de imprensa, e acabei encontrando um amigo que me propôs fazer a media social (instagram e facebook) da Oakley. Acabei também fazendo do Guaraná Antártica. E fora isso, trabalho para o site Waves e revista Fluir. A expectativa que tive de vir ver o campeonato virou uma loucura, eu me deitava às 3h e acordava às 5h da manhã.

 

Qual o balanço que faz desta viagem?

Para mim foi muito positivo. Eu já tinha estado aqui em Portugal antes para fazer a cobertura de um ISA Games em 1998… Já nem lembro… Eu fiquei só no ritmo de competição e não conheci muita coisa. E ter oportunidade de conhecer Supertubos, desta vez, foi excelente. Fiquei muito impressionado com essa onda. E os locais ainda me disseram que fica muito melhor que isso, mas já deu para ver o potencial dessa onda. Eu acho que é uma mistura de Itacuatiara que é a onda mais pesada do Brasil e uma pitadinha de Porto Escondido. E ainda é melhor que esses dois juntos. Adorei Peniche e ainda vi o Jadson Andre vencer em Cascais, filmei a onda CJ Hobgood contra as pedras, que ficou viral, e sem contar o aéreo do Kelly Slater! Ter estado em Portugal nesses 10/15 dias foi excelente profissionalmente e pessoalmente! Todos os olhos do surf estavam aqui.

 

E para onde vai agora?

Desde 1991 que moro no Havai. Eu abandonei toda a minha vida do Brasil, família, amigos, emprego… Na época, eu gostava de surfar ondas grandes, era “surfistão”. Dediquei a minha vida para o surf. Agora eu vou para o Havai, o lugar que mais gosto do mundo, pegar um fôlego para a Triple Crown, mas com certeza vou ficar com saudades de Portugal. Fiquei impressionado com as pessoas daqui. Tenho ido muito ao Tahiti que falam que o melhor é a galera, mas Portugal me surpreendeu. Desde o pessoal do hotel, ao presidente da câmara. Todos vêm sempre com um sorriso. Sempre pronto a te atender. Te ajudar! Até as “gatinhas” na praia, que você acha que não vão falar com você. No outro dia quebrámos o nosso carro na praia. Veio um garoto, nos ajudou, chamou o mecânico, trouxe o carro até a porta do hotel. No Brasil, o cara ia-me assaltar, levar meu carro, dar porrada. Estou impressionado com a hospitalidade e simpatia do povo português. Queria parabenizar todos vocês! É assim que tem que ser. Porque hoje em dia tem muita maldade por aí!

 

Obrigada! E como é que você foi parar no Havai?

No Rio de Janeiro, eu andava com um garoto chamado Rodrigo Resende, um dos maiores big riders do Brasil, ele era uma inspiração para todo o mundo. Era a minha inspiração. Só pensava em surfar ondas grandes. Em dezembro, era verão e eu pensava “Deus porque é que eu não nasci no Havai?” O desejo de estar lá era muito forte. Por isso fui. Eu não via outro lugar para morar que não North Shore.

 

E já não volta para o Rio de vez em quando?

Geralmente vou para o Rio, mas não todos os anos. Gosto muito do Rio. Esse ano por acaso passei lá 3 meses, trabalhei para a Fifa na copa. O Rio de Janeiro e o Brasil estão no sangue, na alma, mas o meu coração está no Havai, com certeza. Eu não planeio muito minhas viagens pois quando planeio sai tudo ao contrário. Eu gosto muito de fotografar ondas grandes. Eu vou onde vai dar 50 pés, e fotografo. Fui a Papoa e fiquei impressionado.

 

E a Nazaré?

Eu já conheço o Garrett [McNamara] há muitos anos. Ele sempre me falou para vir para cá com ele. Os nossos filhos andavam na escola juntos, então desde que nasceram que o conheço. Ele me fala sempre para vir com ele, e nunca deu para vir. Ele está lá me esperando.

 

E o Derek Rabelo? Como o conheceu?

Eu conheci-o na Igreja Evangélica que frequentamos no Havai. O Magno Oliveira chegou para mim, e me apresentou o Derek e não falou que ele era surfista. Eu vi que ele era cego e só pensei “Coitado desse garoto, veio para o Havai que é um dos lugares mais bonitos do mundo, e não pode ver”. Depois acho que fui para Jaws fazer um trabalho e quando eu voltei, o departamento da igreja que é o “Souls4Jesus” tinha feito um vídeo dele surfando. E me disseram que eu tinha que fazer o próximo vídeo dele a surfar Pipeline. Eu não acreditei, mas ele foi e surfou e aí vi, essa história é fantástica. Hoje estamos com projecto de lançar um livro, fazer um segundo filme. A gente vive numa era em que a depressão é a doença do século, e o Derek tem um quadro que podia ser uma pessoa depressiva. Podia ter optado por estar no sofá da sala ouvindo a TV e não fazer nada. E ele é o contrário, é muito activo. Queremos usar isso, para impactar vidas, para que aquilo seja uma injecção de motivação para as pessoas. O Derek é um fenómeno, foi uma pessoa escolhida por Deus para passar uma mensagem muito boa para as pessoas. Ele tem uma personalidade muito boa. O impacto que ele tem nas pessoas é incrível. Fizemos umas 15 apresentações do filme pela Europa, em 8 países, e em todas era igual. Havia gente fazendo fila para falar com ele, chorando depois do filme e agradecendo. A viagem com o Derek foi sensacional. Tenho de agradecer aos Surfistas de Cristo, todo o staff fez um trabalho incrível. Foi uma das melhores viagens que já fiz porque conheci tantas pessoas. O que recebemos de energia das outras pessoas… acho que isso é que vale na vida!

 

Quando vamos poder ver o filme?

Então, fizemos essa tournée na Europa, estávamos tentando arrumar um distribuidor. Apesar de todo o impacto falta colocar o filme no cinema. Estamos produzindo os dvds. A proposta inicial do filme não foi fazer grama. Custou cerca de 200 mil dólares, e já juntamos 100 mil no crowdfunding. Até agora ainda não está pago…

 

O que vai fazer de seguida? Quais os seus objetivos?

Bem, eu quando saí do Brasil trabalhava na revista “Surfer” e o fotógrafo quer tinha a concepção da revista quando ela fechou me arrumou uma passagem para o Havai. Vou estar completando quando 20 anos de fotografia. Nunca fiz nenhum curso de fotografia, aprendi vendo o trabalho dos outos, errando e aprendendo. Cheguei sem dinheiro nenhum ao Havai, fui sem abrigo lá! Não tinha grana para pagar o aluguer de uma casa então comprei um carro de 200 dólares e fiquei dormindo no carro. Um dia o carro quebrou e quando estava voltando à minha “casa”, ela tinha sido rebocada. Eu fiquei sem casa. Se não fosse a ajuda de alguns amigos, eu não me virava… a minha situação financeira na época não era das melhores. Eu morava em frente ao Larry Haynes, um monstro da fotografia aquática e ele era bartender, e estava parando para virar operador de câmara em full time. Eu descobri que ele vendia uma imagem por 200 ou 300 dólares e eu na altura tinha que “morrer” para ganhar 60 dólares por dia! Aí eu falei para tudo “Eu vou virar isso!”. Então, trabalhei em construção, comprei o material, a câmara e caixa. E no dia que fui experimentar dentro de água, quase morri afogado! E o mar estava pequeno! Aí pensei que não levava jeito e saí todo frustrado. Mas resolvi não desistir. Um dia entrei em Pipeline gigante num heat da final de um WQS com o Andy Irons e o Derek H e fiz altas imagens!! No dia em que o Todd Chesser morreu eu estava na água, e usaram as minhas imagens. Aí pensei “Agora virei camera man”. Estando no Havai isso me ajuda muito. É só ir para a praia e os melhores estão la. Tenho uma carreira de 20 anos de fotografia, mas o mercado fotográfico está difícil. Estou migrando de fotógrafo para documentarista e director de filme. Tenho muita fé em Deus, eu estava pedindo para Deus me ajudar para arrumar uma história legal, e aí conheci o Derek. Foi um projecto que Deus botou na minha mão para fazer. É o meu primeiro filme. Fiquei muito feliz com o que aconteceu.

 

E no futuro?

De futuro, tenho um sonho de um dia virar pintor, ou escritor de livros. É um trabalho mais relaxado, tranquilo, posso ir surfar, voltar, cuidar da saúde. O nome da minha empresa Lemos Images já é a pensar nisso. O “images” enquadra a fotografia, a cultura, o vídeo. Se eu puder no futuro, vou fazer filmes, pintar quadros e escrever livros!

 

Patrícia Tadeia

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