Lipe Dylong na sala de shape Lipe Dylong na sala de shape

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sexta, 08 dezembro 2017 08:11

Lipe Dylong: “Não tenho dúvidas que em breve Portugal terá uma maior participação na elite"

Entrevista exclusiva com o famoso shaper e um dos primeiros competidores do circuito mundial de surf… 

 

Exclusivo com Lipe Dylong. O fundador da marca Energia e shaper da Country Surfboards para a Europa, falou à Surftotal sobre o início do Surf no Brasil e os primeiros anos do circuito mundial, bem como da nova linha Country HP que foi desenhada para os surfistas mais exigentes.

 

Conta-nos como era o surf no Brasil quando começaste a surfar?

Comecei a surfar aos 12 anos, em 1968, no Arpoador, Rio de Janeiro, exatamente na mudança do longboard para as mini models. Tempos inesquecíveis, de uma adolescência criado à beira-mar e com todas as praias a serem descobertas nesta altura para a prática deste maravilhoso desporto.

 

Tendo passado e surfado pela gloriosa década de 70, como foi desbravar uma costa tão extensa?  

Ainda em miúdos, procurávamos por boleia com os mais velhos que já tinham a carta e viajávamos sempre em grupos de cinco dentro de um carocha VW, o que se tinha na época, e assim dividíamos as despesas. Graças a várias viagens cruzámos toda a costa de norte a sul do Brasil, cerca de 5000 km surfáveis. Acampávamos com amigos, não tínhamos leash's ou fatos, mas estávamos super encantados com o surf, com os novos sítios - muitos deles ainda virgens. Nascia ali o gosto pela aventura. Aqui mesmo, em Portugal, em 1984, aluguei um carro com um amigo e viemos do Porto até Lisboa a bater todas as praias que tinham acesso. Em muitas surfámos excelentes ondas sem ninguém, depois ficámos hospedados na Pousada do Narciso, na Praia de Carcavelos, e de lá, ainda sem a autoestrada (A8), varríamos a costa até à Ericeira, sempre acompanhados pelo [Luís] Narciso, que na época era o campeão nacional, e o puto “Dapin", na época ainda um “grom" mas já um excelente surfista.

   

Desbravando o litoral brasileiro nos primeiros anos de surf.

 

O que te motivou a fabricar pranchas de surf?

Ainda miúdo, com 14 anos e sem dinheiro, parti o “nose" da minha prancha de surf que na altura foi comprada com todas as minhas economias e ajuda dos pais. Não tinha mais recursos para comprar uma prancha nova e naquela época era muito difícil encontrar pranchas pequenas à venda, pois o que predominava eram as longboards, verdadeiros tanques, que já estavam a sair de cena. Foi um momento de revolução muito rápido nas pranchas e manobras; estas estavam a ficar mais pequenas e mais leves proporcionando manobras mais arriscadas. Acabei então por descascar a minha própria prancha e aproveitei o bloco, shapeando assim a minha primeira prancha com um ralador de queijo e lixas. Quando a levei para a praia os meus amigos gostaram e aprovaram. Uma nova geração de miúdos que, devido ao seu tamanho e peso, não conseguiam surfar bem com as pranchas que existiam no mercado. A primeira encomenda que recebi foi do melhor amigo, que era amigo daquele, que era amigo daquele outro, que estudava na escola tal, e assim, a receber encomendas, fui crescendo e aperfeiçoando o processo de fabrico. Em 1973, fui ao Peru para competir no meu primeiro campeonato fora de casa e acabei por ter não só o primeiro contato com uma verdadeira fábrica de pranchas, mas também com diferentes shapers. Além de observar os novos equipamentos dos atletas internacionais que competiam do campeonato. Na altura foi um super ‘upgrade’. Por volta de 1976 já estava no Havai a trabalhar e a shapear numa das mais tradicionais fábricas de pranchas, com a qual ainda hoje tenho uma excelente relação. Desde então nunca mais parei de fazer estes maravilhosos brinquedos, tendo a oportunidade de shapear em diversos países como o Japão, EUA, Austrália, Peru, África do Sul e agora Portugal.

 

- Na sua sala de shape em 1975.

 

Como foi participar nos primeiros anos do Circuito Mundial  (antigo IPS)?

Quando saí da tropa a meio dos meus 18 anos, viajei sozinho de autocarro por toda América do Sul e Central até à Califórnia, chegando a primeira vez ao Havai com 20 anos, em 1976. Fiquei maravilhado, pensei comigo mesmo: “Esse é o meu sonho, daqui não saio mais". Identifiquei-me imenso com o 'Aloha lifestyle' e com o power das ondas havaianas. Após um bom desempenho nas temporadas de inverno e sendo um dos poucos brasileiros a morar na ilha naquela época, Randy Rarick, que criou o circuito mundial IPS - International Professional Surfers (atual WSL); convidou-me para representar o Brasil no tour. Tudo bem, foi a maior satisfação, tinha o convite, okay. No entanto, faltava o mais importante. Como conseguiria os recursos para dar a volta ao mundo? Voltei então ao Brasil à procura de um patrocinador e depois de muita luta (eram tempos em que o surf pouco representava no país do futebol por excelência) lá consegui o patrocínio da Coca-Cola. Consegui assim a oportunidade de surfar pelo mundo, competir e aprimorar as técnicas de shape. Países como a Nova Zelândia, Austrália, África do Sul, Brasil, Estados Unidos (Flórida e Califórnia) e o Havai (quando tive a oportunidade de ser um dos 32 convidados a surfar no Pipe Masters), que servia de palco à final; faziam parte do circuito. Uma experiência incrível como surfista e shaper, além de ter criado inúmeras amizades e relações comerciais que permanecem até aos dias de hoje.

 

Entrevista para o programa Wide World of Sports da televisão norte-americana ABC, logo após um campeonato em Sunset Beach.

 

- A competir no Pipe Masters de 1978.

 

Como nasceu a marca de pranchas Energia e como foi o lançamento da surfwear no Brasil?

Senti que, além das pranchas, poderia criar uma linha de surfwear que oferecesse melhores produtos para a prática do desporto. Segui uma tendência que já vinha a acontecer nos países que eu cruzava, muitas vezes com amigos meus como o Doug Warbrick, na Austrália com a Rip Curl, Michael Tomsom com a Gotcha, na Califórnia, entre outros. Desta forma, em 1980, criei a Energia, pioneira na surfwear no Brasil que, acompanhada por pranchas excelentes, fez um grande sucesso. 

 

Troca de impressões na sala de shape com o amigo e campeão mundial Shaun Tomson.

 

E como surgiu o seu primeiro contato com Portugal?

No começo dos anos 80, os comissários da TAP compravam sempre roupas e pranchas de surf. Com o tempo criaram-se boas amizades e assim despertou o interesse da visita a Portugal. De novo aquele sentimento incrível da aventura, em 1984, a minha primeira vez na Europa, em Portugal, uma terra nova, em ondas por explorar, bem equipados com boas pranchas de surf - pois sabíamos que existiam ondas e grandes boas! Enfim, os ingredientes necessários estavam reunidos para uma super trip. E não falhou! Naquela altura, surfei em sítios incríveis com muito pouco crowd, o povo era muito hospitaleiro, a gastronomia top… Boas lembranças que ficaram para sempre na memória. 

 

Lipe com o então campeão nacional, Luís Narciso. Ericeira, 1984. 

 

Como vês a evolução do surf em Portugal neste momento e do país em si?

Observo uma super evolução do surf em Portugal. Depois de toda a performance do “Saca", uma nova geração veio com tudo. O “Kikas” é favorito a Rookie do Ano, não é preciso dizer mais nada, aquela apresentação impecável em J-Bay consagrou-o como top surfer do circuito. Temos ainda Vasco Ribeiro com todo o seu talento e power, Nic von Rupp, Miguel Blanco e muitos outros talentos a aparecer para o mundo. É muito bom ver o interesse dos “groms" pelo desporto, as escolas de surf, o grande interesse e dedicação das raparigas, os professores e treinadores talentosos. Com certeza que com todo esse potencial e as ondas que o país tem, não tenho a menor dúvida que em breve Portugal terá uma participação maior, com vários atletas, na elite da WSL. De salientar também a coragem e o talento dos surfistas e “rescues" portugueses em ondas grandes, como na Nazaré, esses merecem todo o respeito. Espero dar o meu contributo, como já fiz em muitos lugares, para o crescimento do surf e dos surfistas, fazendo pranchas de topo, com patrocínios e ações que desenvolvam melhor este maravilhoso desporto. 

 

Miguel Blanco, jovem promessa do surf português e piloto de testes da linha Country HP. 

 

A Country Surfboards encontra-se a celebrar 50 anos. Porque a escolheste trabalhar na Europa?

Trata-se de uma marca de raíz do surf, nascida e criada no Havai, berço do surf e local da maior arena de testes de todos os surfistas e shapers. Além de ser a primeira fábrica do North Shore, em Haleiwa, criada em 1967. Trabalho com ela desde 1976, altura em que visitei as ilhas pela primeira vez. Tem sido uma super escola e com a qual também mantenho excelente relacionamento. Em Portugal, fabricamos uma linha de longboards, guns, funboards, fish, etc. que usam o pioneiro e tradicional logótipo. Porém, agora criámos a Country HP (Country High Performance) que é uma linha de pranchas atuais, com toda a modernidade, que está a ter uma aceitação excelente e “feedback” bem positivo dos nossos pilotos de teste Miguel Blanco e Halley Batista.

 

Tiger Espere, lenda havaiana e surfista da Country Surfboards.

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