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sexta, 05 maio 2017 15:09

Falando de “surf coaching” com José Maria Pyrrait

Veterano da Ericeira abre o jogo sobre o surf nos anos 70 e os treinos de hoje em dia… 

 

José Maria Pyrrait é um dos rostos habituais nas competições nacionais. É “surf coach” de vários jovens talentos, que vivem intensamente o sonho e procuram chegar longe no mundo do surf, e ao longo dos anos tem vindo a ajudar a consolidar a carreira de muitos experientes surfistas. Um destes dias não deixámos passar a oportunidade e quisemos saber mais sobre os primeiros tempos do surf e a rotina diária que imprime aos seus treinos. Eis a entrevista concedida. 

 

Surftotal: Começaste a surfar no Rio de Janeiro na década de 70. Podes contar-nos como era o surf nessa altura?

José Maria Pyrrait: O Rio de Janeiro na década de 70 era um lugar mágico. Começar nesse lugar e nesse tempo, foi uma sorte e privilégio. O centro de tudo era o mítico Arpoador, e a minha casa era a 200m do Arpex, como nós carinhosamente lhe chamávamos. Na altura, o surf profissional ainda era um sonho e o circuito mundial dava os primeiros passos. A IPS era a sigla da primeira organização de surfistas profissionais. O primeiro circuito mundial, em 1976, passou pelo Rio, eu estava lá. A primeira etapa foi vencida pelo saudoso Pepe Lopes, na Barra da Tijuca. Em 1977, foi no Quebra Mar, quem venceu foi Daniel Friedman, que foi à final com o Pepe.  Em 1978, a final foi disputada na praia do Diabo, ao lado do Arpoador, e pela primeira vez não tinha um brasileiro na final. Em 1979 não houve e em 1980 voltou, desta vez realizou-se no Arpoador, ao lado da minha casa, e foi vencido por Joe Buran, mas com o local do Arpoador Ismael Miranda na final. Este campeonato, repetiu-se até 1982, ano que coincidiu com o meu regresso a Portugal. Esse campeonato foi mítico e alimentou o sonho do surf profissional de uma geração criada nas areias da zona sul do Rio. O Rio dominava o surf no Brasil e o Arpoador era o centro. Lembro-me bem, do Jim Banks, aparecer ali, convidado pelo Cauli Rodrigues, e contar as primeiras histórias sobre ondas de sonho em Bali. Dos campeonatos da US TOP, uma marca de jeans, em Ubatuba. Das viagens a Saquarema e das suas ondas mais sérias. Dos Grace a “introduzirem” o jiu-jitsu no pessoal do surf. Mais uma avalanche de recordações, que ocuparia um livro, não uma entrevista. O que ficou? Um amor pelo surf, pelo mar e pela vida livre, e o orgulho de ter vivido uma época mágica para o nosso desporto.

 

ST: Mais tarde e quando já estavas em Portugal foste viver uns bons anos para os Açores. O que mais te marcou nessa altura como surfista nesse arquipélago tão especial?

JMP: Nos Açores, o que mais me marcou foi sentir um pouco da magia dos primeiros tempos do surf. Ondas novas e pouco exploradas, pouca gente na água e, por vezes, até ninguém. Uma beleza natural sem paralelo e um permanente contacto com o mar. Tenho ali grandes amigos, a minha mulher é de São Miguel e o meu filho mais novo é açoreano. Ainda hoje mantenho uma ligação muito especial com estas ilhas.

 

"O que mais me marcou [nos Açores] foi sentir

um pouco da magia dos primeiros tempos do surf"

 

- A apanhar umas de SUP pela sua amada Reserva Mundial de Surf da Ericeira. Foto: Humberto Coelho

 

Depois de ires morar mais tarde para a Ericeira começaste a tua carreira de treinador. Quem foram os primeiros surfistas que treinaste?

Comecei a minha carreira de treinador com um percurso normal. Primeiro abri uma escola, depois comecei a trabalhar com os alunos que revelaram mais talento. A Ana Sarmento e o Tomás Fernandes foram os primeiros. Com a Ana trabalhei muito tempo, aprendi e errei. Digo-lhe muitas vezes na brincadeira, que ela foi o meu melhor curso. Depois, apareceu o Gony [Zubizarreta], o trabalho ficou mais sério e com mais projeção dando um grande impulso à minha carreira.

 

Quais os princípios fundamentais que transmites a eles?

Um treinador, na minha opinião, é muito mais do que um técnico. É alguém que te aconselha, que procura transmitir bases que te ajudem a ser melhor em todos os aspectos. Valores de caráter, espirito de luta e sacrifício, vontade e persistência - são valores que tento incutir em todos os surfistas que treino. Além, é claro, de uma paixão pelo mar e pelo surf. 

 

“Um treinador é alguém que procura transmitir bases

que te ajudem a ser melhor em todos os aspectos"

 

 

- A dar dicas, conselhos e a incutir valores nos surfistas que treina. Foto: Humberto Coelho

 

Como funcionam os teus treinos no dia a dia?

Depende muito do surfista com quem estou a trabalhar, mas posso dizer que não tenho um padrão totalmente definido. Procuro ir de encontro às necessidades do surfista. Contudo, passa muito por observação, avaliação e correção passo a passo. Procuro também que todos tenham um trabalho fisico, bem orientado e adaptado às necessidades de cada um.

 

Há uma grande paixão na tua forma de ser e de estar. Procuras incutir esse espírito aos teus atletas?

Amor, paixão e garra são, na minha opinião, o melhor catalisador para o sucesso. Sou apaixonado por natureza, adoro desafios e tento transmitir a quem treino essa paixão pela luta e superação. Garra, garra e garra, gostar do que fazes e entregares-te de corpo e alma…

 

Dos surfistas que treinas atualmente quais os principais objetivos de cada um para 2017?

Existe um objetivo comum a todos. Competirem ao seu nível, trabalharem para ser sempre melhores, terem garra e entrega em tudo o que fizerem. Quanto aos objetivos individuais de cada um… É isso, são individuais e por isso penso que devem ser os próprios a falar deles. 

 

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Entrevista: Bernardo "Giló" Seabra

 

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