Gabriel Medina venceu em Cloudbreak o primeiro CT da temporada. Gabriel Medina venceu em Cloudbreak o primeiro CT da temporada. Foto: WSL / Ed Sloane

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segunda, 20 junho 2016 10:35

FIJI PRO: A BATALHA DOS GENIAIS

Pedro Barbosa, juiz internacional, faz a análise exaustiva da quinta etapa do World Tour…

 

O Fiji Pro é uma das provais mais interessantes do World Tour. Deve existir uma reflexão relativamente à estratégia a seguir no Tour uma vez que passámos de uma prova muito fraca, em termos de qualidade de ondas, para uma prova fora de série. O Brasil e mais especificamente o grupo “Braziliam Storm”, que já conta com dois campeões mundiais, com surfistas como o Miguel Pupo e Alejo Muniz claramente talentosos que passam relativamente despercebidos e que vão ficar certamente na história do surf mundial, tais como outros grupos do passado.

 

“Bustin' Down the Door” com Wayne “Rabbit” Bartholomew, Shaun Thompson, Mark Richards nos anos 70 ou a geração “Momentum” com Kelly Slater, Shane Dorian e Rob Machado que são a máquina que fez o surf mundial chegar a patamares nunca antes alcançados, merecem um pouco mais. O Brasil tem com certeza alternativas onde o surf não se resume a ondas que fecham criando um espectáculo muito pouco interessante para quem assiste.

 

Chegando ao evento em si, quando falamos em Cloudbreak começa-se logo a falar dos geniais. Slater, JJ Florence e um Medina que começa também timidamente a ser considerado como dos melhores tube riders do mundo. As previsões não falharam e o espectáculo proporcionado por estes senhores foi digno de uma prova do World Tour.

 

O campeonato começou sem os tubos com a intensidade que se esperava, sendo as manobras mais valorizadas e é isto que torna Cloudbreak um campeonato fantástico. Quando não há tubos o surf é também de grande qualidade. Na 1ª ronda o destaque vai para Jordy Smith, com o sul-africano a mostrar que não é só em direitas volumosas que se destaca, também para a esquerda e no que toca a manobras está entre os melhores do mundo. A intensidade que impôs nas suas manobras nas secções mais críiticas foram a referência do dia.

 

 

Os geniais foram avançando ao longo do evento e a sua diferença para os restantes chega, por vezes, a ser chocante. Alguns parecem que estão a começar no surf de competição, tal é a diferença no nível apresentado. Entre os novatos há um que me chama a atenção, ainda sem resultados expressivos, mas o surf de rail, bottoms e postura na onda podem vir a evoluir no sentido de ser mais uma estrela na “big league”… e bem que o tour precisa! Apesar de não ter passado do segundo round, Ryan Callinan apresenta-se como um dos nomes a seguir.

 

 

Melhor performance

O surfista com a melhor performance foi, na minha opinião, o Kelly Slater. Melhor score do evento (19.77 pontos), os tubos mais profundos e melhor gestão do foam ball. Continua a ser o melhor surfista do mundo em Cloudbreak. Aqui vemos o 9.77 que, eventualmente, poderia ser um 10 e seria mais um heat perfeito para Kelly. No entanto, consigo entender o 9.77 pontos, que é praticamente um 10 e neste tipo de eventos a precisão na avaliação é importante.

 

 

Surfista com factor X

Acompanhei a ascensão do Slater desde o seu primeiro título mundial, em 92, já lá vão 24 anos, o maior surfista profissional da história do desporto e na minha opinião o mais harmonioso de sempre. No entanto, em termos de genialidade, factor X e capacidade competitiva, isto é uma declaração polémica, o Medina é ainda melhor, a forma assombrosa com que apareceu 20 e tal anos mais tarde e a capacidade que tem de nos surpreender em competição é fora de série. Como um dos comentadores da WSL dizia a determinada altura: “O Medina se não ganhar pela estratégia, ganha pelo surf, se não for pelo surf ganha pela estratégia, mas encontra sempre uma forma de ganhar.” Vai, inclusivamente, mais longe, fazendo manobras que mais ninguém faz em Cloudbreak, não tem notas tão altas como eventualmente esperava, aceita bem e a seguir faz o tubo do evento, um 10 perfeito. Tem quase a “arrogância” de dizer: “O que é que querem ver? Eu faço ainda melhor!”

 

 

O surfista em ascensão

Guardei esta categoria para o número 1 do ranking – Wilko. Não é uma ascensão, mas antes uma confirmação. Chegar à final e vencer na mesma prova duas vezes o JJ Florence tem muito que se lhe diga. Independentemente disto, em cinco provas entre os melhores do mundo, este senhor tem três presenças em finais e isto não acontece por acaso. Tem categoria e talento para estar entre os melhores do mundo, com seu estilo diferente e a sua boa onda vai estar, com certeza, no trio que este ano vai disputar o título mundial (juntamente com Medina e JJF). Os treinadores de surf, muitas vezes esquecidos, são fundamentais no sucesso competitivo de um atleta. Jovens nunca se esqueçam dos treinadores que tiveram ao longo da vida, pois estes investiram muito deles em vocês! Parabéns ao “Micro”, excelente trabalho.

 

As ondas e as decisões dos calls

As ondas estiveram muito boas em grande parte do evento, a decisão de aguardar pela chegada do swell foi positiva e as fases finais para o ultimo dia. Eventualmente, no dia anterior, o espectáculo teria sido melhor, mas creio que deviam ter limitações para finalizar o evento nesse dia.

 

O julgamento e os casos da prova

Este foi um evento especial, estamos a falar dos melhores juízes do mundo e mais uma vez tivemos a presença do juiz português Nuno Trigo, facto que nos deixa muito orgulhosos e mostra que o julgamento em Portugal tem muita qualidade. A prova correu bem em termos gerais, inclusivamente nas situações de interferências e prioridades. É uma prova que a perceção de estar no local faz bastante diferença.

 

Relativamente aos casos da prova a decisão mais contestada foi precisamente a onda do Gabriel Medina. Os comentadores fizeram a seguinte observação: “Greatest 6.97 of the story of the sport.” Tenho de concordar, pois quando vi fiquei arrepiado e realmente mexeu comigo. As ondas não estavam muito grandes, mas até esta fase da prova esta foi definitivamente uma das maiores ondas que entrou. É um facto que tivemos sempre a ver o bico da prancha, mas o tubo era intenso e o Medina atrasou com as duas mãos de forma a tentar ficar mais profundo e quando saiu ainda fez aquele Alley-oop gigante que aterrou numa zona flat da onda. Imaginam o que é fazer um Alley-oop nestas secções de Cloudbreak?!? Pensei que entraria na zona excelente da escala…

 

 

Para finalizar, foi também a despedida de um dos melhores de sempre, o genial Taj Burrow. Desde o primeiro dia que entrou no Tour até ao heat em que se despediu, foi sempre sensacional e este foi sem sombra de dúvida o melhor heat do evento. Não sei como é que o World Tour vai recuperar de uma baixa destas… Thanks Taj, great  influence to all!

 

 

A próxima etapa é o J-Bay Open e tem lugar nas fantásticas e progressivas direitas de Jeffreys Bay, África do Sul, entre 6 e 17 de julho.

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